terça-feira, junho 03, 2014
sábado, maio 24, 2014
O Pássaro
[Com herança de caçador que tenho, com as armas que sei manejar, este tentei salvá-lo.
Tentei mesmo. Talvez tivesse sido melhor ter a coragem de lhe dar um tiro.]
O Pássaro
O pássaro entrou na biblioteca
Fugido da incerteza da natureza do mês de maio.
Da intempérie abrigou-se pelas várias estantes,
Adoptado ao cuidado dum livro,
Antigo de história e de fotografias,
Do seu exterior convicto de biologia.
Passaram-se os dias e a ave viu
O sol raiar nos atris extremos de oriente.
Olhou ao seu redor. De Baroja despediu-se com um pio
Agradecido. Reconheceu a León Felipe a realeza.
Súbdito de versos e orações de caminhante,
Fizera ninho num cantinho dedicado à lira.
E como se Deus o quisera, vislumbrou o horizonte
Nascente. A poente ficava o legado dos seus mestres.
Ligeiro voou, consolado que voava abrigado
Pelo bater das páginas dum outrora silencioso albergue.
Voou, voou. De árvores apenas via o seu papel
Duma janela transparente de barreira entre ele
E os seus.
As penas livres de movimento, mas de liberdade barrada por um vidro.
Acalmou suas penas, voou, do desânimo à confiança, à secção dos atlas
E encontrou na geografia um erro de ortografia e não de cartografia.
Pôs para trás das asas o fascínio das prateleiras que o abrigaram.
Pousou na realidade de madeira, aceitou o cansaço escapular,
Do regaço escapou-se ânimo e esperança. O toque final na asa
Deu-o ao aceitar o desespero, ignorando que o sofrimento e a dor
Não são o verdadeiro predador.
Caçador de si, esquivou chumbadas biográficas
E repousou, uma última vez, numa lombada de ficção.
Aterrou o olhar que ainda sobrevoava o corpo,
No outro lado, no cantinho onde descobrira naturalmente a poesia.
Um piar, sem lírica, expiou com pia violência
A sua alma aos campos da sua criação,
Dos seus pais, dos rios dos seus amores,
Ao vento, no qual ainda educou a voar seus filhos.
Desviveu, cansado do voar de tomo em tomo.
A direcção da saída camuflada estava. Desarrumada
Por uma pilha de livros. Morreu. Encontrei o seu cadáver
Na prateleira quando procurava “Os Jogos da Fome”.
segunda-feira, maio 19, 2014
Corporis (dedicado a José Manuel Méndez)
¿En un segmento
de un momento?
¿En el ignoto
ego despojado?
¿En una cámara
de tormento?
¿En un desnudo a
la minute?
La multitud de
versos,
Convexos y
blancos como el lienzo de la noche,
Lejano del
presente
Que grita
Que no estás.
Eres la duda.
El abismo
huérfano de ti mismo
Y del futuro
viuda de velo
Que descubre que
piel y alma
Son lo mismo.
Si la sal que
traigo en la epidermis,
Y no la estampa
de tu sudor encima de mí,
Son de lágrimas
residuos…
Que sea a blanco
y negro.
Saturada
Siento y me
siento…
Igual que tú en
cuclillas. Ausente.
Corpóreo en un
gesto
Pero con una
mirada aún por revelar.
(Foto de José Manuel Méndez, modelo Luisa Martinez)
quinta-feira, maio 08, 2014
A uma freira chamada dona Beatriz Pereira...
Gravura feita em 1792 pelo arquiteto
francês Jean-Jacques Lequeu
A uma freira chamada dona Beatriz Pereira
de Manuel Soares de Albergaria
Crescei, meu doce amor, minha Pereira,
Na devação que tendes a João,
Que inda podeis dar fruto temporão
Se acaso vos fazeis são joaneira.
Se não fora essa grade e a porteira,
Eu vos dera um enxerto de enche-mão,
Com o qual o travesso hortelão
Dá c'o ninho dávesso de uma freira.
Porém quando vos eu tal garfo der,
Haveis de dar a Amor dele tributo,
Que de qualquer trabalho sempre o quer.
Se saímos de aqui a pé enxuto,
Farei como homem, vós como mulher,
De outrem será a enveja, e nosso o fruto.
(Lido aqui: Árvore de Letras)
de Manuel Soares de Albergaria
Crescei, meu doce amor, minha Pereira,
Na devação que tendes a João,
Que inda podeis dar fruto temporão
Se acaso vos fazeis são joaneira.
