quarta-feira, agosto 10, 2016

Cantares que fazem pontes – Luis Leal (Revista "Mais Alentejo" nº134)

Se em Portugal se cita constantemente Fernando Pessoa, Camões ou, como parece que é típico dos discursos de investidura dos Presidentes da República, Miguel Torga, em Espanha, Antonio Machado vê frequentemente os seus versos por conta de outrem. Os mais usados, em todo o tipo de situações, desde as protocolares às mais mundanas, talvez sejam estes que aqui traduzo de forma recordá-los ao meu estimado leitor: “Tudo passa e tudo permanece,/mas para nós é passar,/passar a fazer caminho,/ caminho sobre o mar. (…) Caminhante, são tuas pegadas/ o caminho e nada mais;/ Caminhante, não há caminho,/ faz-se o caminho a andar.”

Anos mais tarde, Joan Manuel Serrat musicou-os e gravou uma canção que considero das mais bonitas da música popular espanhola. Este grande músico, catalão por nascimento, cuja pena é tão doce quanto a voz, é um símbolo desta ibéria submersa numa diversidade que não se esgota em questões de nacionalidade no espaço peninsular. Sabemos que estão na ordem do dia e, para os olhares atentos, é fácil identificar a primazia da economia e da política por cima duma maioria orgulhosa da sua cultura e nação, sem pretensão a mais fragmentação do que aquela já existente.

A região que me adoptou é um claro exemplo disso. “Castúa” e castiça, a Extremadura orgulha-se de ser um território caracterizado por possuir as melhores pontes do mundo ocidental, com destaque para a jóia romana de Alcântara e a renascentista de Almaraz, ambas erguidas sobre o rio Tejo. Mais a sul, o Guadiana tem também a sorte de partilhar, em ambas as margens, os destroços visíveis de uma ponte-fortaleza, a última do seu género na Europa, cuja grande abóbada central se antecipou, quase um século, à mundialmente famosa de Rialto, na elegante Veneza. Há mais de três séculos, em 1709, o marquês de Bay destruiu esta ponte, elevando-a assim à categoria de ruína. Até que ponto a vida não é isso, necessidade de construir pontes ou derrubá-las em escombros para manter a integridade do nosso espaço vital?

Roberto Juarroz acreditava que “pensar em alguém é parecido a salvá-lo”. Vejo esta crença como uma espécie de salva-vidas de lembrança que nos permite resgatar ou fazer pontes com os outros. 

Na margem espanhola da Ponte Ajuda encontramos Olivença, neta de Portugal e filha de Espanha, e o melhor exemplo do que é ser-se português do outro lado da fronteira, apenas há que parar e prestar atenção.

E foi o que fiz. Há quase uma década, parei, olhei e ouvi. Em Olivença descobri um dos melhores projectos de “folk music” que conheço, os Acetre. Com 40 anos de actividade, impuseram-se como o grande referente “extremeño” de “world music” à qual a sua condição fronteiriça foi fundamental.

Quis o acaso que viver entre duas terras se convertesse em ajuda, em ponte, entre este grupo musical oliventino e as minhas raízes de cante aprendido daqueles que mo ensinaram. Quis também o acaso que não pudesse assistir ao vivo, nem em Badajoz, nem em Cáceres, aos Acetre a cantarem com o Mestre Joaquim Soares e o Grupo de Cantares de Évora.

Ao contrário do silêncio desta tarde quente de modorra em que escrevo, dessas em que ninguém pode acusar a sesta de costume de preguiça, destes cantares sinto uma ressonância afinada, uma arquitectura raiana de sons a edificarem-se numa ponte comum a dois povos. Ao ouvir esta melodia, um pouco como o poeta argentino, por momentos, acredito nessa salvação maior do que qualquer pensamento.

Leiria. Vida comercial. Shopping Center.

Já por lá andava há algum tempo, a meteorologia lá fora tinha mais influência desértica que atlântica, quando me deu vontade de ir à casa de banho. Muitos dos que por lá andavam faziam o mesmo que eu, fugir à hora do calor, mas a maioria sentia como o fim-de-semana se consumia neste templo de consumo. Vive-se assim, eu não sou excepção, nem tenho moral para divagar sobre o que cada um pode (ou deve) relacionar-se com o comércio e as suas necessidades materiais. 

Mas de caminho para um chichi (ou será "xixi" com x?) deparo-me com com senhor, talvez com uns 45 anos, de bermudas e chinelo no dedo, como convida a época estival, com uma espécie de um "certo" grande tatuado na coxa direita à descoberta do calção. Estou tão habituado a corrigir exercícios, a pôr "certos" com prazer, que sei que essa não é uma marca de reforço pedagógico ou reconhecimento de bom trabalho. É uma marca, sem dúvida, cuja única nascença foi ter sido registada e patenteada numa conservatória dos EUA. 
Tem por detrás a protecção da mitologia da deusa grega da vitória que, no século XX, se revisitou para umas sapatilhas desportivas e a partir de então foi um sem parar de facturar. Apenas o fez. Gosto de tatuagens, tenho algumas que são as minhas marcas registadas de símbolos pessoais, bem lamechas, como só na minha pele podem ser, mas pergunto-me o que é que terá levado este gajo, companheiro de urina no mesmo shopping do que eu, a tatuar a mais valiosa marca desportiva do mundo na sua pele. Não acredito que tenham sido milhões de dólares, mas imagino milhões de motivos, confesso que nenhum me faz pensar na deusa da vitória, mas muitos fazem-me rir de desconcerto, tipo aquelas imagens de humor em que um crocodilo se veste com pólos da Lacoste, não necessitamos muita imaginação.
"Nos dias de hoje,  quando todos sentimos a obrigação, sob pena de nos vermos condenados in absentia pelo delito de lesa-respeitabilidade, de laborar em alguma atividade lucrativa com um zelo próximo do entusiasmo, qualquer clamor da fação oposta, dos que se contentam com o suficiente e preferem ficar à parte a observar, terá sempre o seu quê de fanfarronice." Robert Louis Stevenson

Foz do Arelho

Estou cansado mas tenho tanto para aprender que não consigo deixar de querer absorver tudo o que vejo. Os meus filhos fascinam-me, a sua mãe deslumbra-me, e a minha gratidão por os ter em mim é infinita. No entanto, não posso deixar de tentar assimilar outras experiências a somar a este dia-a-dia familiar. Sei que não sou só pai, marido e trabalhador. 
Os poetas falam do absoluto, os místicos do transcendente, os cépticos não sabem do quê... Já eu, neste presente, sei-o bem. Movimento. Acção e contemplação. Desfrutar do movimento e contemplá-lo como uma baliza cronológica... e escrevê-lo aqui, por outra tendência que tenho... esquecer-me.  

Leiria, 6/VIII/2016

Vir a Leiria é sempre assumir a presença desta cidade na minha vida. Vir a Leiria é ser assertivo, não querer julgar o outro e estar decidido a não perder mais tempo. 
Os anos fizeram que esta cidade também fosse da minha família, aquela que vive longe mas que me esforço por visitar. Estou junto ao Lis, sozinho e tranquilo de incertezas. Na mão trago "O Mar de Madrid" porque sei que o mar em mim só se concebe por mero acaso, tal como o poeta que acho que sou, porque assumo as cidades às quais me impingi, como um bom atrevido sem medo de assumir-se.

terça-feira, agosto 02, 2016

Praticar. O verbo consciente.

