sábado, maio 07, 2016

Parêntese sobre o Rio Jordão

(Ouvi falar do rio Jordão pela primeira vez graças à bíblia teatralizada por um pároco inesquecível do meu bairro. Era tão bom contador de histórias que ainda hoje penso que este livro salta de género em género graças a um divino realizador, ou uma trupe de realizadores tipo Tarantino. Às vezes gosto de imaginar este Deus bíblico como um dono de um videoclube com tanta cultura cinematográfica constantemente a recomendar aos seus clientes filmes de acção, a boa série B, um “gore” para mais de 18, comédias nada românticas, kung-fu de Hong Kong - em que se usa uma fisga em vez de nunchakus -, anedotas do Cantiflas ou um melodrama de domingo à tarde.) 

sexta-feira, maio 06, 2016

Por más vueltas que le dé/Por mais voltas que dê

Por más vueltas que le dé, solo encuentro una palabra para describir todo lo que las flores y las ruinas de este [33] siguen trayendo a mi vida. Gratitud. Gracias Fátima. Gracias Juanra. Vosotros sois mi Plasencia. (Ayer en la “Feria del Libro”).


Por mais voltas que dê, só encontro uma palavra para descrever tudo o que as flores e as ruínas deste [33] continuam a trazer à minha vida. Gratidão. Obrigado Fátima. Obrigado Juanra. Vocês são a minha Plasencia. (Ontem na “Feira do Livro”).  





quinta-feira, maio 05, 2016

[33] na Feira do Livro de Plasencia/ [33] en la Feria del Libro de Plasencia

Empiezo mayo muy bien acompañado por mi Fátima Beltrán Cabrera en la Feria del Libro de Plasencia. Este 5 de mayo, el otro día de la lengua portuguesa (no confundir con el 10 de junio), estaremos juntos hablando del [33] que también es suyo. A las 20:00 en la Plaza Mayor de esta bella ciudad. 

Começo Maio muito bem acompanhado pela minha Fátima Beltrán Cabrera na Feira do Livro de Plasencia. Este 5 de Maio, o outro dia da língua portuguesa (não confundir com o 10 de Junho), estaremos a falar do [33] que também é seu. Às 20:00 na Plaza Mayor desta bela cidade.


quarta-feira, maio 04, 2016

Devir#3 (Uma pequena maravilha/Una pequeña maravilla)

Mais uma pequena maravilha (adoro o formato edição de bolso e a capa, para não falar do conteúdo…) sai das mãos do Nuno Matos Duarte e do Ruy Ventura. É um orgulho poder colaborar nesta Devir#3 na antologia dedicada ao saudoso poeta Ángel Campos Pámpano. A não perder!

Más una pequeña maravilla (me encanta el formato de edición de bolsillo y la portada, para no hablaros del contenido…) sale de las manos de Nuno Matos Duarte y de Ruy Ventura. Me enorgullece bastante haber colaborado en esta Devir#3 en la antología dedicada al "saudoso" poeta Ángel Campos Pámpano. ¡A no perder!

terça-feira, maio 03, 2016

Abril no fim

(A ponte que me separa de qualquer um dos lados é o melhor lugar para se estar. Não sou um nem outro. Não sou nada. No entanto, posso servir para unir. Uma obra sem política pública e sem orçamento prévio.)
Daqui, vislumbro o final de abril. Cruel por não ser nada mais do que o sonho dos meus pais.
Acaba abril. Acaba o mês do MFA  (mais flores abrir-se-ão)...

Lisboa. Fim de tarde.

domingo, maio 01, 2016

"Em palco, com a camisa abertas e mangas arregaçadas, Bruce parece um homem que acabou de chegar a casa após um longo dia no escritório, na estrada ou no estaleiro. Só que prefere pegar numa guitarra."

"uma das coisas sobre as quais escrevi em The River foi o tempo.  Ontem à noite, um amigo meu disse-me que o tempo nos apanha a todos. Temos uma quantidade limitada de tempo para fazermos o nosso trabalho tomarmos conta da nossa família, para tentar fazer algo bom." Bruce Springsteen

sábado, abril 30, 2016

Boa música de Cabo Verde para o nosso aniversário



Ó Luís! Com licença, depois dessas palavras sobre o suicídio... Venha está música de Cabo Verde para nos acompanhar no décimo aniversário do blogue. Um abraço!


