terça-feira, fevereiro 07, 2017

Encontrar o equilíbrio

Encontrar o equilíbrio, dar balanço e coordenar as pedaladas é fundamental para se aprender a andar de bicicleta. O meu filho mais velho já deixou as rodinhas há um par de meses mas ainda tem de praticar esta arte de andar pela vida, equilibrado em duas rodas locomovidas pela sua força muscular.
Saímos de casa ao final da tarde para aproveitar um pouco do sol de inverno, atrevido no meio destes últimos dias cinzentos, cada um no seu fiel corcel a pedais. O seu irmão comigo, na cadeirinha sentado, observava atentamente como o referente mais velho aprende com a experiência. Tem informação privilegiada e tudo o que o seu irmão mais desejava com esta idade. Um irmão.
Voltámos para casa com a felicidade do tempo juntos e com a sorte de podermos merendar todos juntos. Lembrei-me de quem não pode e quer viver tempo de qualidade com os seus filhos, quando não há saúde e quando não há pão. Nessas circunstâncias por mais que se dê balanço, coordenem as pedaladas, o equilíbrio parece escapar-se por debaixo das rodas.
Não gosto de pensar demasiado na posteridade, sinto-me desmedido em ambição quando a penso, porém, neste caso, e a pensar neles, dentro de mim tenho esse desejo. O desejo de que algo simples lhes fique no íntimo e que valorizem a merenda que lhes reconforta o estômago. 

Eu hei-de amar uma pedra (Vitorino & Janita Salomé)



Vitorino & Janita Salomé - "Eu hei-de amar uma pedra" do disco Moda Impura (2012)

Musica Tradicional do Alentejo
Recolha, adaptação, arranjo e voz (alto), Janita Salomé





segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Para bem e para mal

Podemos não gostar de alguém por o que essa pessoa representa aos nossos sentidos. É verdade e sei ter algumas animosidades desse tipo, não me cheiram, não me inspiram confiança ou o puro estilo dum conhecido meu que diz não gostar da obra do Miguel Delibes por este ter sido caçador (talvez também por ser de Valladolid). Esqueci-me de lhe perguntar se também não gosta do Hemingway, do Torga e de mais algum, como eu, com a carta de caçador no curriculum literário e não só.
Não escondo o passado caçador presente nos genes leais ao sangue materno, nem o facto de já ter acabado com a vida de vários animais ao volante do carro fortuito mas nunca com pólvora e chumbo apontados a uma vida. Se o tiver de fazer, fá-lo-ei para me alimentar, ou os meus, porém nunca o farei como desporto. Esta atitude, desde o meu ver, é um ato de respeito pela vida sem ser demasiado hipócrita com a vida que levo.
Este meu conhecido vê esta atividade típica do mundo rural com as dioptrias da cidade, minadas de exemplos bárbaros camuflados de desporto cinegético, e não lhe retiro alguma razão. Pena que fica por aí. Não enxerga a dignidade de bater terreno, esperar pela presa que levará presa ao cinturão, a arte da companhia dum cão, e em casa depená-la, esfolá-la, prepará-la como refeição muitas vezes para matar ou paliar a escassez de alimentos. 
Aqui não há só santos ou pecadores, bons ou maus valores, há a realidade da natureza animal e humana. Com o passar dos anos, cada vez entendo melhor porquê atacava cartuchos com o meu avô João, porquê me ensinou a respeitar primeiro o perigo e depois a utilidade duma arma, porquê aprendi a manejá-las mesmo sem querer usá-las. Sobreviver ensina-se sobrevivendo. Não me esqueço disso tal qual como não me poderei esquecer dos valores transmitidos pelos calos nas mãos cuspidas, valor de como a dor e sofrimento se convertem na nossa própria carne. E eu sou Leal. Para bem e para mal.

domingo, fevereiro 05, 2017

"Morerías" de Elías Moro (“Ediciones Liliputienses”)

Uma “greguería” é um texto breve, semelhante a um aforismo, quase sempre uma única frase redigida numa única linha, que expressa, com engenho e originalidade, reflexões filosóficas, humorísticas, pragmáticas, poéticas, ou de qualquer outra índole. Atribui-se a sua criação ao génio literário de Ramón Gómez de la Serna.

Há pouco tempo, cruzei-me com prazer com estas “Morerías” de Elías Moro, um grande e digníssimo herdeiro da tradição do nosso mestre comum Gómez de la Serna. Esta obra (editada pela “Ediciones Liliputienses”) tem Lisboa na capa, Ramón também teve Portugal na sua obra, e Elías apresenta-nos pequenas delícias às quais o leitor atento não fica indiferente. Eu não fiquei. De tantas “morerías” que poderia ter traduzido, as que aqui vos deixo foram de imediato sublinhadas. Recomenda-se a leitura do original, acessível ao leitor português cuja tradição literária portuguesa também conheceu um "Gómez de la Serna luso", o sempre polémico António Ferro.

Eis algumas “morerías” do amigo Elías:

Os calos nas mãos são o sofrimento feito carne.

Os ramos da árvore, nus e indefesos contra o frio, são como um ideograma chinês a falar-nos do verão que perdemos.

A gabardina é um guarda-chuva cujas varetas são os nossos ossos.

O cisne, narciso tenaz, interroga-se continuamente se outrora fora patinho feio.

O leão há tempo que deveria de ter ido ao cabeleireiro.

Os peixes, às vezes, sonham com toalhas.

Na cabeça dos carecas, as orelhas adquirem de imediato uma importância que antes não tinham.

O escorpião traz um apóstrofo letal ao final da cauda.

O ataúde é um móvel do qual não desfrutamos.

O helicóptero é uma libélula que se transformou num monstro.

Os forenses nunca discutem com os seus pacientes.

O pedalar da infância dura-nos toda a vida.

Como pacíficos ursos de tecido, os casacos e pulloveres, os cachecóis e as luvas, hibernam durante o verão.

O pião é o mais bailarino de todos os brinquedos. Até se espaldeirar.

O nariz é o nosso radar portátil de aromas e odores.

O rábano envergonha-se do seu destino de hortaliça; a isso se deve o seu exagerado rubor.

Testamento: cruel vingança do morto contra parentes indesejáveis.

O parafuso sem a porca não é mais do que um solteirão de ferro destinado a enferrujar em solidão.

Fotografia: recordação do esquecimento que será.

O ciclista é o escravo a rodar do equilíbrio em movimento.