Praticar. O verbo consciente. Faz-me crer ser forte através da identificação das minhas fraquezas com a franqueza da experiência. 

O verbo consciente, ao qual tenho devoção dada a minha irregularidade no que concerne às musas ou aos mecenas. 
Praticar. Como nas artes marciais com que forjei a lealdade ao punho primeiro que à letra. A ilusória segurança da repetição, do automatismo, do aumento da probabilidade de safar-me, adaptar-me, ao absurdo estatístico chamado mortalidade.

Portado de Verão

O portado é a parte mais importante de uma casa no Alentejo. Depois, imediatamente, vem a fachada caiada a branco e com um rodapé creme ou azul.
É o portado porque, além de apoiar o pé nas boas-vindas caseiras, apoia o traseiro num contemplar de fim de tarde veraneio em que todo o dia nos pediu sombra e fresco.
Se o serão se assume simpático, vai-se lá dentro buscar uma cadeira de praia e fica-se na conversa com as vizinhas da rua. Vêem-se as crianças a brincar aos jogos sem fronteiras, fala-se sobre a última contratação do Benfica, do gazpacho do almoço e dos restos que se aproveitam para a refeição ou dia seguinte.
O Alentejo é o portado de Portugal. Há portados por outras regiões e países fora que, tal como no Alentejo, se estão a perder.
Os portados estão em vias de extinção, morrem de velhos e não se renovam. Fecham-se em casa. O convite ao diálogo, à circunstância passageira ou à autorização de entrar-se no lar de cada um, evoluiu para uma timidez física extrovertida no meio digital. As redes sociais de conversa de cadeira de praia ao serão Alentejano são cada vez mais escassas mas um autêntico prazer quando as encontras.
Ontem lembrei-me como gostava de apanhar fresco na rua, no pátio, nessas esplanadas de vontade de ar menos abafado do que em casa, ao ver os meus filhos brincarem em Vale do Pereiro, na aldeia da minha família.
Ainda se ouvia a música do último dia da festa e comia-se com a porta aberta aos que na rua passavam. Os miúdos tomavam banho no tanque e brincavam a varrer a casa.
Sentei-me no portado a falar com o Jorge. As cadeiras sairam à rua e começaram a falar umas com as outras.
Em amena cavaqueira, tive de as abandonar, sentar-me ao volante dum carro que retirou os meus filhos da brincadeira de rua e voltar para o lado de dentro do portado, onde me escondo. Aqui onde vivo, já não sou o mesmo menino do bairro. Para ser fiel aos meus, tenho de me esconder ou passar a ser o portado.

segunda-feira, agosto 01, 2016

sábado, julho 30, 2016

Feeling blue in so much green... (Brinnington, 2016)

Se é caso disso, levem-me lá para trás e...

Posso ver com os meus olhos realidades que nunca imaginei ver. Tenho trabalho. Tenho saúde. Tenho mulher e filhos comigo igualmente bem de saúde. Alguma família e amigos fundamentais. Tenho uma almofada que dorme tranquila e que está à minha espera.
Por tudo isto, se alguém me ouve a queixar-me, por favor, levem-me lá para trás e espetem-me um tiro nos cornos...

quarta-feira, julho 27, 2016

Alguma vez seremos melhor do que isto?

Hoje estive no "Imperial War Museum" de Manchester. Ontem, e nos dias e semanas anteriores, falaram-nos de guerras religiosas, mata-se em prol do Islão, e não só, portanto o terror faz parte do discurso dominante. O Papa Francisco não cai nesse argumento simplista e já veio dizer que não há nenhuma guerra de religiões mas sim de interesses, poder e de recursos. Gosto deste gajo. Depois de tanto tempo, já não desconfio da sua figura apesar de continuar a criticar parte da instituição que representa.
Do outro lado do Atlântico, o Trump está à frente da Hillary nas sondagens e o Obama diz que a Rússia tem muito a ganhar com um idiota assim na Casa Branca. Reminiscências da guerra fria?
Neste museu não senti apologias bélicas ou pacifistas. Há uma cobertura única sobre o conflicto, desde a Primeira Guerra Mundial até ao presente, um estudo e entendimento da história da guerra moderna e do que é vivê-la como soldado, vítima, refugiado, dano colateral ou viver o pós-guerra. Trouxe um postal que quero pôr bem visível em casa. Lembrei-me de Sun Tsu. "Em tempo de paz não esqueças a guerra, em tempo de guerra não esqueças a paz". Não tenho boa memória para os "ipsis verbis" porém essa é a ideia.
No centro daquele edifício moderno, com o meu filho mais novo a berrar de teimosia, de birra de saturação de carrinho e de horas de autocarro, algo tão diferente do choro sincronizado com o zumbido e explosão posterior de bombas, tentei acalmá-lo consolando-o no meu colo. Sei que esta paz é ilusória. Temo por eles, por o mundo que se consome a si mesmo e temo que sejamos tão estúpidos para entregarmos os "Red Bottons" a quem nem sequer deveria de ter acesso a uma pistola de água.
Cresci filho duma guerra sem razão onde ia morrer obrigado o povo humilde, manipulado e sem recursos, português. Não conheço a guerra como vítima ou combatente, mas conheço bem o conceito e a história detrás desse conceito.
Sem ilusões mas sem duvidar de existir esperança, pergunto-me:
- "Alguma vez seremos melhor do que isto?"