Se não fora essa grade e a porteira,
Eu vos dera um enxerto de enche-mão,
Com o qual o travesso hortelão
Dá c'o ninho dávesso de uma freira.
Porém quando vos eu tal garfo der,
Haveis de dar a Amor dele tributo,
Que de qualquer trabalho sempre o quer.
Se saímos de aqui a pé enxuto,
Farei como homem, vós como mulher,
De outrem será a enveja, e nosso o fruto.
(Lido aqui: Árvore de Letras)
terça-feira, abril 29, 2014
O aroma do alento
O aroma do alento
Trá-lo de suão o vento,
Mas no Alentejo dos temperos
Encontra-lo num raminho de coentros.
António Orla
sexta-feira, abril 25, 2014
Os vampiros (José Afonso - Sérgio Godinho)
(Fotografia de António Luís Sousa)
O último concerto de Zeca Afonso em 29 de Janeiro de 1983, no Coliseu
Temáticas:
Actualidade,
Música,
Portugal
quinta-feira, abril 24, 2014
Acta de Abril (ainda por aprovar)
Acta de
Abril (ainda por aprovar)
Num país obscuro, numa exacta madrugada do vigésimo
quinto dia do quarto mês do ano de 1974, no Terreiro do Paço (posteriormente no
Largo do Carmo) e tendo a maioria cidadã recém-desoprimida, teve lugar o começo
de uma utopia florida a cravo vermelho.
Na impossibilidade de nomear todos os presentes,
identifica-se apenas o seu porta-voz:
Fernando José Salgueiro Maia.
Patente:
De cavalaria capitão.
Estiveram ausentes:
Todos os descrentes que em cada rosto existe
igualdade.
Ordem do dia:
1)
Restaurar a
liberdade;
2)
Recuperar a
dignidade;
3)
Reimplantar a
esperança;
4)
Readquirir o
direito a questionar em alta voz.
Todos os presentes efusivamente renegam o dia 24. A
emancipação de um povo saiu à rua. A imperfeição não se erradicou, apenas disso
ficou a sensação. A integridade voltou para os braços da sua mulher em Santarém.
E, nada mais havendo a tratar, foi lavrada a presente
acta que, nunca será lida nem aprovada, muito menos vai ser assinada pelo
actual Presidente da República, apenas por mim, um sonhador, na qualidade de
secretário, que a redigi.
terça-feira, abril 22, 2014
terça-feira, abril 15, 2014
domingo, abril 13, 2014
James Dean (1954)
segunda-feira, abril 07, 2014
Sul (Jorge Fallorca)
Memória descritiva
O Sul não existe.
E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.
Jorge Fallorca
[Longe do mundo; frenesi, 2004]
O cheiro dos livros é o blogue de Jorge Fallorca, que infelizmente morreu há poucos dias. Vale a pena visitá-lo, a sério.
Sul
O Sul não existe.
E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.
Jorge Fallorca
[Longe do mundo; frenesi, 2004]
O cheiro dos livros é o blogue de Jorge Fallorca, que infelizmente morreu há poucos dias. Vale a pena visitá-lo, a sério.
A ti me confesso converso.
Como começar um verso
que não tem passado
nem futuro?
Com o presente da incerteza
ou com a delicadeza do acaso,
Furtuito e furtivo,
Em cada minuto que vivo
Anelando
Uma qualquer paz perspicaz?
Todo o universo não cabe num verso.
Um verso, uno, dificilmente divisível,
Jaz fraccionado pelo ego e seu manejo.
À nossa frente está o acidente do presente.
Não há verso, reverso, perverso… incontrolado.
Fernando. Onde estás travesso?
- Aqui, de pé, cómodo encostado à cómoda.
Ouço alguém a entrar e fechar a porta.
A oportunidade, mãe de verdade, tem tendência à orfandade.
Não quero ar fresco. Gosto de ambientes tétricos. Ridículos.
Do outro lado está o mistério métrico dum verso.
Ansiando um começo, tropeço, em mim mesmo, e escrevo:
Prosa, a ti os meus versos devo.
que não tem passado
nem futuro?
Com o presente da incerteza
ou com a delicadeza do acaso,
Furtuito e furtivo,
Em cada minuto que vivo
Anelando
Uma qualquer paz perspicaz?
Todo o universo não cabe num verso.
Um verso, uno, dificilmente divisível,
Jaz fraccionado pelo ego e seu manejo.
À nossa frente está o acidente do presente.
Não há verso, reverso, perverso… incontrolado.
Fernando. Onde estás travesso?