Na época dos melões, os agricultores jogam rugby com a colheita.

O novelo, entediado no cesto da costura, sente saudades do gatinho brincalhão.

As gotas de suor gostam de suicidar-se desde a ponta do nariz.

O ouriço zangou-se com todos os pentes.

Azinheira: medusa imóvel do montado.

Os sobreiros são todo o campo que verão, até os cortarem, as árvores da cidade.

A preguiça é uma das formas mais confortáveis de rebeldia.

O maior desejo do dandi é morrer na moda.

O giz arranha o quadro para arrancar-lhe os seus segredos.

Uma carícia imprevista é como música na pele.

A toupeira conhece melhor do que ninguém os diálogos secretos dos mortos. E, discreta como é, leva-os consigo para a tumba.

O jornal ri-se de nós todos os dias com as mentiras que nos conta.

O espantalho está desejando que lhe demos um abraço.

As bailarinas das caixas de música sentem-se um pouco como os burros de nora.

O buraco da fechadura multiplica a beleza do proibido.

A cicatriz é a memória da ferida.

A máquina de lavar roupa gosta de comer uma meia de vez em quando.

O café é uma infusão vestida de luto.

Um solteiro de férias dá sempre um bocado de pena.

A bússola está apaixonada pelo Norte.

Enquanto nos barbeia, o barbeiro tem a nossa vida nas suas mãos.

O tradutor é um contrabandista amável de linguagens e idiomas.

Ao malmequer nunca se lhe pergunta se bem quer ou mal quer alguém.

A memória é a arqueologia dos próprios sentimentos.

Poeta: tradutor do silêncio.

(Estas “morerías” foram traduzidas para português por Luis Leal)

Companhia... e cafeína

"Queres um café?" é uma pergunta que gosto de fazer. Quase sempre junto à máquina, à espera que aqueçam as resistências, sou grato pela companhia e o meu corpo agradece a cafeína...

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Pousos

Esta terra tem este nome, segundo me foi explicado, porque aqui se "pousava" o gado para descansar por esses caminhos da "trashumancia". Havia sombra de pinheiros e camalhos de caruma. O pastor, talvez nas horas livres resineiro, socorria-se do pinhão para alimentar as horas de pé, a caminhar ao lado dos animais.
O vento está em alerta significativo, laranja parece-me que ouvi na rádio, agita as árvores altas e recolhe os habitantes da freguesia a casa. Estou com eles, num santuário caseiro dedicado ao glorioso SLB do meu amigo Nuno. Partilhamos um trago de aguardente velha, um café digestivo e pousamos as nossas vidas na simplicidade do ser. Os livros para que me possam valer têm de ser muitas vezes o que são. Papéis pintados com tinta pousados na estante e distantes dos verdadeiros instantes do homem que alberga o poeta.

Kunta Kimte

Remake duma série marcante do passado, "Roots". O homem negro sempre teve a sua existência marcada pelo horror do esclavagismo. O miserável branco via-se superior mesmo sendo explorado pelo senhor ainda mais branco e de sangue a pensar-se azul. Ainda hoje é assim e há quem queira regressar a estas raízes de escravidão e de bons negócios negreiros para os portugueses, esse exemplo do miserável branco que, atascado no atoleiro, olha de soslaio para quem está quase submerso.
Lembro-me da cor da Paula quando éramos crianças, da presença retornada e da primeira geração do ex-império a procurar melhor sorte na metrópole. 
Só se olha à cor se nos ensinarem, e mentirem, que há cores melhores que outras. Num bairro de gente humilde, gente trabalhadora, herdeiros das vítimas do servilismo ao latifúndio, ninguém nos ensinou diferenças. Éramos crianças. Apenas crianças.
Preto e branco são adjetivos que não interessam à pureza da infância, ao verdadeiro coração onde habita a bondade e o justo. A Paula e eu fomos cruzados numa capelinha duma Senhora da Saúde. Somos preto e branco. Somos ricos e partilhamos a nossa riqueza com quem vier por bem. Talvez ainda sejamos cruzados apesar de já não encontrarmos a insígnia na lapela com a qual a irmã Lídia nos investiu nas tardes de catequese. Somos esse anúncio da Benetton que não vende roupa mas nos emoldura os afectos.

quinta-feira, fevereiro 02, 2017

«La bicicleta es el único vehículo que tiene tratamiento de señorita.» Ramón Gómez de la Serna

O meu Jesus de plástico

"Não me importa se chove ou faz frio

Desde que eu tenha o meu Jesus de plástico
A acompanhar-me no tablier do meu carro
Mas parece-me que me vou ter de livrar dele
O seu íman arruína o meu rádio
E se tiver um um acidente ele vai deixar-me cicatriz".

in "Cool Hand Luke" (1967)

80 anos do Fernando

O Fernando Assis Pacheco hoje faria 80 anos. Passou a Walter pelo peito durante o ultramar mas foi um ataque cardíaco que o tramou. Já o escrevi uma vez: "Fernando, foi uma pena que tu morresses quando eu era apenas um gaiato, pá!".

Súbdito? Só deles.

Ontem falámos das minhas convicções republicanas. Justifiquei-as com datas e cicatrizes simbólicas. O que não lhes disse é que como poeta sou súbdito d'el Rei D. Dinis, também ele neto dum sábio.

terça-feira, janeiro 31, 2017

Voltar a onde pensamos que pouco vamos voltar

É uma sensação estranha voltar a lugares que sentimos terminados nas nossas etapas vitais. Principalmente se esse local era parte do nosso dia-a-dia laboral, esse no qual não somos a totalidade do eu porque há a necessidade de ganhar o pão, mas somos grande parte o que somos.
Talvez nunca nada acabe. Talvez isto seja, à maneira oriental, um eterno retorno. Vivemos em frente, constantemente a avançar com o passado a aparecer-nos na estrada como sinalização a ter em conta, à qual devemos prestar atenção para respeitar ou ignorar.
Voltei à estrada por uns dias. Voltei à solidão do volante ao som da música dos meus pensamentos... sou eu sem ser quem fui.

V.A.