Amigos e discípulos de Ano Nobo em convívio: mazurka "caldo tchitcharinho". Nas violas: Kim di Nanda (solo), Pascoal, Pedro Semedo, Africano (filho de Ano Nobo).

S. Domingos, 3 de Julho 2009.


Para saber quem era o músico Fulgêncio Tavares, conhecido como Ano Nobo (Sociedade Caboverdiana de Autores)








sexta-feira, abril 29, 2016

Auto-retrato possível (aos 35 anos)


De sua parte, nasceu há 35 anos, em Évora, de olhos azuis com sotaque. Bem servido de orelhas (ocultas numa melena loura colonizada por grisalhos laterais). Índice de massa corporal adequado, sem colesterol porém com tendência familiar à hipertensão. Tem musa, filhos e uma bela cicatriz no tornozelo direito.

De roupa informal e sapatos cómodos, não renega o clássico blazer de ombros ainda mais quadrados que os seus.

Ossudo e atarracado. Mãos ásperas mas suaves de intenções. Generoso de afecto e teimoso amigo do seu amigo. Pouco dado a polémicas e a inimigos. Sabe pôr pontos finais. Desde pequeno que tem noção da morte, sem medo, consciente do ritmo e substância do ser que se é e se acabará.

É crente. Nas crianças. Papas só Cerelac, Nestum e, agora, o Francisco.

Gosta de música. Gosta de livros. Gosta de ferramentas. Gosta de armas e navalhas (reminiscências duma infância série B e dum avô leal). Quando faz o que gosta põe tudo no fazer. Tenta ser amável sem olhar a quem e o quê.

Arqueólogo de supermercado. Piedoso com as velharias. Despreza a opulência e o desperdício. Forreta q.b. Crê-se sustentável.

De bicicleta pelos dias, em boa companhia, a refeição é um prazer, de pé, em solidão, é necessidade de nutrição.

No papel, no computador, no que estiver à mão, escreve à solta.

Gosta de palavrões escritos e falados. Tem o (mau) costume de ensiná-los e, por vezes, a sorte de ser pago por isso.

Herdou da mãe uma certa alegria, o gosto por comunicar sem medo de ser ridículo. Do seu pai a timidez e dentro o silêncio que poucos vêem. Um virtuoso retrato moral à cabeceira.

Tem já mais do que a idade de Cristo e até que ponto é o que imagina ser?

Uma resposta/comentário (reflexão) a um ensaio denominado "Suicídio Alentejano" na revista "nós-otros" (28/IV/2016):

Uma resposta/comentário (reflexão) a um ensaio denominado "Suicídio Alentejano" na revista "nós-otros" (28/IV/2016):

"Ultimamente adjectiva-se demasiado o suicídio de "alentejano". Até se vendem livros polémicos sobre isso, mas não sei se essa, no presente que vivemos, é a melhor maneira de abordar um assunto que pessoalmente não adjectivaria assim. Sou alentejano de berço, não sei se há alguma sociologia do suicídio, há dados, pelos vistos, que a justificam. Também devem haver uns quantos que já se suicidaram conscientemente noutras regiões do mundo e ainda respira a sua biologia. Há várias maneiras e lugares para se fazer um nó e pôr uma corda no pescoço. 
E chorar os mortos à alentejana deve ser com cante. Infelizmente já chorei uns quantos e a coisa não me saiu tão gutural...".

quinta-feira, abril 28, 2016

Presentación del libro “Confesiones del apócrifo Cervantes” de Jaime Covarsi (Por Luis Leal – Librería Universitas 28/IV/2016)


“Querido público, en primer lugar me gustaría agradecer su participación en este acto”. Puede que estas palabras parezcan mías pero las podemos encontrar en la página 19 de este libro que tengo delante y que por sí mismo se puede presentar al lector sin la necesidad de mis palabras y, muchísimo menos, de mi presencia. 