- Aqui, de pé, cómodo encostado à cómoda.
Ouço alguém a entrar e fechar a porta.
A oportunidade, mãe de verdade, tem tendência à orfandade.
Não quero ar fresco. Gosto de ambientes tétricos. Ridículos.
Do outro lado está o mistério métrico dum verso.
Ansiando um começo, tropeço, em mim mesmo, e escrevo:
Prosa, a ti os meus versos devo.
quarta-feira, abril 02, 2014
Câmara fotográfica de Miroslav Tichý
domingo, março 30, 2014
quinta-feira, março 27, 2014
Diário I: A minha aparição, nesta linha onde o Bexiguinhas matou aquela galinha.
“E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.”
Vergílio Ferreira, Aparição
Sento-me aqui nesta linha e recordo.
(Uma linha de pouco serve
Se se sentencia tudo pela mesma bitola)
Pé ante pé, na ferrugem do carril
Da largura da minha sola de sapato
Como percorri gerações de caminhos
De ferro por onde já poucas vezes passam
Comboios, automotoras, dresines.
Gente.
Todas as infâncias têm um descampado.
Algumas têm uma linha.
O meu passado escampado
Tem uma cabana,
A morte num cão, uma campa
Florida, rendida à inocência de dois irmãos e uma
vizinha.
Tem uma raposa morta,
Uma salta-pocinhas escalpada
Da curiosidade esfolada à putrefacção.
Tem cardos. Tem fardos na paisagem seca da eira.
Mas tem pistas, montes, barrancos de bmx,
(Identificadas com esponjas no volante, cobertas com napa
agarradas ao velcro)
Território ocupado pela gaiatagem do bairro que tanto
Atraiu outros ao seu território, atraiu a passar a linha.
As batalhas fronteiriças resolviam-se à pedrada,
A munição mais à mão de semear
Imperfeita como paralelos mas ótima para arremessar.
Não participei nestas épicas batalhas de joelheiras nas
calças sem marca de ganga.
Não tinha idade, nem cabedal de fisga, para me alistar.
A salvo, pela linha, não fugi para casa, fiquei a observar
Camaradas a apedrejar pelo que era seu,
Sustido por carris aparafusados a travessas secas,
Manchadas a óleo
Das engrenagens do comboio.
Para que esta crónica seja digna
Encontrar-lhe-emos um prego,
Com um número qualquer
De dois algarismos.
Do maquinista que percorre a linha nasceu este cronista.
Montado no seu cavalo de ferro
Trazia para casa o bom cheiro
Que leva o que leva o viajante.
O cheiro do maquinista que, como aqui escrevo, conquista
O direito a apear-nos sãos e salvos, mais ricos.
O descampado não tinha trabalhos de casa. Já tinham que
estar feitos e sem nenhum trauma.
Tinha a odisseia da feia vegetação e do entulho ilegal
que todos entulhávamos e com o qual coexistíamos. Era esse o ambiente dos
guardiães da linha.
Esta não seria a mesma sem um quarteto fantástico, como o
que lia em bandas desenhadas brasileiras, mas americanas, com as minhas ilusões
de heroísmo.
Eu. Um amigalhaço de bombeiros. Amigalhaço (amizade forte
como o aço).
Com o Carlos. O melhor amigo que o Karate Kid podia ter.
E dois gémeos. Diferentemente iguais. Arqui-inimigos de
primária sem os quais o meu heroísmo de bd não podia viver.
Como havia tanto amor em não suportar essas almas.
O Nuno Gémeo era para sempre o meu colega de carteira e
certeiro com o seu sorriso que melhor me faz. (desculpa a camisa rasgada na
emboscada na entrada da casa, dos prédios da caixa, da avó do Caíta)
O Luís Gémeo, irrequieto e desperto, colecionador de
sacos de plástico de giz. (a professora ficou espantada depois de dizer:
- tragam todo o giz que tiverem em casa!
E aí a deixaste plantada, com a sinceridade de criança
num saco de plástico cheio de cal branca com o qual escreveste esse episódio)
Lembras-te quando sacaste o corta-unhas (com capa grilos)
ao Carlos? Que violência tão descarada! Como a espessura da tua juba, louca,
adjectivo da pluralidade da nossa puerilidade.
A linha do nosso descampado unia todos. Une. Mesmo a
linha ténue da memória. Da estação até Mora, Estremoz, Portalegre, ou até qualquer um de
nós. Apeava e albergava um Carlos, um Luís, dois gémeos. Traçava a boa saúde de
um bairro e parecia-nos, diante dos olhos, nos delinear a infância,
dando-nos, ao mesmo tempo, hora a hora, um comboio para sair.