A memória é uma ficção - Manuel António Pina

«De qualquer modo, a memória é uma ficção e o passado uma espécie de sonho que nos sonha tanto quanto o sonhamos nós.» in "Os papéis de K.", p.75

domingo, janeiro 29, 2017

Rádios resintonizados com o prazer duma rotina

Sintonizar as manhãs de domingo com um velho rádio Philips é um hábito que me ajuda a suportar o peso do dia mais odioso da semana. Por isso, as manhãs ainda são leves, infantis, sem o trauma da tarde que me vai levar à escola de segunda-feira.
Por manter esta rotina, promovida desde a tenra infância com um rádio ligado à corrente mal acendíamos o interruptor da luz, na casa-de-banho dos meus pais, o génio electricista do Sr. Hipólito ainda me traz melodias, notícias ou tertulias em ondas hertzianas nos momentos de teórica privacidade, de asseio ou escatologia. Lembro-me do meu pai zangar-se frequentemente comigo por lhe resintonizar o rádio em estações como a local "Rádio Jovem", a "Cidade FM" ou a "Antena 3" e me dizer que no rádio da casa de banho (e do carro, há que referi-lo) mandava ele. 
A rádio, cuja vedeta da MTV não o matou mesmo depois de alguns assim o vaticinarem, continua a resistir, a alegrar as caras que se barbeiam pela manhã, a fazer de cicerone em estradas de vidas a deslocarem-se de casa ao trabalho, ou vice-versa, a deslocarem-se simplesmente porque é preciso, sintonizada no autorádio ou no smartphone de ouvidos absortos em headphones. A rádio não morre e é a rede social mais isenta e profissional que vou conhecendo.
Apesar de ter disponível tantas parafernálias tecnológicas disponíveis, e das quais sou usuário, volto sempre ao básico, resintonizo-me com o simples acender do botão do velho rádio do meu pai. 
(Esta foto é do nosso rádio a pilhas, moderno, pequeno e um capricho para mostrar aos meus filhos a beleza dos objetos também está na sua história...) 

266085917

Houve uma época em que sabíamos vários números de telefone de cor. Marcávamo-los muitas vezes, botão a botão (ou então com o dedo enfiado num determinado orifício a iniciar um movimento de rotação, com um som que não voltei a ouvir em mais nenhum aparelho).
A técnica evolui tanto, adquire tanta memória ram, que a nossa acaba por ser furtada nessa evolução. É um roubo de luva branca, elegante e consentido, do qual não me tinha apercebido até hoje me ter cruzado com o número que mais vezes marquei na vida e o qual ainda tive guardado nos meus primeiros telemóveis. Quando desapareceu a voz do outro lado da linha custou-me bastante apagá-lo da lista de contactos. Era apenas um número mas para mim esteve mais próximo duma amputação que dum "delete".
266085917 era o número fixo dos meus avós a quem telefonei durante 30 anos. Hoje já nem o dos meus pais sei de cor. A técnica roubou-me a memória? Podia dizer que sim, mas não sou gajo de culpar os outros pelos meus defeitos, sejam eles de memória ou não.

sábado, janeiro 28, 2017

Valsa Brasileira (Zé Nogueira e Nelson Faria )



Valsa brasileira, composição de Edu Lobo e Chico Buarque.  Nelson Faria, viola, e Zé Nogueira, clarinete.




sexta-feira, janeiro 27, 2017

De "Detergente" - Ruy Ventura

"Uma bebedeira não precisa de metáforas. Overdose e falta de equilíbrio sujam o ritmo, as palavras, o olhar. (...) Não bebo deste vinho. Não me encontro no lixo, embora tenha os pés enterrados no monturo." in "Detergente" de Ruy Ventura.
Caminhamos com os pés embarrados mas, com este "Detergente", há fé de que se converta em húmus...

Foto de Nuno Matos Duarte.

"laisse penser tes sens" ("deixa os teus sentidos pensarem") - Paul Fort

segunda-feira, janeiro 23, 2017

The Spur (W.B. Yeats)

W.B. Yeats (1865-1939)


THE SPUR

You think it horrible that lust and rage
Sould dance attention upon my old age;
They were not such a plague when I was young;
What else have I to spur me into song?

W. B. Yeats




domingo, janeiro 22, 2017

Patti Smith by Paul Kasko







Aqueles que vão amparar o mundo. As crianças. (Valladolid)

Raízes

As raízes, quando são bem regadas, adentram-se na terra com convicção e força.
Quando levam água em opulência apodrecem. Quando são olvidadas do regadio secam. Melhorar-se-á quando se arranquem e se volte a plantar.
Porém, a todas as raízes parece a terra ser justa e pensar nelas.

sábado, janeiro 21, 2017

Tordesillas

Aqui dividimos o mundo em dois e pensámo-nos impérios. Assinámos na história a arrogância de nos vermos melhores do que os outros, de olharmos só para nosso umbigo.
Passei um bocado ao lado, mas senti-me um pouco culpado pelas atitudes irrefletidas da minha Península Ibérica. 
Uns quilómetros à frente, desculpei-me e pensei «são coisas de adolescentes». Ainda estamos a tempo de sermos adultos responsáveis.

Trabajo de estantería ("Dentro del Secreto", Casa del Libro de Valladolid)

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Valladolid, 20/I/2017

Não é difícil identificar as fronteiras que tenho em mim. As minhas limitações. Falar sobre elas já começa a ser hábito que não controla o nervosismo. Oculto-o com técnica mas, passada a exposição, os músculos acusam o libertar de adrenalina e o estômago retoma a digestão.
Aqui em Valladolid, graças à confiança duma amiga que vê nas minhas limitações algo digno de ser partilhado,
falei de fronteira, de geografia de afetos, de barreiras de preconceito e usei a palavra para tentar combater o receio que este «dia d» me inspira. Se alguém me dissesse, há alguns anos atrás, que iria assistir a este dia, penso que rir-me-ia. Donald Trump foi investido presidente dos EUA. Investiu-se uma nova fronteira na história. Vai ser difícil cruzá-la. Chamar-se-á «Trumpismo»? «No idea». Porém tenho arrepios e não é graças ao frio desta cidade.
Vou descansar com um misto de profunda gratidão e profunda indignação por ver o que pensava que não seria algum dia possível ver...

terça-feira, janeiro 17, 2017

"Todos os bons e firmes são alegres" - Ernest Hemigway (trad. Monteiro Lobato)

"Todos os bons e firmes são alegres, reflectiu Jordan. É muito melhor ser alegre que é sinal de uma coisa: de uma imortalidade terrestre. Que coisa complicada! Já quase não há alegres. A maior parte dos lutadores joviais desapareceu. Restam pouquíssimos." 

in "Por Quem os Sinos Dobram", Ernest Hemigway (trad. Monteiro Lobato)

segunda-feira, janeiro 16, 2017

A bondade é o melhor detergente..