terça-feira, julho 26, 2016

Notas processadas

Escrevo estas notas feitas diário quase sempre antes de me deitar. Fecho o dia com o inventário do que vivi e como o senti.
Estou em Inglaterra há uns dias, em Stockport, mais precisamente em Brinnington, uma das localidades periféricas mais pobres da grande Manchester. Estamos em casa da nossa "família africana", como já aqui escrevi numa entrada anterior, aquela que ganhei graças à minha mulher. Estou grato por isso.
Todos os dias nos deslocamos nos transportes públicos, de autocarro suburbano, para os passeios que damos por esta região que foi o berço da revolução industrial. Fazemos esse turismo ao lado de quem trabalha, sem pretensões de grandes atrações, mas com a certeza que sabemos e valorizamos o seu dia-a-dia que lhes põe pão na mesa.
Inglaterra é uma realidade social tão diferente da peninsular, apesar de todos os templos do consumo nos remeterem para a igualdade do ser em massas, global e tendencialmente acrítica, que não me atrevo a analizá-la. Escrevo aqui o que vi. Enumero sem nenhum rigor na ordem.
1- Há uma maioria de ingleses amparados pelo estado social. Dão nas vistas tal como alguns emigrantes que entendem e usufruem do sistema.
2- Os emigrantes são o motor da economia com trabalhos precários, ausentes de contratos laborais, mas no activo como população.
3- O poder político está totalmente afastado de aglomerados de prédios, periferias convertidas em burgos para dormidas de quem trabalha na grande cidade ou parasita porque lhes é permitido por esse poder para que se possa perpetuar ao comando do país.
4- Há videovigilância por todo o lado. O Orwell já o vaticinara na história da literatura deste país mas como um "big brother" totalitário. Aqui há totalitarismo misturado com paternalismo estatal. Atira-lhe umas migalhas que o povo abdica de tudo, da sua educação, da sua liberdade, da sua dignidade.
5- Nunca vi em tão pouco tempo e espaço tanta obesidade. Cresci a associar a gordura a quem tudo come e nada deixa para os outros. O menino rico com acesso aos chocolates e guloseimas lá do bairro há 30 anos atrás vai ao ginásio, come produtos naturais e tem nutricionista. O pobre apodrece no excesso fácil da nutrição rápida, processada para massas e aumenta o lastro que lhe solda as articulações e nunca conseguirá subir os degraus sociais.
5- Escrevo em Inglaterra, estou aqui por casualidade e atrevo-me a tirar conclusões que tiraria no bairro mais pobre da cidade onde vivo, mas o impacto visual influencia o que aqui redijo.
Há perversão nestes guetos. Do ser humano. Não há só oprimidos ou opressores. Há miséria de espírito e há muitos anos sei que este tipo de miséria não tem classe social. Uno-me a essa miséria, não a desprezo, rezo apenas para que estas palavras rápidas nutram alguém a ter consciência do que se é, do que se pode ser e do que o colectivo quer que sejamos. Sem moral processada como a comida que trago na mochila.

sexta-feira, julho 22, 2016

Poder fazer parte do dia-a-dia de quem emigra para ganhar o pão, nem que seja por uma semana, noutro país que não seja Espanha, é um privilégio do qual me sinto profundamente merecedor.
Em 24 horas pisei três países diferentes e falei três línguas diferentes. É inevitável fazer comparações, mas também é inevitável saber que fazer comparações quase sempre é perder tempo. Prefiro observar.
Espanha, Portugal e Inglaterra. Essa tríade com vértices em afectos como os que temos pela Deu e pelo Márcio, a nossa família africana, aquela que a minha mulher ganhou e nos deu para a vida.
Adormeço em Manchester, mais precisamente nos arredores de Rockport, e sei que estar aqui é algo tão necessário como o facto de gravar em palavras o que sinto.
Neste presente em que o Reino Unido se separa mais que geograficamente da Europa, em que há tantos movimentos extremistas baseados em ódios a movimentos migratórios, a credos, ao que quer que seja diferente, uno-me à coragem desta família para, através do trabalho duro (e que muitos ingleses não querem fazer), sentir que os lugares também se controem desde fora, mesmo que alguns pensem que os alicerces duma nação são uma base de cimento e areia puros... Uma casa não pode existir sendo só alicerces, essa verdade é tão importante como qualquer projeto de estabilidade que nos queiram vender.

terça-feira, julho 19, 2016

Com os termómetros a rondarem os 40º...

Com os termómetros a rondarem os 40º, a malta do bairro refrescava-se de mangueira e de alguidar… Já lá vão uns anitos, a mangueira e o alguidar eram da D. Adelaide Rosmaninho no seu quintal em Mira… Este “tesouro deprimente” (encontrado no baú do mestre Jorge Rosmaninho Neto) refresca-me a memória e ainda a pele cheira ao sabão azul com que me lavava no quintal dos meus avós…


Con los termómetros rondando los 40º, la pandilla del barrio se refrescaba de manguera y barreño… Ya pasaron unos añitos, la manguera y el barreño eran de D. Adelaide Rosmaninho en su jardín en Mira… Este “tesoro deprimente” (encontrado en el baúl del maestro Jorge Rosmaninho Neto) me refresca la memoria y todavía mi piel huele a jabón lagarto con el cual me lavaba en el jardín de mis abuelos…

segunda-feira, julho 18, 2016

“Não há nada…” (Jorge de Sena)




“Não há nada…”

Não há nada que canse estas crianças.
Pulam e gritam, de regresso a casa,
após longo passeio, como se
fosse apenas um caso de memória
o cansaço que traziam nas pernas e na noite.

Gritam, pulam, brigam,
já esquecidos de que estavam cansados.

É horrorosa esta energia indomável,
sem graça e sem encanto, que deleita e baba
os que fazem mentalmente os filhos que não querem ter
ou que não podem ter, ou que perderam.

Porque é gratuita, é inhumana, é
dissipação de um passado selvagem
que a cada hora espreita nos tranquilos gestos.

Eu sei que é a vida – a vida, oh sim, a vida –
manifestando-se nesses uivos, neste gosto
da grosseria, da brutalidade, e de andar sujo,
despenteado e descalço, o gosto
fascinante e medonho da degradação.

Não há nada que canse estes animais
que amamos com tédio, e pelos quais tememos
o futuro e a morte, ou mesmo os olhos deles.

Hão-de crescer cansados e viver cansados
da humanidade delicada e terna
que apenas um ou outro, menos bruto,
descobrirá por conta própria apenas.

Belas as crianças? Se o forem.
E porque o hão-de ser por serem minhas?
E porque hei-de fingir que os amo como gente,
se ninguém pensou nelas para serem feitas?
E porque hei-de aceitar que seja amor
este teimoso orgulho de ter crias?

Não há nada que canse estas crianças,
nem mesmo o desespero de que o sejam.

17/10/1965

Jorge de Sena

Visão Perpétua (1982)


"Visão Perpétua: A Poesia Oculta de Jorge de Sena.". Recensão de José Rodrigues de Paiva em Ler Jorge de Sena



terça-feira, julho 12, 2016

A caminho de Madrid

Viajar ou deslocarmo-nos em transportes públicos nunca nos deixa afastarmo-nos da realidade que o carro próprio cria. O ter de partilhar um espaço no destino de cada viajante é algo que tanto tem de castigo como de interessante. Quem sabe quem é que se vai sentar ao teu lado? 
De momento vou sozinho. O verão e o suor não convidam a grandes conversas. O destino sim. Aqueles que viajam por necessidade não acreditarão no mesmo do que os que viajam por obrigação. 
Já os turistas, como eu, não perdem tempo a pensar se é por necessidade ou obrigação. Acreditam que há uma agência de viagens de oportunidade. Aproveitam enquanto podem.

segunda-feira, julho 11, 2016

Portugal, campeão da Europa

Foi uma pena os meus avós não terem presenciado este momento. Só um país como Portugal poderia ter conquistado este troféu assim, a sofrer até ao final, com o capitão do navio fora da embarcação, a dar nas vistas pelas lágrimas com traças à mistura, a bater sem querer no treinador e nos colegas, mas, principalmente, sem o devido respeito pelo país anfitrião e adversário na final. Ganhou Portugal porque teve que ser, pela sorte que protege os trabalhadores, até mesmo os que costumam ter pouca. Ganhou a juventude.  Ganhou o jogador da liga menor e quase desconhecido.
Mas a verdade é que eu já não estou em Portugal, a minha avó morreu e o meu avô já nem sem apercebe se a sua seleção ganha em 1960 ou em 2016. 
Hoje deito-me a sentir-me emigrante, apesar das dezenas de quilómetros que me afastam do berço. Hoje deito-me com os gritos do vizinho Soares, na casa em frente no pátio, imaginados na memória.
Amanhã tudo isto será história. Portugal voltará a pagar as suas dívidas à Europa, mas neste 10 de Julho foi enorme! 

domingo, julho 10, 2016

sábado, julho 09, 2016

Um português sem medo de existir.