Eu saí. Apanhei o Lusitânia.
Mas continuo convosco sentado naqueles montes de torrões.
Naquela terra.
A contarmos vagões.
Um. Dois. Três com a sigla da CP.
À frente conduz o meu pai. Esperamo-lo no descampado.
Olha pá, o Sr. Pinto acenou-nos descansado.
Tem a certeza que já fizemos o ditado
Porque esse era o nosso TPC.quarta-feira, março 26, 2014
ABRIL por Luis Leal (artigo para "Moñino Times", 2014)
No es
la primera vez que escribo sobre abril. Ni la segunda, y no me parece que vaya
a ser la última. No escribo sobre el cuarto mes del año, ni de su perspectiva
en el calendario, de cómo puede tener aguas mil o primaverales sonrisas
abiertas por días soleados. Eso tiene que ver con milenios de herencia climatológica
y no se puede confundir con este Abril de la “ternura de los cuarenta” o,
teniendo en cuenta la coyuntura actual, el Abril de la crisis de los cuarenta,
como le venden la moto, sin que le haga falta probar que mantiene su espíritu original.
Seguro
que, los más atentos, o los que conozcan un poco del siglo XX portugués, sabéis
que escribo sobre “otro” Abril, que me atrevo a escribir con mayúscula, quizás
más lírico que primaveral, un Abril florido por la libertad agarrada, con el
puño cerrado, a un clavel. Eso se pasó hace precisamente cuatro décadas, en el
25, ese clavel salió a la calle y acabó con una de las dictaduras más largas
del último siglo.
Portugal,
este país aquí al lado, este hermano de raya recortada de 1234 km dibujada a lo
largo de ocho siglos, es evidentemente pequeño y residual para la economía mundial.
Se caracteriza por PIBs y presupuestos generales raros, rectangulares (como la forma
geográfica que adoptó como su frontera, la más antigua de Europa), con crisis anacrónicas
que insisten en seguir en el orden del día (al mismo tiempo tan útiles para
justificar desigualdades que se perpetúan en su DNA sociocultural), pero a esto
se junta un efecto antiinflamatorio y baños de iodo en un atlántico paliativo
vigilado por Fátima, la virgen vigilante de la playa.
Si
hablamos en estos términos tan de moda de macroeconomías (léxico de microespíritus y empatías
deficitarias), potencias, tipo G7 (una menos, porque estamos enfadados con la
Federación Rusa), el país vecino no se impone. La única G que conoce es de la
ametralladora G3, recuerdo del estrés postraumático del Ultramar, herida
abierta obligada, infectada, o, en buen día, en un ambiente de optimismo que no
abunda hoy en día en el seno de Troikas, FMIs o austeridades, le podrá recordar
que esa misma arma fue callada por claveles rojos, sin ideología pero de
esperanza.
Es en
este ámbito que Portugal se puede imponer. Con su cultura, su historia real, no
solamente trágica, para justificar un “fado” patrimonio intangible de la
humanidad, el lirismo es igual de intangible y su insolvencia mata tanto como
la escasez de pan.
Hace
cuarenta años, este pequeño país amordazado devolvió la esperanza de libertad a
una península sumergida, aislada, por dos regímenes cómplices, pero,
convenientemente, de espaldas.
Hace
cuarenta años, en una mañana fría de abril, según los versos de Pedro Ayres de Magalhães, “un gesto puro coincidió con la
multitud que todo esperaba y descubrió que la razón de un pueblo entero lleva tiempo
a construirse”.
Hace
cuarenta años, quien vivió Abril, se acostaba con la sensación que había
cambiado el mundo. La historia hoy nos dice que sí. Es verdad. La gente ya podía
ver en los cines la violencia “for the sake of violence” de “La Naranja
Mecánica”, el erotismo de mantequilla de “El Último Tango en París” y, también,
el sentido común de Burt Lancaster en “El Gatopardo”.
Se pasaron
cuarenta años. El gesto puro creció y una multitud centrífuga le apartó de su
esencia. Es decir, emigró. La esperanza se fue con el huracán Maddof (de los
mercados), pero en facebook dijeron que algunos pelos se quedaron en los árboles.
Pronto se esperan más tweets.