A bondade é o melhor detergente que encontro para a sujidade de alguns dos nossos dias. 
É um poderoso activo para as nódoas do presente e para os resíduos do passado.
Porém, já começa a custar esfregar, de joelhos, e manter um sorriso nos lábios...

domingo, janeiro 15, 2017

Castelo de viae - Ángel Campos Pámpano

1
Não fica longe
de casa a fronteira:
esse silêncio
da luz entre castanheiros
que te aproximam da infância.
2
Só procuras
o amparo inocente
e mineral
duma terra estendida
que não te reconhece.
3
Tarda em chegar
a palavra que diz
o equilíbrio
deste céu azul
como nenhum, fundo.
(in «La Vida de Otro Modo», 2008, trad. Luis Leal)

sexta-feira, janeiro 13, 2017

O frustrado e o poeta

O frustrado encontra na palavra que o define um silêncio que nunca será susurro, muito menos voz. Justifica-se com a queixa e chora a versos derramados a metro.
O frustrado vê-se vate aos olhos do lamento. As trevas da escrita ocultam-lhe, em noites brancas, o sol do dia. A melanina não conhece tez diferente que a da proteção do abrigo, do casaco, da rede de literato.
O frustrado é-o por condição de decisão pessoal. O poeta não. É-o porque teve de ser e nunca saberá totalmente reconhecer-se uma única palavra.

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Mais um pum!



Este vem do Brasil, nas palavras do Vinicius de Moraes, e canta o grupo Boca Livre.

O AR (O VENTO )

Estou vivo, mas não tenho corpo
Por isso é que eu não tenho forma
Peso eu também não tenho
Não tenho cor

Quando sou fraco
Me chamo brisa
E se assobio
Isso é comum

Quando sou forte
Me chamo vento
Quando sou cheiro
Me chamo pum!

Boca Livre



Manuel António Pina a propósito dum mundo de escritores...

«É um mundo de intrigas. Vive muito dessa coisa da posteridade. Valoriza coisas ridículas: se aquele tipo teve mais linhas de crítica do que eu. É muito triste, o mundo dos escritores. É igual ao dos músicos, ao dos professores, ao dos jornalistas.». in "Dito em voz alta - entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo", p.210.

«A única viagem é a interior» - Rilke

terça-feira, janeiro 10, 2017

"Oh, João! Foste tu, porcalhão?" de David Roberts

Ventosidades e mais ventosidades! Cortesia da Fátima Cabrera, cheguei a este verdadeiro tratado sobre puns não só na primeira infância! 

Há tantos tipos de peidos! Há ensaios filosóficos sobre traques dignos da mais erudita literatura, mas isso para outro dia...

Fica a sugestão e a lembrança do meu filho mais velho, a brincar sozinho no quarto e a dar peiditos infantis que se partiam a rir...







O que é um bom publicitário?

O que é um bom publicitário? Um poeta que se passou para o lado negro da força da palavra.
Mas os poetas, como bem mo recorda outro poeta, apesar das suas almas viverem do ar, o corpo e a família necessitam de pão em cima da mesa.

George Orwell - 1984






segunda-feira, janeiro 09, 2017

Excerto de “Da Ibéria e do Iberismo” de Fernando Pessoa

“Para uma união ibérica de qualquer espécie, seja essa espécie qual for, três cousas são essenciais, e sem elas nada se poderá fazer, e antes de elas se fazerem é inútil pensar sem receio nosso em qualquer aproximação. Essas três cousas são:
1º a abolição da monarquia em Espanha;
2º a separação final da península nas suas três nacionalidades essenciais – a Catalunha, Castela e as províncias que conseguiu submergir na sua personalidade, e o estado galaico-português.
É absolutamente impensável a solução do problema ibérico sem ser por uma federação; é impensável a federação com a constituição desigual, anti-natural, viciosa e falsa, dos estados ibéricos actuais.

(…)

De há tempos para cá se vem fazendo, por um processo de combinação espontânea que vale muito mais, e significa muito mais, que qualquer táctica de política amistosa, uma aproximação mental entre Portugal e Espanha. Dir-se-ia que os dois países repararam por fim no facto aparentemente evidente que uma fronteira, se separa, também une; e que, se duas nações vizinhas são duas por serem duas, podem moralmente ser quasi uma por serem vizinhas. Esta aproximação mental não implica, de parte a parte, a abdicação de cousa alguma em que consista essencialmente a independência ou a personalidade de cada uma das nações; duas criaturas podem ser amigos sem ser sócios. Implica tão-somente um estabelecimento de entendimento e de amizade, natural no caso de Portugal e Espanha, que nenhum conflito de ambições hoje separa, que uma civilização tradicional comum aproxima, e que se encontram mais que nunca ante o problema, comum também, de defender, naquela larga extensão da América, que por ambos foi civilizada e aberta à continuidade do progresso, a tradição civilizacional ibérica contra a incursão disruptiva de conceitos civilizacionais estranhos”.


Fernando Pessoa, in “Da Ibéria e do Iberismo”.  

Capítulo VI - «El mundo íntimo de mi padre» (in «Barrio Lejano» de Jiro Taniguchi)

sábado, janeiro 07, 2017

Um homem assume-se até ao fim

Morreu o Mário Soares. O Presidente da República da minha infância e o político pelo qual nunca nutri grande simpatia. Quando comecei a interessar-me por história, abordei através do estudo e do testemunho a sua figura fundamental para a democracia em Portugal e para a cultura portuguesa do século XX. Atrevo-me a pensar que também para a Europa e para o seu sonho (talvez impossível) europeu...
O homem e político assumiu-se até ao fim. Um dos últimos políticos por vocação e consciência antes da leva assumida de tecnocratas. Mesmo sem simpatizar com uma pessoa deste tipo, a política actual necessita da convicção humana e ideológica de homens como Mário Soares.
Se existe um além, desejo-lhe a companhia de Álvaro Cunhal e do Sá Carneiro... todos eles melhores exemplos do homem político que os nossos representantes mais preocupados com a militância do que a constância ideológica.