O Cristiano Ronaldo fascina-me. Sociologicamente, o estereótipo do português mudou bastante graças a ele.
O pobrezinho, humilde e honrado trabalhador que o salazarismo exportou, por exemplo, para a França desta final, nada tem a ver com este perfil aguerrido, seguro de si mesmo (arrogante, é verdade) e de superação neste mundo mediático e global, no qual Portugal, por vezes, tem medo de existir.
Exceto na ética de trabalho, herdada de séculos de emigração lusa. Essa dedicação e profissionalismo que lhe permitiu sair dum pobre bairro madeirense e ascender no mercantil mundo do futebol.
Ganhe ou não ganhe amanhã, eu guardo a imagem dum homem comum cujo maior talento foi superar-se naquilo que foram as suas circunstâncias. Um português sem medo de existir.

Cristiano Ronaldo me fascina. Sociológicamente, el estereotipo del portugués cambió bastante gracias a él.
El pobre, humilde y honrado trabajador que el salazarismo exportó, por ejemplo, a la Francia de esta final, nada tiene que ver con este perfil aguerrido, seguro de sí mismo (arrogante, é verdad) y de superación en este mundo mediático y global, en el cual Portugal, por veces, tiene miedo de existir.
Excepto en la ética de trabajo, herencia de siglos de emigración lusa. Esa dedicación y profesionalidad que le permitió salir de un pobre barrio de Madeira y ascender en el mercantil mundo del futbol.
Gane o no gane mañana, yo guardo la imagen de un hombre común cuyo mayor talento fue superarse en aquello que fueron sus circunstancias. Un portugués sin miedo de existir.  


(Excerto do poema “Ronaldo, o Estrangeirado” de 2014)


A propósito dum post dum reconhecido escritor português

Acabo de ler, escrito por um reconhecido autor português, que "ninguém, salvo raras excepções, antes dos cinquenta é um escritor sério", ou "a sério", não sei precisar e não me apetece reler o post.
Desconheço as suas excepções, mas imagino que pensará o mesmo para outras manifestações artísticas ou, até mesmo, para actividades profissionais.
Os anos vão passando e sinto que a idade não é um posto. Mesmo para as raras excepções.
Reconheço-lhe razão na necessidade de ter "biografia", até mesmo tempo (o Umberto Eco afirmava que só se dedicou mais à escrita quando os seus filhos já não lhe exigiam tanta atenção), anos de leitura, mas reconheço-lhe no tom, espero enganar-me, uma arrogância com a qual não me quero reconhecer. Ser escritor e ter espírito de crítico literário deve ser uma tarefa árdua,  fodido mesmo. Quando é que se é qual? 
Há beleza na ingenuidade. Há arte ingénua, "naif" não é? Há uma esperança na juventude que ainda não escreveu o suficiente para ter estilo ou, quando se escreve muito, para se copiar a ela própria.
Vou-me deitar a sentir-me mais velho e a deleitar-me com a escrita da juventude. Séria ou pouco séria, o que é que seria do futuro sem maçaricos ridículos a darem os primeiros passos e das mentes geriátricas que não se apercebem que estão a cair no ridículo?

quinta-feira, julho 07, 2016

quarta-feira, julho 06, 2016

Zamora, "Todos llevamos una ciudad dentro"

Zamora. Passeio à chuva de Julho

Chego a Zamora, revejo a papelada para amanhã, e ponho-me a caminhar pelas ruas paralelas e perpendiculares ao local onde estou instalado. Gosto de andar assim, sozinho no meio do dia-a-dia de gente alheia ao meu quotidiano, a olhar para os recantos tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes da cidade onde vivo. O céu não enganava ninguém. Anunciava chuva e trovoada desde o início da tarde. Apanhou-me próximo dum edificio público à espera de ser inaugurado na companhia de duas simpáticas senhoras idosas que partilhavam um chapéu de chuva transparente. Ali nos abrigámos os três enquanto esperávamos que escampasse. É tão fácil meter conversa, ainda mais se o tempo está a jeito disso, e estas duas senhoras, uma aqui de Zamora, a outra saudosa da cidade condal, lembraram-me como "isto está difícil para os da minha geração e para os que aí vêm". Lembraram-me isto, com um estoicismo como que os seus anos vindouros não interessassem, não fossem importantes para este país, ainda por cima uma delas com um filho adulto a cargo e um neto menor.
Deixou de chover tão intensamente e despediram-se de mim com uma cordialidade castelhana diferente da do sul à que estou habituado. Uma delas disse-me: "Tenho de ir para casa porque deixei uma janela aberta!".
E lá foram, juntas, passos em comum, o mais digno deste país que vive dos seus votos mas que as esquece mal estes saem das urnas.
Decidi pôr-me à chuva de Julho para lavar-me do calor extremo do meu sul. Caminhei bastante em direção ao Douro e olhei-o de olhos encandeados a correr para Portugal. Na rádio, e nos ecrãs futebolísticos das esplanadas zamoranas, a seleção das quinas chega à final do europeu de futebol com um percurso repleto de mau futebol mas cheio de sorte pouco habitual, o que me faz pensar que sorte não protege só os audazes.
Um pouco antes da meia-noite, volto ao hotel, de onde vejo um parque infantil pouco apelativo à primeira infância, e deito-me com Claudio Rodríguez e a sua cidade na cabeceira.
Uma das senhoras disse-me que Zamora tem pouco para oferecer aos seus e aos de fora. Não quero acreditar. Espero que não tenha razão. Por ela e por este dia que finaliza aqui, única e simplesmente, porque Zamora existe.