Sin
embargo, yo sigo aquí, delante del ordenador, seguro que escribo sobre un Abril
portugués, pero con la sensación que, si TVE me llamara, sería capaz de hacer una
transición democrática para un episodio de “Cuéntame”, hacer el puente con la
realidad de la simpática familia Alcántara.
quinta-feira, março 20, 2014
segunda-feira, março 17, 2014
El reloj de la biblioteca
En
la pared de la biblioteca,
Las
agujas del reloj se vuelven atrás.
El
defectuoso mecanismo,
[Crónico],
Me
obliga a aceptar,
[Colgado],
Que el
pasado
Es evidente
delante de nuestros ojos.
Todo
este tictac,
Viajero
en el tiempo,
Me
despierta,
Como
una aguja que me pincha,
Con
el dolor
De no
poder volver atrás.
Abrazar
tu olor.
Pero,
lo peor,
Es que
este reloj
No tiene
futuro.
Ni
esperanza de arreglo.
Pues
no merece la pena
Invertir
tiempo en el tiempo.
Definição de lirismo
Li-ris-mo:
(substantivo masculino)
Hipotecar-se para que a sua poesia possa publicar-se.sexta-feira, março 14, 2014
Dois cacófatos numa quadra brasileira
quinta-feira, março 13, 2014
domingo, março 09, 2014
sexta-feira, fevereiro 28, 2014
domingo, fevereiro 23, 2014
Um desenho de Paulo Ito
Temáticas:
Artes Plásticas,
Bicicletas
sábado, fevereiro 22, 2014
Câmeras fotográficas antigas #2: 1880-1900
Nas últimas décadas do século XIX as câmeras fotográficas evoluíram bastante e tornaram-se mais pequenas, mais leves e mais acessíveis. Um dos factores por trás desta evolução foi o aperfeiçoamento das chapas e das emulsões sensíveis; o outro chamou-se George Eastman. Este é o segundo artigo dedicado às câmeras fotográficas antigas.
Obvious (tem também o primeiro artigo)
Obvious (tem também o primeiro artigo)
sexta-feira, fevereiro 21, 2014
A uma quadrada pedra que apanhei e me acompanha no caminho...
A Pedro L. Cuadrado.
Que nunca quis ser meu mestre,
mas sim meu amigo…
Não há forma mais humilde de mestria.
33 anos nos separam desde o meu
berço.
É a única raia, certificada,
que entre nós existe.
O nó cego, esse, bem penteado,
não se desate,
não desaperte a corda atada a
Pedro, minha
pedra, papel, pilar lírico de
apontamentos
na margem esquerda do livro, o
lembrete,
a lápis que não rejeita um
verso, quanto
mais três, a quem quer que por
bem vier.
A mestria da grandeza do
infinito é subtil,
e inútil, convenhamos. Adversa
à rima,
à métrica, a cartesiana
estética do útil
não nos faz advir sem a tétrica
do contratempo.
Encurtam-se braços de abraços.
Apartam-se pedras
de sendas angulares e, a
paisagem, essa, paupérrima.
(Sem que de isso, uma inteira
existência, nos tenhamos dado conta. Passa-se e não nos apercebemos que os
melhores pilares são feitos de pedra. Granito frio, extraído em Zamora e
trabalhado por mães de artesãos salmantinos. A erosão do tempo foi-o levando
rumo ao sul… onde, como dizia Gedeão, “me sento e descanso”)
quinta-feira, fevereiro 20, 2014
Carta ao Pai (Fernado Tordo)
Seguem-se as linhas que o escritor João Tordo dedicou em carta ao seu pai, o músico Fernando Tordo, que aos 65 anos, emigrou para o Brasil.
" Ontem, o meu pai foi-se embora. Não vem e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos.
A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira.
Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar.
Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo. Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida.
Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros.
Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós – e como todos os autores destes singelos insultos –, fez aquilo que lhe restava fazer.
Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje – Carminho, Carlos do Carmo, Mariza, são incontáveis –, fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música.
Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece. Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha.
Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país – do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos. Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar.
Não queremos mudar. Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui – e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte –, pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora."
João Tordo
in PÚBLICO, 19/02/2014
terça-feira, fevereiro 18, 2014
Amor
O amor não se encontra. Faz-se.
Respira-se, transpira-se, chora-se, ri-se.
Nasce e morre.
O amor não tem primeira,
Nem última vista. É míope.
Vê melhor ao perto que ao longe.
O amor não tem idade.
Aprendes a relativizar
Na infantil maturidade.
E, com sorte,
Antes que te separe a morte,
Rir-te-ás com humor de velho
(cúmplice de ti mesmo
numa gargalhada rouca de companhia
daquele com quem pudemos ter
a última conversa do dia).