O céu... (por Jiro Taniguchi) in «Barrio Lejano»

O céu é tão alto...
mas, ao olhar as nuvens, quase parece poder tocá-las com a mão...
O céu é tão misterioso...
Parece imutável, como se estivesse mais além do tempo.
Talvez a eternidade seja simplesmente isso, o céu...
(trad. Luis Leal)

Dia de Reis (06/I/2017)

Findou o dia de Reis. Passámo-lo em Évora com os meus pais. Não sei se já alguma vez o escrevi, mas só me apeteceu abraçar a cidade. Abraçar cada recanto, apertar contra o peito, envolver-me nos braços de quem me criou.
Em Évora só me apetece falar mesmo sem fazê-lo. Desabafar a minha insegurança, libertar tudo o que trago oprimido pelo tempo, agarrar-me a essa pequena medida de paz da minha meninice feliz num bairro cada vez mais longinquo.
Preciso desta cidade, deste toque humano, preciso de adormecer nela e ir lá a cima a pé e voltar ao bairro carregado de luz e histórias. Acordo nela, mas não sei se em mim...
Digo tantas vezes «filho, foi aqui que nasci». Chamam-lhe «cidade museu». Ele parece entender o que é nascer, viveu o nascimento do irmão, mas não entende o que é nascer ali. Não tem porque entender.
Voltámos a casa. Voltámos a ser em espanhol, a sentir o abraço da sua mamã, que nos esperava como rainha no meio dos seus principezinhos.
O meu corpo já não tem uma só morada, uma única cidade, porém a alma é de Évora...

Paco Ibáñez - El lobito bueno



Un poema de José Agustín Goytisolo que canta Paco Ibáñez. ¡Para las criaturas, Luis!


EL LOBITO BUENO

Érase una vez
un lobito bueno
al que maltrataban
todos los corderos.

Y había también
un príncipe malo,
una bruja hermosa
y un pirata honrado.

Todas estas cosas
había una vez.
Cuando yo soñaba
un mundo al revés.




sexta-feira, janeiro 06, 2017

Emmanuele

Reconheço a beleza da composição como também as horas adolescentes de contemplação. Hoje um amigo recordou-me o porquê do erotismo subliminar de nos sentarmos num cadeirão de verga. Sylvia Kristel está no além, bem sentada, neste trono de memória, de fronteira entre o eros e o materialismo sexual explícito...

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Noite delinquente , 8/I/2017

O ambiente do local onde vivo é calmo, mas o ano novo trouxe violência e ameaças de morte a uns vizinhos da urbanização. Vizinhos esses que não me inspiram confiança e com os quais apenas intercambiamos os bons dias.
A cena foi representada para todos os vizinhos bem próximo da meia-noite. Meteu gritos, insultos, pontapés às portas, litronas partidas, polícia e gente assustada por delinquentes que me fizeram as suprarenais trabalhar mais do que é normal.
Tendo em conta de que falamos do terceiro dia do ano, o microcosmos do meu bairro não começou com o pé direito. O mundo também não.
Deitei-me preocupado com o crescimento das duas crianças, que não acordaram por um triz, deitadas no quarto ao lado. Não as consigo proteger do mundo real. Oiço-as com o sono perturbado, com laivos de pesadelos. Vou tentar dormir para amanhã poder acompanhá-las. É a única coisa que posso controlar, o querer estar com eles.
Ao contrário destes vizinhos com relacionamentos problemáticos, um pai que ama os filhos, mesmo carregado de inperfeições, não pode ser uma má companhia... não pode...

O ÚLTIMO OLHAR NO INSTANTE DE PERIGO - Jorge Riechmann (Trad. Luis Leal)

O ÚLTIMO OLHAR NO INSTANTE DE PERIGO


«Deverias seguir o exemplo de shunk tokecha (o lobo). Ainda que o surpreendas e corra para salvar a sua vida, parar-se-á para dirigir-te outro olhar antes de entrar no seu último refúgio. Assim deves também tu dirigir outro olhar a tudo quanto vês.»
Assim falava o tio ancião de Oyehesa, um índio dakota santi. O mais parecido a este conselho pavoroso é o que nos proporcionava Walter Benjamin na sexta das suas «Teses sobre filosofia da história»: «Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘tal e como verdadeiramente foi’. Significa apropriar-se de uma recordação tal e como reluz no instante dum perigo.»
Historiador, ativista, poeta: aprende a ver como o lobo nesse instante de libertação ou condenação, de proximidade da morte ou do milagre, do supremo perigo.

Jorge Riechmann (trad. Luis Leal)

in “fracasar mejor (fragmentos, interrogantes, notas, protopoemas y reflexiones)”, Olifante, Ediciones de Poesía, Zaragoza, 2013.

LA MIRADA ÚLTIMA EN EL INSTANTE DE PELIGRO

«Deberías seguir el ejemplo de shunk tokecha (el lobo). Aunque lo sorprendas y corra para salvar su vida, se parará para echarte otra mirada antes de entrar en su último refugio. Así debes también tú echar otra mirada a todo cuanto ves.»
Así hablaba el anciano tío de Oyihesa, un indio dakota santi. A lo que más se parece este consejo sobrecogedor es al que nos proporcionaba Walter Benjamin en la sexta de sus «Tesis sobre filosofía de la historia»: «Articular históricamente el pasado no significa conocerlo ‘tal y como verdaderamente ha sido’. Significa adueñarse de un recuerdo tal y como relumbra en el instante de un peligro.»
Historiador, activista, poeta: aprende a mirar como el lobo en ese instante de liberación o condena, de proximidad de la muerte o del milagro, de supremo peligro.

Jorge Riechmann



“fracasar mejor (fragmentos, interrogantes, notas, protopoemas y reflexiones)”, Olifante, Ediciones de Poesía, Zaragoza, 2013.

terça-feira, janeiro 03, 2017

O pastor (alemão)

So long, John!




ON YOUR ISLAND

On your island
does the night fall later?
Am i walking a little ahead of you
so that no snake will bite
your sandalled foot?

The balance is never made
This is why the stars are silent
offering no account.

How to measure
a season
against
the calender of your absence?

How to measure
the stream
of my tangled light
in the mountain
of what has been
and will be?

The balance is never made.

Yet in the night your eyes and mine
sounding one another
show no trace of vertigo.