terça-feira, julho 05, 2016

Vivendas de luxo

Nunca imaginei ver uma crise económica como a que se arrasta desde 2008 até hoje. É verdade. Apesar de ter conhecido a precariedade, paliada pelo apoio paternal, nunca imaginei que a sociedade que me educou nos valores de casa, carro e electrodomésticos vários num trabalho efectivo fosse tudo menos estável. Via a maioria assim, também eu queria ser maioria numa época em que a minha vida profissional não me permitia sequer alugar casa para viver independente. 
Quando comecei a trabalhar com um vínculo mais estável, esse que negam aos milhões (e a alguns dos melhores)  por este mundo fora, também persegui a casa, um carrito melhor que o Clio a zumbir o alternador, e electrodomésticos vários. O primeiro foi uma máquina fotográfica.
Podia ser aceite pela maioria, essa classe média de centro-direita, quando tem boa memória pisca o olho à esquerda, e pagar ao banco todos os meses esse estatuto. Assim foi e assim é.
Fiz tudo para entrar neste clube. Fiz empréstimos (talvez algum dia precise outro), comprei casa e electrodomésticos. Mas nunca deixei de ser medroso. Sentia uma espécie de casamento, como o que fiz com a minha mulher, mas sem amor. Estava em núpcias e não sentia o afecto do banco que me exige seriedade ao fim do mês, rígido se há um imprevisto, a casa é tudo menos minha, quanto muito sou eu propriedade da minha casa que me escraviza com manutenção, limpezas semanais, mensais, para não escrever diárias, com o reforço de umas cartitas simpáticas com a boa nova dos impostos. É assim e já está, sem nenhum tipo de remorço ou hipocrísia deste escriba.  Ainda bem que posso e aguento o que os economistas denominam taxa de esforço.
O que acontece é que já entrei muito tarde neste clube. Não sou um puro sangue de classe média. Trabalhei demasiado para ver que o médio ilude bem o operário, legitima o político, assegura as finanças do rico e é indiferente à miséria do pobre. O médio consome e é combustível da democracia. Há um equilibrio imperfeito mas, como tantas vezes o ouvi dizer a sábios do bairro, as coisas vão indo.
O problema reside na mochila que trago às costas, na insatisfação material que me contagia, no andar a pé e de bicicleta junto à realidade construída à base de hipoteca, com mais estradas que passeio, onde importa mais o veículo do que o peão.
Não tenho moral para opinar ou criticar a forma consumista como o meu semelhante privilegiado, sem guerras, exílios, ditadura, Daesh, Estado Islâmico ou outro qualquer credo inimigo dos direitos humanos, vive, porque eu vivo assim e reconheço-me tristemente insatisfeito nessa condição.
Hoje ia com os meus filhos pela rua e outro pai tentou-me vender qualquer coisa, tipo lenços de papel ou pensos rápidos, para sobreviver. A minha forma de sobreviver foi desconfiar, apesar de nestas palavras desconfiar de mim mesmo como exemplo de desumanidade.
E do outro lado da avenida, enormes catterpilars alisam o chão para, como diz o enorme outdoor, "Vivendas de luxo, compre já a sua!". Será que alguém nos pode vender uma consciência de que há algo aqui que não encaixa? Agradecia. Distraido, ponho-me a ver se na urbanização há uma gelataria, com o calor agradece-se e aqui não há risco de atentados suicidas.

Espuma (Claudio Rodríguez)

Foto de Fernando Eguia


ESPUMA

Miro la espuma, su delicadeza
que es tan distinta a la de la ceniza.
Como quien mira una sonrisa, aquella
por la que da su vida y le es fatiga
y amparo, miro ahora la modesta
espuma. Es el momento bronco y bello
del uso, el roce, el acto de la entrega
creándola. El dolor encarcelado
del mar, se salva en fibra tan ligera;
bajo la quilla, frente al dique, donde
existe amor surcado, como en tierra
la flor, nace la espuma. Y es en ella
donde rompe la muerte, en su madeja
donde el mar cobra ser, como en la cima
de su pasión el hombre es hombre, fuera
de otros negocios: en su leche viva.
A este pretil, brocal de la materia
que es manantial, no desembocadura,
me asomo ahora, cuando la marea
sube, y allí naufrago, allí me ahogo
muy silenciosamente, con entera
aceptación, ileso, renovado
en las espumas imperecederas.

Claudio Rodríguez




Lisboa, 23/VI/2016

Visita ao zoológico com a família. Não era necessário vir de tão longe para mostrar-lhes como se paga para ver que privamos a natureza de ser livre. Nós que somos natureza.

Vale mais defender uma ideia em alto e bom som ou vivê-la coerente em silêncio?

domingo, julho 03, 2016

9- Penso que neste momento (Roberto Juarroz, 1925-1995)

9

Penso que neste momento
talvez ninguém no universo pense
em mim,
que só eu me penso,
e se agora morresse,
ninguém, nem eu, me pensaria.

E aqui começa o abismo,
como quando adormeço.
Sou o meu próprio apoio e retiro-o.
Contribuo a tapizar a ausência de tudo.

Talvez seja por isto
que pensar num homem
se parece a salvá-lo.


Roberto Juarroz (1925-1995, trad. Luis Leal)


9- Pienso que en este momento (Roberto Juarroz, 1925-1995)


Generosidade sem gratidão é como alguém que alimenta o corpo sem se aperceber do dom do pão que tem na mesa...

sábado, julho 02, 2016

sem nome

nasceu sem nome. a parteira que o ajudou a existir pensou: "ai desgraçado, antes sem mãos do que sem nome". teve uma infância sem diminutivos carinhosos nem aumentativos feitos uma alcunha qualquer. foi biologia de criança até descobrir-se adolescente sem identidade (no grupo só se dilui a individualidade quando ela é perfeitamente identificada num colectivo). passou ao lado da adolescência para chegar a adulto e pugnar pelo seu lugar no mundo de nomeações. se ninguém fora capaz de fazê-lo, o próprio nomear-se-ia pela teimosia da vontade.  
farto de ser ignorado por não ter sido registado com nome numa cédula de nascimento, por não ter nem filiação, santos ou padrinhos, dirigiu-se a uma conservatória do registo civil e, depois de hesitar em tipo de nome se revia, optou por "anónimo".
saiu feliz com a sua própria identidade, aquela que ele mesmo escolheu, fruto do que as circunstâncias haviam semeado.

quarta-feira, junho 29, 2016

Correspondência ao mar (Vitorino Nemésio)

Ilha Graciosa



CORRESPONDÊNCIA AO MAR

Quando penso no mar
A linha do horizonte é um fio de asas
E o corpo das águas é luar,

De puro esforço, as velas são memória
E o porto e as casas
Uma ruga de areia transitória.

Sinto a terra na força dos meus pulsos:
O mais é mar, que o remo indica,
E o bombeado do céu cheio de astros avulsos.

Eu, ali, uma coisa imaginada
Que o Eterno pica,
Vou na onda, de tempo carregada,

E desenrolo...
Sou movimento e terra delineada,
Impulso e sal de pólo a pólo.

Quando penso no mar, o mar regressa
A certa forma que só teve em mim ‑
Que onde acaba, o coração começa.

Começa pelo aro das estrelas
A compasso retido em mente pura
E avivado nos vidros das janelas.

Começa pelo peito das baías
A rosar-se e crescer na madrugada
Que lhe passa ao de leve as orlas frias.

E, de assim começar, é abstrato e imenso:
Frio como a evidência ponderada.
Quente como uma lágrima num lenço.

Coração começado pelos peixes,
És o golfo de todo o esquecimento
Na minha lembrança que me deixes,

E a rosa dos Ventos baralhada:
Meu coração, lágrima inchada,
Mais de metade pensamento.