O amor é aquilo que se vai fazendo dele.
Em português são quatro letras
Para cinco sentidos
E apenas uma vida.
domingo, fevereiro 09, 2014
segunda-feira, fevereiro 03, 2014
Uma questão de costumes (Fernando Campos)
Drummond e O'Neill
Só pelo acaso é que aparecem aqui estes poemas de Drummond e O'Neill. Bem-vindos sejam sempre estes dois poetas às nossas mãos.
JANELA
Tarde dominga tarde
pacificada como os atos definitivos.
Algumas folhas de amendoeira expiram em degradado vermelho.
Outras estão apenas nascendo,
verde polido onde a luz estala.
O tronco é o mesmo
e todas as folhas são a mesma antiga
folha
a brotar de seu fim
enquanto roazmente
a vida, sem contraste, me destrói.
Carlos Drummond de Andrade
Lição de coisas (1965)
*******************************************
Ainda prefiro os bonecos de cachaporra,
contundentes, contundidos, esmocados,
com vozes de cana rachada e um toma toma toma
de quem não usa a moca para coçar os piolhos,
mas para rachar as cabeças.
O padreca, o diabo, a criadita,
o tarata, a velha alcoviteira, o galã
e, às vezes, um verdadeiro rato branco trapezista,
tramavam para nós a estafada estória
da nossa própria vida.
Mundo de pasta e de trapo
que armava barraca em qualquer canto
e sem contemplações pela moral de classe
nem as subtilezas de quem fica ileso
desancava os maus e beijocava os bons.
Ainda prefiro os bonecos de cachaporra.
Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses
matraquilhos da comédia humana.
Alexandre O'Neill
A saca de orelhas (1979)
quarta-feira, janeiro 22, 2014
O mau uso da lei da gravidade - Gonçalo M. Tavares
Dentro de mim, tenho a certeza que o Gonçalo M. Tavares quando escreveu o ponto número seis desta crónica se lembrou de um dia, há um ano atrás, em que um "espanholito", de boina inquieta e filosófica, lhe falou, em terras pacences, acerca do seu apreço pela obra do poeta Paul Celan.
Esse dia, o mais chuvoso da minha vida, ficou-nos marcado pela erosão da água em ambos. Não de Tavares, mas sim em mim e nesse meu “hermano” que, no pânico e violência da água, não se veem rosas. Somente a pressão do ferrolho de que não controlamos o nosso destino. Alternamos entre portas bem fechadas e postigos que vislumbram roseiras belas com orvalho, a pingar, nos picos.
domingo, janeiro 19, 2014
Olho (Escher)
segunda-feira, janeiro 13, 2014
domingo, janeiro 12, 2014
"Especulações Escatológicas" Dois poemas de Augusto Gil
Há já algum tempo que não percorria estes “senderos”. Verdade. Fruto do imediatismo das redes sociais esqueci um pouco este espaço que para mim é mais que uma mera gaveta de papéis digitais. Menos mal que o meu grande amigo Pedro L. Cuadrado, o melhor cúmplice que poderia ter neste espaço, não o deixa morrer.
Então, neste primeiro post de 2014, volto com um tema (ou temas) para mim tão especiais. Poesia e escatologia.
Apresento-vos esta pequena obra do poeta da Guarda, Augusto Gil, “Especulações Escatológicas” publicadas pela “Bosq-íman:os”. Um especial obrigado à minha amiga Catarina Lages que mo apresentou.
sexta-feira, janeiro 10, 2014
Beneficios de la bicicleta
segunda-feira, dezembro 16, 2013
segunda-feira, dezembro 09, 2013
domingo, dezembro 08, 2013
sábado, novembro 30, 2013
Do blogue 'Bianda'
Ó Luís, de um blogue feito em Cabo Verde: se calhar dá para acrescentares a esse teu trabalho dos palavrões, esse work in progress:
Filhos Radicais (Pais segurando firme)
Naia: Pai, hoje começamos a aprender os ordinais: sexagésimo, septuagésimo, octogésimo..
Eu: Uau, consegues até dizer essas palavras todas de enfiada!...
Naia: É, a professora disse que são palavrões, mas palavrões que podemos dizer - tratou de pontuar.
Eu (com súbito interesse): Ah é? E que palavrões que não podem dizer?
Naia: Mas não posso dizer!!..Mas tu dizes, papá, quando estás chateado..Dizes muito um que começa com P e termina com A.
Eu: Ah é, digo tanto assim? Hmm...E que outros conheces?