John Berger


"Morreu John Berger, um artista (e um espectador) total" (Público)


John Berger na Wikipédia (português) e na Wikipedia (english)




terça-feira, dezembro 27, 2016

"Pássaros dum tiro" por Luis Leal (in revista "Mais Alentejo" nº 136, p.106)


"Pássaros dum tiro" por Luis Leal (in revista "Mais Alentejo" nº 136)

Sei pouco sobre ornitologia. Há por esta península tantos bandos de aves à solta que isso ajudar-me-ia a compreender melhor o nosso habitat. Tal como observar pássaros, ouvir música é bastante prazenteiro para uma alma simples como a minha. Se posso, faço-o em simultâneo, de fones nos ouvidos e binóculos nos olhos, misturando aves, algumas raras, e melodias. Seria mesmo capaz de compilar uma banda sonora ornitológica. Ainda sou daqueles que aprenderam a entender o conceito de álbum mas, por pragmatismo, também faz “playlists” de momentos e ocasiões. Boas letras e trovas, para mim lírica pura, evadem-me de controvérsias, conceitos de estanqueidade literária e “nóbeis” atribuições.

Poucas vezes cheguei a um cantautor por conta própria, quase sempre alguém, ou algo, me guiou. Ligo bastante à crítica e às recomendações de uma amiga chegada, a casualidade.

A viajar, ainda adolescente pela palma da mão do Duarte Coxo (amigo além do fado), cheguei ao Jorge. O Sérgio acompanhava as noites bem passadas na casa do mestre Jorge Neto. Graças ao ouvido versado do meu cunhado Francisco von Gilsa conheci Joaquín, “el hombre del traje gris”. No entanto, não sei graças a quem ou o quê, fui apresentado ao Juan Manuel. Quatro melros de guitarra a tiracolo, jograis do meu e do tempo dos meus pais, que se deixaram apanhar nas minhas arapucas e, graças a artimanhas de caça para alimentar algo mais que o meu corpo, são magníficos exemplares das minhas capturas como caçador de versos e cantigas.

“Só” por existir, só por caminhar por bairros de amor e em alguns lados errados da ingenuidade, descansei num qualquer “Domingo no Mundo”. Descobri que também Rimbaud andara por desertos do amor e, no primeiro dia do resto da minha vida, mergulhei num mar inconcebível, “Pongamos que hablo de Madrid”, onde até a passarada vai ao psiquiatra e as princesas não querem ser princesas. Ali, no cruzamento de todos os caminhos, rumei ao “Mediterrâneo”, à cidade condal, assumindo a minha afeição por Antonio Machado e Miguel Hernández. A Hernández só pedi perdão por o Portugal de Salazar o ter entregado à “Guardia Civil” ao tentar cruzar a fronteira para exilar-se dum franquismo que o “mataria sem música, com os seus grandes olhos azuis abertos soterrados debaixo do vazio ignorante”.  

Desde o ninho se aprende a voar, desde um esconderijo tornado público se levantam voos solitários. Passadas horas ermitas a subir céu aprende-se a contemplar a companhia, a sincronia, dum bater de asas experiente e carregado de sabedoria. Se a solo o Jorge Palma e o Sérgio Godinho são magníficos, juntos são soberbos. Aqui em Espanha, o mesmo se aplica a Joaquín Sabina e a Juan Manuel Serrat, esses amigos tão diferentes que podiam ter nascido do mesmo parto. 

Curiosamente, encontro muitas parecenças urbanas, com tendência a pisar o acelerador do excesso, nas obras de Palma e Sabina. Igualmente nas de Godinho e Serrat, ambas interventivas e fraternais. Sei que Jorge Palma conhece o Joaquín Sabina. Num final dum concerto, envergonhado mas atrevido, perguntei-lhe enquanto lhe pedia um autógrafo. Quanto aos outros, não faço a mínima ideia, porém espero atrever-me a perguntar ao Sérgio Godinho, aquando da sua “tourné” poética por Badajoz, Cáceres e Plasencia, sobre o seu congénere Serrat. 

Quando me falam de destino, costumo dizer não acreditar no determinismo da palavra. Não o digo muito convicto, digo-o com a “boca pequenina”, recordando o obstetra da família quando se fala de ampliar a família. Mas, se tal sina, desígnio cósmico, fado, ou qualquer outro sinónimo sem volta atrás, existe, espero que em pleno voo, a sobrevoar a península, estes pássaros se cruzem. Prometo estar atento, como bom caçador, sem munição, só com o coração. 

domingo, dezembro 25, 2016

A arte sem afeto de nada me serve. São palavras vazias, notas soltas, imagens perdidas e melodias sem ritmo para os meus dias. É como sapatos bonitos que tenho mas que uso pouco porque não são cómodos ao caminhar. Sempre opto pelos velhinhos, sem estética nem moda, mas que me aparam os pés como mais nenhuns.

"Uma ideia de Bíblia" - Frederico Lourenço

"A Bíblia é uma narrativa em que o herói é filho de um carpinteiro e as restantes personagens são pastores e pescadores. Julgo que isso é muito revolucionário e interessa-me compreender como é que esse mundo greco-romano, no qual esse tipo de literatura era desconsiderado,  se deixou conquistar. Podemos pensar que A mensagem de Jesus de Nazaré se dirigia aos judeus, mas o que ele acabou por conquistar verdadeiramente foi o mundo greco-romano, que não dava o mínimo de crédito a pescadores e a carpinteiros." in "Revista Visão", 15/XII/2016

sábado, dezembro 24, 2016

Luzes de Natal

Todos os anos, desde que comecei a conduzir, ia mostrar as luzes de Natal da minha cidade aos meus avós. A vida idosa de periferia não lhes facilitava deslocarem-se com o fim de visitarem o ambiente natalício do centro histórico. O Natal éramos nós, as luzes eram artificiais mas não falhavam a iluminar-nos. 
Hoje cumpri esse ritual com os meus filhos. E os meus avós estavam connosco.

sexta-feira, dezembro 23, 2016

106 anos cumpria o meu tio António. Com as mãos verdadeiras que tinha, essas que não distinguem um poeta dum mestre carpinteiro, esculpiu tantos homens como trabalhou versos na madeira... Faltou-nos tempo tio. Mas o que tivemos foi de qualidade.