Vitorino Nemésio



terça-feira, junho 28, 2016

Lagoa das Sete Cidades (25/VI/2016)

São Miguel (Açores), 24/VI/2016

Um dia estranho. Deito-me com o rádio a anunciar uma possível vitória do "sim" à União Europeia e acordo com um "não" num cenário real de "Brexit".  Curiosamente a minha intuição dizia-me que isso ia acontecer.
Voo para São Miguel nos Açores e em Ponta Delgada apercebo-me que ser insular não é diferente de peninsular. Agarramo-nos ao que temos. Nós aos Pirinéus que nos colam à Europa e o povo açoriano uma língua (herdada de tanto povo por esse sul de Portugal) que o une ao continente.
"Tranquilo"  foi uma das palavras que mais me disseram neste dia. Lembrei-me tantas vezes do Algarve da minha família, de pescadores e gente que vive do turismo, da Galiza com as suas hortênsias, da Holanda com as suas vacas e queijinho que me aumentam os trigliceridos. Lembrei-me que a distância não interessa, muito menos o conceito de quilómetros.
Fui à procura do Vitorino Nemésio e não o encontro em nenhuma das poucas livrarias que visito.
Fui aos Açores, a uma das suas nove Ilhas, depois de anos a pensar que talvez não fosse possível conseguir forma de poder fazê-lo. 
Durmo à beira da Lagoa das Sete Cidades. Há uma neblina constante num silêncio verdejante. Por momentos, pensei que a natureza no seu esplendor se aproxima a isto. Durou pouco. À meia-noite um carro, tipo "tunning" aproximou-se da autocaravana que tenho alugada para a minha família e, com acelaradelas acéfalas e música altíssima para intimidar, me relembrou que nem no paraíso se deve baixar totalmente a guarda. Apesar da minha intuição com o "Brexit", hoje poderia ter acontecido algo grave por ter descuidado o meu instinto de sobrevivência... Tenho sorte por aprender esta lição a escrevê-la neste diário. Perdoem-me a expressão, apesar da sinceridade, com os ingleses fora da UE passo bem, mas com a minha mulher e filhos assustados (ou, nem quero imaginar, outro tipo de intenções) despertam-me um lado capaz de fazer coisas que a minha razão não escreveria aqui.

terça-feira, junho 21, 2016

Os Nossos Santos (in revista "Mais Alentejo" nº133)


Os Nossos Santos (in revista "Mais Alentejo" nº133)

Duas das cidades mais importantes no meu percurso de vida adoptaram São João como um dos patronos lá do burgo. As respectivas feiras anuais de S. João/S. Juan, celebradas em simultâneo, atestam a devoção ao profeta e ao solstício de verão.

Ao contrário destas cidades, não tenho devoções ou, se existem, sou incapaz de identificá-las. Se tenho alguma coisa parecida a uma veneração hagiográfica, patrono, simpatia assumida, condição de fã, é apenas aos atributos que associo a qualidades humanas, as que verdadeiramente prestam contas.

Em Espanha ainda se guarda a tradição “de tu santo”. Isto é, o dia dedicado ao santo que, graças a quem te deu um nome ao nascer, também é o teu dia. Apesar de não terem nascido nesses dias, vou dar-vos um exemplo concreto, os dias 25 de Julho e 3 de Dezembro também são os dias dos meus filhos. Santiago e Xavier. Agrada-me reconhecer história de peregrinos e missionários nos nomes dos meus filhos, a sua mãe e eu escolhemo-los por isso. 

Porém, a história do meu nome não tem nenhuma hagiografia consciente por detrás. Tem o avô do meu pai. O meu bisavô Luis (sem acento agudo, por favor). Nunca o conheci. Morreu 6 anos antes de eu nascer. Tinha olhos azuis e os seus genes recessivos, passadas três gerações, recordam-se únicos nos meus olhos.

Há também quem diga que herdei mais do que os olhos do meu bisavô. Quem o conheceu, e me conhece bem, diz que o Luis (também sem acento, se faz favor) do final do século XX e princípio do século XXI se parece muito em carácter ao Luis do final do século XIX e que viveu no século XX o Portugal da monarquia, do regicídio, da 1ª República, do Estado Novo e morreu em liberdade, mas sem nenhum tipo de ilusões floridas pelos cravos de Abril.

Comecei esta crónica a pensar que iria escrever sobre vidas de santos canonizados e institucionalizados em Portugal e Espanha. Esse era o meu objectivo. Até, quem sabe, tentar dar um lamiré sociológico à religiosidade de cada um dos países, se somos mais matriarcais ou patriarcais, ou ambos, dependendo em que parte do território da península estejamos. Sei que há devoções a arrastarem-se de joelhos, outras de mãos cheias de sangue na primavera pascal com pregos de agonia, mas também devoções que não podem cantar, nem querem, a esse “Jesus do madeiro, mas sim ao que caminhou no mar”. Ao sentir-me inútil a dissertar sobre algo tão íntimo como a fé do outro, acabei por me encontrar na memória dos meus.

Critico-me frequentemente por tropeçar no passado. Não tenho nem idade nem pretéritos para isso. Sinto dificuldade em atribuir futuro à memória, quase sempre contaminada pela nossa interpretação do tempo. Parece-me que perde potencial criador e está totalmente ausente de entusiasmo (essa palavra consagrada no meu dicionário, pois, mais que etimologicamente, humanamente “tem Deus dentro”). O excesso de memória talvez evidencie falta de talento ou um talento especial para encaixar o passado no presente. Não sei.


“O nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas; a denominação é o acto da posse espiritual”. Os meus pais não leram Miguel de Unamuno, apropriaram-se do nome do meu bisavô por estima e espero ainda não o ter desfigurado. No passar dos dias, no acumular de reminiscências, todos somos santos por sermos forçados a carregar as nossas histórias e as de tantos nomes dos que nos ficaram para trás. Não temos, nem carecemos, de um processo que nos reconheça uma lembrança institucionalizada. Dentro dum qualquer santuário de memória alguém nos arrasta. Uma qualquer gota de ironia genética num olhar nos perpetua. Chamo-me Luis graças ao avô do meu pai. Não sei se foi um santo, nem me interessa. Foi um homem. Essa condição basta-me. 

sábado, junho 18, 2016

"el pasado vuelve como una ola" J.L. Borges

ângulo morto

há tantos ângulos mortos por essa vida fora que só nos apercebemos da sua existência quando já estamos em cima deles ou com eles chocamos. às vezes o impacto é violento, outras um golpe de sorte.

sexta-feira, junho 17, 2016

sal da terra

sete irmãs. cinco continentes. um homem. uma pedra de sal no oceano. o economista sucumbido à humanidade objetiva da razão de ser-se humano. o rosto da humanidade obturada, a luz e a sombra do olhar do “Tião”.

o seu pai encontrou a felicidade no dever bem-feito de criar, com comida e roupas, os seus filhos. o exílio roubou-lhe o pai mas deu-lhe um mundo para fotografar.

não apareço na fotografia, apesar de lá ter estado em 2001. tenho quase a certeza do ano mas não tenho a certeza da minha honorífica causa tão invisível ao lado da sua. algo de sal na minha pele deixou, no entanto é bastante mais visível os vestígios, em pixéis, do nitrato de prata em algumas das minhas palavras.  