Naia (com um sorrisão): conheço um que está em "computador"
AHAHAHAHAHAH (Saiu-me uma gargalhada dessas do fundo do poço!)
Eu (com acrescentado interesse): Que mais?
Naia: Tem um que começa com M e termina com A
Eu (apavorado com a direção da conversa / mantendo a pose de cool)
Naia:...Acho que só conheço esses 3... (ela deve ter lido uma prisão de ventre repentina na minha cara e saiu com esse tranquilizante)
Eu (fingindo autoridade): Mas diz-me, onde se aprende isso tudo?
Naia: Ora, os meus colegas dizem palavrões a toda hora!..(a safadinha se safou)
Blogue Bianda (pub. 13.11.13)
Naia: Pai, hoje começamos a aprender os ordinais: sexagésimo, septuagésimo, octogésimo..
Eu: Uau, consegues até dizer essas palavras todas de enfiada!...
Naia: É, a professora disse que são palavrões, mas palavrões que podemos dizer - tratou de pontuar.
Eu (com súbito interesse): Ah é? E que palavrões que não podem dizer?
Naia: Mas não posso dizer!!..Mas tu dizes, papá, quando estás chateado..Dizes muito um que começa com P e termina com A.
Eu: Ah é, digo tanto assim? Hmm...E que outros conheces?
Naia (com um sorrisão): conheço um que está em "computador"
AHAHAHAHAHAH (Saiu-me uma gargalhada dessas do fundo do poço!)
Eu (com acrescentado interesse): Que mais?
Naia: Tem um que começa com M e termina com A
Eu (apavorado com a direção da conversa / mantendo a pose de cool)
Naia:...Acho que só conheço esses 3... (ela deve ter lido uma prisão de ventre repentina na minha cara e saiu com esse tranquilizante)
Eu (fingindo autoridade): Mas diz-me, onde se aprende isso tudo?
Naia: Ora, os meus colegas dizem palavrões a toda hora!..(a safadinha se safou)
Blogue Bianda (pub. 13.11.13)
sexta-feira, novembro 22, 2013
O rapaz da camisola verde (Pedro Homem de Mello)
Poema de Pedro Homem de Mello cantado por Sérgio Godinho.
O rapaz da camisola verde
De mãos nos bolso e de olhar distante,
Jeito de marinheiro ou de soldado,
Era um rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Perguntei-lhe quem era e ele me disse
“Sou do monte, Senhor, e um seu criado”.
Pobre rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Porque me assaltam turvos pensamentos?
Na minha frente estava um condenado.
Vai-te, rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Ouvindo-me, quedou-se o bravo moço,
Indiferente à raiva do meu brado,
E ali ficou de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Soube depois ali que se perdera
Esse que só eu pudera ter salvado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Pedro Homem de Melo
(Mais dados em Santa Nostalgia)
O rapaz da camisola verde
De mãos nos bolso e de olhar distante,
Jeito de marinheiro ou de soldado,
Era um rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Perguntei-lhe quem era e ele me disse
“Sou do monte, Senhor, e um seu criado”.
Pobre rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Porque me assaltam turvos pensamentos?
Na minha frente estava um condenado.
Vai-te, rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Ouvindo-me, quedou-se o bravo moço,
Indiferente à raiva do meu brado,
E ali ficou de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Soube depois ali que se perdera
Esse que só eu pudera ter salvado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Pedro Homem de Melo
(Mais dados em Santa Nostalgia)
terça-feira, novembro 19, 2013
segunda-feira, novembro 18, 2013
Auto-retrato (Alexandre O'Neill)
Depois de reler mais uma vez o auto-retrato do grande Bocage, venha cá o auto-retrato do grande Alexandre O'Neill:
AUTO-RETRATO
"O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angustia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omite-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada …)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse ..."
sábado, novembro 16, 2013
Silhuetas (Eduardo Hanazaki)
quarta-feira, novembro 13, 2013
Segundo balcão dos bombeiros (Fernando Assis Pacheco)
SEGUNDO BALCÃO DOS BOMBEIROS
Nesse tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?
ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro
por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfaro
o happy end é coisa dos cinemas
Fernando Assis Pacheco
(Em Arlindo Correia)
Nesse tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?
ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro
por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfaro
o happy end é coisa dos cinemas
Fernando Assis Pacheco
(Em Arlindo Correia)
domingo, novembro 10, 2013
Ofício de amar (Al Berto)
OFÍCIO DE AMAR
já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio
de outras galáxias, e o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silencio.....