Alarme: Bicicletas! (por Eduardo Galeano)

- A bicicleta fez mais que nada e ninguém pela emancipação das mulheres no mundo – Dizia Susan Anthony.
E dizia a sua companheira de luta, Elizabeth Stanton:
- As mulheres viajamos, a pedalar, em direcção ao direito de voto.
Alguns médicos, como Philippe Tissie, advertiam que a bicicleta podia provocar aborto e esterilidade, e, outros colegas, asseguravam que este indecente instrumento induzia à depravação, porque dava prazer às mulheres que roçavam as suas partes íntimas contra o assento.
A verdade é que, por culpa da bicicleta, as mulheres deslocavam-se por sua conta, desertavam do lar e desfrutavam do perigoso gosto da liberdade. E, por culpa da bicicleta, o opressivo espartilho, que impedia de pedalar, saía do roupeiro e ia ao museu.


(Tradução: Luis Leal)

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Aproxima-se o Natal...

Aproxima-se o Natal. O mundo afasta-se da solidariedade da época.  Em Alepo não há milagres. Na Alemanha os mercados natalícios são vítimas de atentados. Nos EUA, um tirano de cabeleira loura prepara-se para subir ao poder com a amizade duns russos que veem morrer os seus às mãos dum vil alcoolismo que se consola, na ausência do vodka, com garrafas de colónia...
No quarto ao lado, dorme uma estrelinha e um pinheirinho. Por eles vivo o Natal e por aqueles que se afastam de serem humanos... Por mim, que me afasto de mim.

Civilidade (Alberto Pimenta)



CIVILIDADE

não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima o espirro

não soluce madame
reprima o soluço

não cante madame
reprima o canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.

Alberto Pimenta



Recitado por Luís Gaspar em Estúdio Raposa







domingo, dezembro 11, 2016

Seis anos, parte II (9/XII/2016)

Cumprem-se hoje seis anos que descobri que o amor se escreve a caneta e não se apaga… Parabéns filho! Seis anos únicos, teus, nossos… / Se cumplen hoy seis años que descubrí que el amor se escribe con boli y no se borra… ¡Felicidades hijo! Seis años únicos, tuyos, nuestros…


sexta-feira, dezembro 09, 2016

6 anos

Hoje o Santiago faz 6 anos e está a escrever esta entrada comigo no telemóvel. É um dos momentos mais importantes das nossas vidas. Ele está a ler isto em voz alta. Será que um dia ele se recordará de o estarmos a fazer, lado a lado, cabeça com cabeça, dedo a dedo? 
Agora o quê, pergunta ele?  
Vamos publicar, digo-lhe eu.

quinta-feira, dezembro 08, 2016

Ferramentas e afeto


A Amélia e Francisco Nunes, "In memoriam"

Aceder a ferramentas é fundamental para que qualquer obra se edifique. A ferramenta é uma extensão da mão, moldada à necessidade e caracterizada pelo engenho, como tal, quando não se têm os utensílios adequados, o projeto tende a ser mais duro de trabalho, lento, algo tosco, longe dos padrões da perfeição exigida.  

Em casa havia ferramentas suficientes, nem todas específicas, mas sempre tive a sorte de alguém mas emprestar com confiança e generosidade. Isso não impede que a casa da nossa infância se vá desabando na Rua Reguengos de Monsaraz. Não a terminámos a tempo. É imperfeita por medos e ingenuidade, no entanto, tal como a capela do Mosteiro da Batalha, é bela na sua história e não faz falta ver-se acabada.

Atualmente tenho as minhas ferramentas. Aprendi a desenrascar-me, a fabricar algumas por conta própria, mas continuo a ir frequentemente à garagem do Chico Nunes pedir-lhe ferramentas emprestadas. Um alicate específico em pontas, uma broca de diamante, uma chave de bocas ou se posso usar o torno na sua bancada tão organizada que me faz querer ter uma igual na qual seja capaz de escrever um poema e soldar ao mesmo tempo.

Lá está o meu vizinho favorito, músico militar em camisola de alças, a ensaiar com o seu saxofone. Bem me quer ensinar solfejo, porém o ritmo da minha maturidade tarda, é irregular como o dos amantes e nunca poderá executar música porque só serve para frui-la. No meio desta garagem, organizada por serventias, ouço o sopro dum jazz futuro e improvisado, o canto biográfico dum "Bird" e revejo-me na camaradagem do Clarence Clemons na obra, de mangas arregaçadas, do “Boss” Springsteen.

"Leva o que quiseres Pintainho", diz-me com voz grave, brilhante, igual ao saxofone cuidado pelas suas mãos. Confia em mim e eu nele. É uma alegria vê-lo na missa a tocar na banda do Jesus com cara de quem não está chateado comigo por eu odiar que a minha mãe me obrigue a ir à missa todos os domingos. Foi a melhor aquisição para a capelinha da Senhora da Saúde e eu sinto-me melhor ao vê-lo aí. Até os grandes homens, másculos e fortes, vão à missa, logo a minha virilidade não está ameaçada pela beatice a que a minha mãe me obriga.

Não há ferramenta que detenha o tempo, muito menos que o concerte. Da época da garagem, da Eucaristia dominical imposta, passando pela única classe que algum dia tive - porque o meu vizinho Chico, com tanta paciência e carinho me dava o nó na gravata, agradado por ser o eleito da minha amizade, da minha admiração, sempre me dizia "o meu Pintainho" – chego a este dia.  

Também não há ferramenta, de pleno juízo, que me tire a alegria em recordar ir ao outro lado da rua, bater à porta e perguntar à vizinha Amélia pelo vizinho Chico. Ela deixa-me entrar e diz-me para ir ter com ele à cozinha ou à garagem, ali onde ele é a grande ferramenta que a vida, confiante e generosa, me emprestou.

Quis também a vida que não nos despedíssemos. Os amigos não se despedem, honram a amizade de maneira simples. Nunca aprenderei a fazer o nó da gravata. Não quero. Será sempre o vizinho Chico quem mo vai fazer, orgulhoso de ver o Pintainho que as suas ferramentas ajudaram a crescer.

Hoje o meu amigo Francisco Nunes fazia 78 anos. A vizinha Amélia já o ouve a ensaiar na garagem. Qualquer dia volto a atravessar a rua e bato-lhes à porta. Levarei a gravata na mão, bem passada, e peço-lhe para me fazer o nó “windsor”, aquele que ele acha dar-me mais classe…

quarta-feira, dezembro 07, 2016

Víctor Erice - El sur



Por falar em água e vedores..., é o que acontece, Luís. Tens de ver El sur (1983), este filme, esta beleza, mesmo não terminado como o seu realizador, Victor Erice, desejava.