7/IX/2015

ao Sebastião Salgado

segunda-feira, junho 13, 2016

A música, sim a música... (Fernando Pessoa)

Fotografia de Eduardo Sousa



A música, sim a música...
Piano banal do outro andar.
A música em todo o caso, a música..
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda a criatura humana
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor...
A música... Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal. Mas é música...

Ah quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas?,
A música...
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música...
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.

Mas apesar de tudo é música.
Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música...!

19-7-1934


Álvaro de Campos - Livro de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. - 190.



domingo, junho 12, 2016

É assim que gosto de estar. Junto aos meus./ Así es que me gusta estar. Con los míos.

É assim que gosto de estar. Junto aos meus. Às pessoas normais e correntes, a quem alguns se referem como povo. E ontem pude participar no mesmo dia em dois actos que celebraram, directa ou indirectamente, a língua portuguesa. O primeiro, a celebração do Dia de Portugal na Biblioteca Municipal de Elvas no ciclo de conferências “Leituras ao Sul” e, o segundo, a entrega do 2º Prémio de Poesia Hispano-Português Ángel Campos Pámpano em San Vicente de Alcántara. 

São estes “meus” que, com algum ou nenhum apoio institucional, sempre estão disponíveis para dinamizarem actividades socioculturais nas suas localidades, declamando de viva voz a qualidade do que fazem, mesmo pagando um imposto extra. O imposto da invisibilidade da cultura extraordinária que geram no seio da sua comunidade, dum interior, à qual o centralismo cultural está alheio. Não é uma queixa, é um facto. Somos mais que apenas as capitais.

Es así que me gusta estar. Con los míos. Las personas normales y corrientes, a quienes algunos se refieren como pueblo. Ayer pude participar en el mismo día en dos actos que celebraron, de manera directa o indirecta, la lengua portuguesa. El primero, la celebración del Día de Portugal en la Biblioteca Pública de Elvas en el ciclo de conferencias “Lecturas al Sur” y, el segundo, la entrega del 2º Premio de Poesía Hispano-Portugués Ángel Campos Pámpano en San Vicente de Alcántara.

Son estos “míos” que, con algún o ningún apoyo institucional, siempre están disponibles para la dinamización de actividades socioculturales en sus pueblos, declamando a viva voz la calidad de lo que hacen, incluso pagando un impuesto extra. El impuesto de la invisibilidad de la cultura extraordinaria que generan en el seno de su comunidad, en un interior, al cual el centralismo cultural se encuentra ajeno. No es una queja, es un hecho. Somos más que solo las capitales.





sábado, junho 11, 2016

Desejos (Konstantinos Kavafis)

O primeiro cemitério de Atenas



DESEJOS

Belos corpos de mortos que nunca envelheceram,
com lágrimas sepultos em mausoléus brilhantes,
jasmim nos pés, cabeça circundada de rosas –
assim são os desejos que um dia feneceram
sem chegar a cumprir-se, sem conhecerem antes
o prazer de uma noite ou a manhã luminosa.

Konstantinos Kavafis




quinta-feira, junho 09, 2016

II Premio Hispano-Portugués de Poesía Joven "Ángel Campos Pámpano"

Mañana se entregará el 2º Premio Hispano-Portugués de Poesía Joven Ángel Campos Pámpano en San Vicente de Alcántara. Se hace el 10 de Junio, Día de Portugal, y es un justo homenaje a alguien que hizo tanto por la literatura/cultura portuguesa en España. Cuando yo tenía 26 años asistí a una charla suya sobre Pessoa, el único contacto que tuve con el poeta, le saludé sin imaginar que su obra sería tan importante para mí, en especial, “La Semilla en la Nieve”. Es un honor estar en el jurado de este premio que tiene el mérito de llevar la poesía a los más jóvenes.   


Amanhã entregar-se-á o 2º Prémio Hispano-Português de Poesia Jovem Ángel Campos Pámpano em San Vicente de Alcántara. Faz-se no dia 10 de Junho, Dia de Portugal, e é uma justa homenagem a alguém que tanto fez pela literatura/cultura portuguesa em Espanha. Quando tinha 26 anos assisti a uma conferência sua sobre Pessoa, o único contacto que tive com o poeta, cumprimentei-o sem imaginar que a sua obra seria tão importante para mim, em especial “A Semente na Neve”. É uma honra estar no júri deste prémio que tem o mérito de levar a poesia aos mais jovens. 


quarta-feira, junho 08, 2016

Mãos ausentes (Diário)

Hoje li um poema cujo elemento principal eram as mãos. Algo ingénuo, como até gosto de ver em quem nem dezoito anos tem. Li e reli o poema e fiquei com a sua imagem na cabeça durante alguns momentos do dia.
Quem nasce com um coto, ou a vida lhe amputa semelhante membro, faz da ausência o seu agarre. Imagino que assim seja pelas palavras lidas nesta jovem poetisa,  com um aperto bem mais forte que o meu, mesmo com os antebraços rijos por ter levantado mais livros.
Ela não conhecerá artroses, nem terá as mãos destroçadas por amor ao outro, como Dürer. O vazio nas suas mãos não é metafórico é puro realismo.
Mesmo sem lhe ver as mãos existe tanta poesia nelas, ao ponto de prometer aqui, nestas palavras feitas diário, que não permitiria a amputação do seu lápis ou a preguiça duma ponta romba. Deixaria eu de escrever e dela seria suas mãos.
(Expresso aqui a minha vontade de traduzir o poema, mas, uma vez que este apontamento é potencialmente público, e por respeito à jovem poetisa, fá-lo-ei quando o tempo não precisar de acertos, nem de mãos...)

"Moñino Times" nº10 ("Na Brasileira" - Luis Leal)

La portada es del gran Fermín Solís, pero la ilusión de mantener este proyecto vivo es de mi amigo Antonio Carrasco (con el diseño y maquetación imprescindibles de Marta López-Hermosa). Mi granito de arena en este número del “Moñino Times” es un capítulo de un proyecto juvenil en reconstrucción. Si os apetece leer estamos “Na Brasileira”, tomando café, en buena compañía…


A capa é do grande Fermín Solís, mas o entusiasmo de manter este projeto vivo é do meu amigo Antonio Carrasco (com o desenho e paginação imprescindíveis da Marta López-Hermosa). O meu grão de areia neste número da “Moñino Times” é um capítulo de um projeto juvenil em reconstrução. Se vos apetecer ler, estamos “Na Brasileira”, a tomar café, em boa companhia… 




terça-feira, junho 07, 2016

«Papá, depois do Verão vou para a primária!»

Não sei o dia exacto, sei que foi em Setembro de 1986 que parte do que sou neste presente se começou a delinear. Era o meu primeiro dia na escola primária e o único dia que a minha mãe me levou à escola (salvo em situações de intempérie ou doenças pueris). A volta, essa, já foi por minha conta. Eram outros tempos e os quinhentos ou seiscentos metros de bairro até à entrada da escola eram familiares e eu fazia parte daquela paisagem infantil de então.