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo
Al Berto
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio
de outras galáxias, e o remorso
um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silencio.....
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas
ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo
Al Berto
quarta-feira, novembro 06, 2013
LISBOA-1971 (Jorge de Sena)
LISBOA-1971
O chofer de taxi queixava-se da vida.
Ganha 400$00 por semana, o patrão conta
que ele se arranje do a mais com as gorjetas.
Os meus amigos morrem de cancro,
de tédio, de páginas literárias,
vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu
na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele
só queria por enquanto «calçar» uma das
que, artificiais, lhe preparou tão róseas).
As pessoas esperam com raiva surda e muita paciência
o autocarro, aumento de ordenado, a chegada
do Paracleto, bolsas de sopa do convento.
Mas o chófer de taxi contou-me que
discutira com um asno e lhe dissera:
«...V. que nesse tempo andava a fugir
de colhão para colhão de seu pai
para ver se escapava a ser filho da puta...»
E é isto: andam de colhão para colhão
a ver se escapam – e muitos não escapam.
E os outros não escapam aos que não escaparam.
Lisboa, 5 Agosto 1971
segunda-feira, novembro 04, 2013
"Vivia no mundo das nuvens..." (Daniel Cramer)
domingo, novembro 03, 2013
"MORTE? Mas eu preciso fazer muita coisa ainda!"
Fabiano Alvez
quinta-feira, outubro 31, 2013
no dia de todos os mortos
(por quem não me esqueci)
inteiriço e frio nasce o sol no dia de todos os mortos.
com um caminhar apagado
passo.
o vendedor arruma consolador
cada flor na bancada
(ordenada pelas mais tristes sortes)
margaridas, crisântemos, cravos, lírios
plantas canónicas sem santa sé.
umas outras tantas, pagãs, que não perecem.
plástico que impede o pranto das velas
e o solidificar das lágrimas,
como as salientes veias das mãos de quem as acende.
passo
à frente de gente que vela finados
e a porta do cemitério (sempre aberta) fechada a
cadeados.
Eu passo.
(horário das oito às dezasseis, exceto feriados).
o olhar do vendedor e o meu cumprimentam-se num atalho
(conhecemo-nos e os nossos olhares também)
nunca lhe comprei nenhuma flor,
(para a dor tenho um jardim secreto)
e eu passo comigo oculto em reminiscências.
minhas.
dos meus.
dos que não me serão omitidos.
(já eu não sei se terei flores de época ou de molde
perene de poliuretano
- hoje por hoje não quero- amanhã quem sabe?)
afasto-me, mas passo.
deixo os primeiros bafos a cristalizarem o ar
na breve chegada de mais um inverno.
passo e aparto-me do constrangimento da memória
aproveito a porta aberta aos cadeados do corpo
e a entreaberta janela curiosa do espírito.
vou fugindo enquanto posso.
MMXIII
segunda-feira, outubro 28, 2013
Maria dos mil sorrisos (Vitorino)
Havia muitos anos que não escutava esta beleza do amigo Vitorino. Dei por acaso com ela e que saudades, meu amigo!
MARIA DOS MIL SORRISOS
Maria dos mil sorrisos
Alma ao largo sem avisos
Coração a dar a dar
Lua nova em céu mortiço
te proteja do enguiço
e das fúrias d´além mar
Na rua onde tu passas
Mandei embora as desgraças
Num copinho de licor
No mistério da tua porta
encontrei morada certa
P´ra dar de beber à dor
Se me deres o teu retrato
Dou-te o meu lenço bordado
Com a flor do laranjal
Anda agora muito em moda
Trança negra rubra rosa
Rebuçados no amar
Maria não vás ao beco
Está cheio de figas e medos
Vê lá bem os meus cuidados
Dos teus olhos estou lembrado
Num dia no Bairro Alto
Seus amores tão delicados
Maria dos mil sorrisos
Alma ao largo sem avisos
Coração a dar a dar
Lua nova em céu mortiço
te proteja do enguiço
e das fúrias d´além mar
Na rua onde tu passas
Mandei embora as desgraças
Num copinho de licor
No mistério da tua porta
encontrei morada certa
P´ra dar de beber à dor
Se me deres o teu retrato
Dou-te o meu lenço bordado
Com a flor do laranjal
Anda agora muito em moda
Trança negra rubra rosa
Rebuçados no amar
Maria não vás ao beco
Está cheio de figas e medos
Vê lá bem os meus cuidados
Dos teus olhos estou lembrado
Num dia no Bairro Alto
Seus amores tão delicados
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