´













segunda-feira, dezembro 05, 2016

A propósito da necessidade de levar o ego a cagar à rua


Todos nós passeamos o nosso ego. A diferença está em que uns o passeiam à solta e outros à trela. Melhor estrangulados pela própria força, não vá morder em alguém... 


domingo, dezembro 04, 2016

The baby and the dog...

"Pino, die Hund und das Kind" 

Fidel

Fidel morreu fiel à revolução cubana. "Com muitas luzes e sombras" dizem alguns. Não duvido e não tivesse ele sido um dos símbolos do seu próprio século, o século XX.
Durou como um dos seus discursos. Foi longo, estruturado, argumentado e findou coerente. Mas a coerência individual, a culminar num culto ao líder de sabe deus quantos dias de luto nacional, é impositiva.
Olho para este barbudo, que associo à k7 de tango do meu pai, com a minha coerência individual, nada impositiva, era um ditador com as suas circunstâncias... Todos têm as suas com mais ou menos bloqueios e sanções económicas mesmo a sul do seu arquinimigo. A circunstância não pode justificar tudo... O mal menor justificado por alguns não deixa de estar mal.

O Bunker

Na Suiça, é comum os edifícios terem bunkers, fiscalizados de 5 em 5 anos, não vá o diabo tecê-las. Se alguém me contasse iria ter dificuldade em acreditar, mas vi para crer como São Tomé.
A neutralidade da história desta nação não lhe confere um estatuto de ingenuidade, todo o contrário, de cautela, precaução e estratégia. Vejo isso como sabedoria e visão a longo prazo.
Hoje, na Áustria, não muito longe donde nos encontramos, houve umas eleições renhidíssimas das quais sair vencedor, por escassos votos, o candidato dos verdes, seguido, quase ombro a ombro, pelo candidato de extrema-direita.
Ouro valem estes momentos partilhados com amigos, sem impedimentos de línguas e com crianças a crescerem iguais em oportunidades pelas convicções de quem as educa. Ouro imaterial, invisível para trocas de sobrevivência comercial, como a de tantos refugiados da história e do presente.
O Jorge receia o pior. É cauto como o país em que vive. Tem razão em sê-lo. Não o sou da mesma maneira porém entendo-o com a mesma certeza que tenho para com a minha intuição. Isso não significa que não deteste que ela tenha constantemente razão.
O tempo também deveria ter bunkers com compartimentos úteis para a sobrevivência da história, revistos com frequência e ensinados por lei... ou não...  Talvez só lá se protegesse a história de alguns.
Este diário digital é um bunker de bytes, escrito para resistir ao olvido do cérebro de quem o escreve. Tem a arquitectura defensiva do betão e a consistência do papel. O que fará em caso de urgência? Apagar-se-á? De certeza que sim. Até lá pode ser que alguém o tenha lido, construa o seu próprio bunker e proteja a liberdade do seu próprio pensamento.

Uster bikes (Switzerland)

As bicicletas dormem na rua e não são infelizes...
Observam como as estações vêm e vão...

Reading a sunny day... (Swiss Alps)

Badajoz, Lisboa, Zurique

Nada como a hospitalidade dum colchão e um saco de cama na casa dum grande amigo. Família a reboque e carregado que nem um burro, lá cheguei a Zurique depois dum dia intenso - desses que parecem uma semana - de trabalho, estrada, aeroporto e avião...
O corpo ainda vai aguentando, mas já se começa a queixar da intensidade da jornada e das poucas horas de descanso compensatórias... Vale o abraço das boas-vindas e as boas notícias que nos esperam!

segunda-feira, novembro 28, 2016

"Ser malo o ser bueno"

Milagre da casa...

Acredito em milagres porque a casa da minha infância esteve em tijolo vivo, taipais nas janelas e esquentador onde tomávamos banho.
Acredito em milagres porque quem lá viveu tornou-se essa casa. Um edifício com história, precário de construção, austero em luxos, inseguro por ser tão fácil de arrombar, mas com gente dentro. Uma família de arquitectura imperfeita, e por aprovar as plantas na câmara municipal, com pobreza energética, mas com o valor de manter-se de pé, lado a lado, digna de não envergonhar a vizinhança.

"Yo no creo en Dios, pero tengo el sentimiento de lo infinito." Marcel Arland

domingo, novembro 27, 2016

"Digam-me como é uma árvore" – Marcos Ana (Trad. Luis Leal)

Marcos Ana, preso político, durante 23 anos, do franquismo. Morre o corpo ao homem mas prevalece o poeta de resistência...

"Digam-me como é uma árvore" – Marcos Ana 

Digam-me como é uma árvore
contem-me o canto de um rio
quando se cobre de pássaros,
falem-me do mar,
falem-me do cheiro aberto do campo
das estrelas, do ar.

Recitem-me um horizonte sem fechadura
e sem chave como o choço de um pobre,
digam-me como é o beijo de uma mulher,
deem-me o nome do amor
não o recordo.

As noites ainda se perfumam de apaixonados
nervosismos de paixão à lua
ou só resta esta fossa,
a luz de uma fechadura
e a canção da minha rosa?

22 anos, já esqueci
a dimensão das coisas,
o seu cheiro, o seu aroma,
escrevo às escuras o mar,
o campo, o bosque, digo bosque
e perdi a geometria da árvore.

Falo por falar assuntos
que os anos me esqueceram.

Não posso continuar:
oiço os passos do funcionário.



Que gentileza, que simpatia, que paciência para aturar-me...

Até hoje, nunca um desconhecido me tinha abordado pessoalmente a dizer que lê este blog e lhe agrada o que vai sendo escrito e publicado.
Fiquei algo desconcertado mas visivelmente agradado com tamanha gentileza e simpatia. Não tive ocasião para lhe dizer que este não é um dos melhores fóruns para aprender a língua portuguesa sem um, ou outro, erro de ortografia, tal como desculpar-me por esse facto me envergonhar. Tento rectificar essas lacunas com frequência, pesa-me na consciência, porém sei que continuarei a dar umas calinadas, na gramática e na sintaxe, por estas bandas de quando em vez.
Grafar os meus dias, os meus pensamentos, está a tornar-se o que algumas vezes imaginei no passado. Não profanarei a palavra "escritor" por purismo. Tantos anos de estudos literários nunca renunciaram a prática da literatura, o acto de escrever por si só, bastante mais antigo em mim que análises e teses.
A rapariga que me abordou disse-me o seu nome. Quis a imediatez do momento não memorizá-lo. Outro motivo para desculpar-me...