De mochila pequenita vermelha, com cadernos, livros e lanche dentro, de bata branca horrível que a minha mãe me fez usar na primeira classe, ali estava no meio de tantos outros meninos e meninas cujas vidas ficaram unidas à escola primária nº7 do Bairro da Caixa.

Esperava-nos a experiência da D. Maria de Lurdes Varandas. Mulher recta, olhos azuis à antiga a educar exigentes os filhos das conquistas de Abril. Acompanhou-nos até aos seus últimos dias na profissão, já quase no final da nossa quarta classe. 

«Ter boas bases», quantas vezes o ouvi dizer, com alguma reverência pela sua docência, aos meus pais? Se as temos academicamente, talvez lhas devamos, tanto a ela como à Florbela, uma régua de madeira que as palmas das minhas mãos nunca conheceram. O mesmo já não posso dizer da sua palma da mão na minha cara. Como antes escrevi, viviam-se outros tempos e não tenho nenhum trauma por isso, guardo apenas uma lágrima na página duma cópia, em que já começara a usar caneta, num qualquer caderno diário arrecadado em recordações.

Cresce-se por competição e oposição, mas acredito que o desenvolvimento de uma criança é mais integral, atrevo-me até mesmo a dizer íntegro, através da cooperação. O crescimento deixa um rasto de amigos, de perdas de amizades também, de cumplicidades, disputas, ínfimas coisas que, pouco a pouco, se convertem em personalidade. 

Neste dinamismo do nosso carácter, é legítimo responder - quando perguntamos a nós próprios o que somos - com uma descrição pessoal bem adjectivada e justificada pelo nosso comportamento e pela maneira como nos vemos no mundo. Trata-se de um bom exercício e já o fiz várias vezes, apesar de nunca me convencer a mim próprio de nada. No fundo, na nossa personalidade, somos outros. Somos pequenas partes dos que habitaram os nossos dias, dos que povoaram tantos momentos numa corrida existencial iniciada com um parto. 

Sou tantos outros, tantos que não vale a pena fazer uma lista, porém, hoje, sei que sou o meu filho mais velho a dizer-me que depois do Verão vai para a escola primária, sem sequer imaginar que há trinta anos exactos eu entrara na escola nº7.

Deveria contar-lhe que sou o medo de uns quantos rufiões que se metiam comigo por terem as costas quentes por irmãos mais velhos.

Deveria contar-lhe que aprendi a defender-me graças a um axioma do seu avô que me enunciava «se bates em alguém levas em casa, mas, se te deixas bater, também». 

Deveria contar-lhe que sou uns quantos primeiros amores partilhados com os melhores amigos, sem ciúmes, com cartas escritas pelo Ferna, o irmão mais velho do Carlos, já letrado, fechadas e perfumadas pelo “Axe” do seu avô, e, às escondidas, postas na mala da Ana Albano. 

Deveria contar-lhe tanta coisa que não lhe vou contar porque esse não é o seu tempo e essas paisagens humanas são apenas suas nos resíduos que deixaram em mim.

Só há uma coisa que lhe vou contar. Sou o Luís (Gémeo), sou o Nuno (Gémeo) e sou o Carlos Silva. Sou os melhores amigos que brincaram, correram, saltaram e andaram à porrada junto à linha de caminho-de-ferro da “Aparição” do Virgílio Ferreira. Sou essas crianças curiosas formadas na nº7 e que continuaram sempre juntas até que o 9ºano as separou na André de Resende.

Outros bons amigos estiveram connosco, o Caíta, o Garcia, o Carvalho, o Catarro, o Passinhas (a última vez que o vi animava bailes brejeiros por esse Alentejo fora), mas nós nunca nos separámos e fomos inseparáveis muito mais além desses nove anos de escolaridade obrigatória. 

Actualmente somos presentes de adultos diferentes, longe, com mulher, filhos, casa e carro para pagar, mas, naquela esquina do tempo, ainda somos inseparáveis. 

Depois deste Verão, o meu filho vai para a escola. Levá-lo-emos e iremos buscá-lo todos os dias. Não terá uma mochila vermelha, não será aluno da D. Maria de Lourdes Varandas, nem saberá que a minha professora era irmã do Francisco José, esse que o seu avô ouve com a guitarra a tocar baixinho, a cantar os “Olhos Castanhos”, o “Só nós dois é que sabemos” e o “Não sei que tenho em Évora” como da Évora da minha meninice agora me estou lembrando. Não levará bofetadas pedagógicas, porque o professor terá logo um processo disciplinar. E não estudará na escola primária do Bairro da Caixa que nunca sequer se chamou assim oficialmente.

Como sempre nos dizia a minha avó Rita, vou dizer-lhe para entrar com o pé direito numa escola primária pública como aquela em que tive a ventura de estudar. Que, com todas as imperfeições, é um contributo de todos para todos. De certeza, também ele encontrará uns quantos rufiões, à sua maneira aprenderá a defender-se, terá uns quantos primeiros amores, tal como bons e maus professores, mas, felizmente, terá o direito à escola e à infância, aquela que nem na memória, nem na ficção, alguma vez se repetirá.


segunda-feira, junho 06, 2016

O difícil não é ser-se poeta, é compreender-se poeta.("Leituras a Sul", Biblioteca de Elvas, 10/VI/2016)

O difícil não é ser-se poeta, é compreender-se poeta. Não me compreendo como tal, mas honra-me a responsabilidade de dar voz ao príncipe de todos os poetas, Luís de Camões.

Lo difícil no es serse poeta, es comprenderse poeta. No me comprendo como tal, pero me honra la responsabilidad de dar voz al príncipe de todos los poetas, Luis de Camoens.  

Os ciganos não andam de bicicleta porque não lhe conseguem ler a sina.
Um conjunto de raios roda livres e não há superstições que o pare.

O prazer só é culpado se for prejudicial a outrem. Se assim não for a culpa é do intelecto que não se apercebe do bem-estar que está a viver, tal não é a sua arrogância.

domingo, junho 05, 2016

Hoje é dia mundial do ambiente (5/VI/2016)

Hoje é dia mundial do ambiente. Acredito que a forma como o cidadão equilibra a sua realidade com a realidade do colectivo é uma decisão individual claramente política. Revejo-me nestas palavras de Naomi Klein: 

“Se as pessoas estão a tentar pôr comida na mesa, não vão estar preocupadas com o futuro do clima. A menos que tenham líderes políticos que expliquem como a reacção às alterações climáticas pode criar empregos (que ajuda a colocar comida na mesa) e uma sociedade mais justa.”

sábado, junho 04, 2016

O século XX foi nocauteado (Morreu Muhammad Ali)

O Super-Homem existiu, escolheu a liberdade do seu nome, teve coragem de dizer não a uma guerra injusta e, a voar como uma borboleta e a picar como uma abelha no ringue da vida, foi o maior!

Superman existió, eligió la libertad de su nombre, tuvo el valor de decir no a una guerra injusta y, volando como una mariposa y picando como una abeja en el ring de la vida, ¡fue grandioso! 



Blog Malomil: "Spinola na América"



Interessante post de António Cirurgião no seu blogue Malomil, "Spinola na América", publicado ontem. Dele retiro também a capa da revista Time.