Este es el motivo porque tengo que dar las gracias a su autor, Jaime Covarsi, por la confianza en que yo, que poco, o nada, entiendo de Cervantes ni del siglo de oro, le pudiera presentar dignamente este libro en la ciudad de Badajoz. Este es un buen ejemplo de que a Jaime le gusta el riesgo. 

Estoy aquí en la condición de lector, un lector afortunado por haber podido disfrutar de estas 215 páginas del libro “Confesiones del apócrifo Cervantes” que, solo por el título, asegura el rigor narrativo, histórico y filológico con que el autor lo escribió. No me gusta mucho hablar del currículo de la gente, para eso existe linkdin o, en este caso, las solapas biográficas de los libros, pero, como sabéis, Jaime posee una fuerte formación académica en el ámbito de los estudios filológicos y continúa profundizando la misma con innumerables colaboraciones, ponencias y artículos sobre literatura medieval y renacentista. Para todos los que conocemos algo de la rigidez de la academia, llevar estos temas, con peso de canon literario, al terreno de la ficción es algo que conlleva mucho mérito. 

El predominio de la primera persona en este libro en la voz del personaje principal Jaime Sanchís Mata es evidente desde las primeras páginas donde asume su deseo de ir más allá de lo académico y escribir novelas. Estoy seguro de que hay algo del autor, no me arriesgo a decir alter ego porque conozco demasiado bien el arte de fingir lo que de verdad escribimos, en el personaje principal, un académico, conocedor del ambiente de la academia, pero al mismo tiempo un profundo conocedor del mundo real de la literatura, ese mundo ajeno a musas inspiradoras, a la teoría literaria, que es el mundo editorial. Por eso dije anteriormente que este libro se presenta a él mismo. Conoce muy bien el papel que aquí interpreto como presentador de una obra, tiene consciencia honesta y legítima del espíritu del “Negotium” que existe desde que Gutemberg generalizó con su imprenta el acceso de las letras a las masas. “Creo que el texto que nos ofrece la pluma de nuestro catedrático desentraña con maestría los procesos ocultos que intervienen en la creación de una gran obra literaria y su difusión”, esta frase de Jaime Covarsi, trasladada a mis apuntes, ilustra en la perfección lo que antes os mencioné. 

Todos sabemos que hay circunstancias que rodean la creación artística que deben permanecer en el olvido, pero, como dice un escritor portugués amigo mío, “esconder una obra (…) no le añade un gramo de valor artístico. Cuando esa falta de divulgación resulta de una elección, presupone, casi siempre, falta de consideración hacia el público, la creencia de que un público más amplio sería incapaz de entender tamaña sofisticación.”.

“Confesiones del apócrifo Cervantes” tiene el valor de no esconderse del gran público. No es elitista. Sabemos que la mayoría de la gente no tiene idea de estudios filológicos, ni siquiera sabe lo que significa apócrifo (yo mismo creo que lo supe ya en la universidad), no domina los registros lingüísticos cultos abundantes en este libro. Sin embargo, no menosprecia un registro popular lleno de humor dándonos a conocer a “Rafaeh” y “Toñico”, dos místicos horticultores, vestidos de mono mundano y que, personalmente, me hicieron pensar que lo popular y lo culto no pueden estar tan alejados como algunos nos quieren hacer creer. 

Podríamos hablar más de filología y de “haute couture”, como dicen los franceses, pero no creo que sea el lugar indicado y tampoco creo que la obra lo exija. Prefiero hablar de películas. 

Soy un enamorado del cine y, al leer muchos de los párrafos de este libro, me di cuenta de que hay muchas imágenes y horas de buen séptimo arte por detrás de esta narración. Hay episodios en los que el autor no teclea o escribe con su pluma. Graba imágenes a través de sus palabras, su literatura de zoom, flashbacks, paneos, desplazamientos grabados con la mirada al hombro, le dan al libro un sutil tono policiaco que nunca podrá ser negro porque, disculpad mis referencias nada eruditas, “Sevilla tiene un color especial, Sevilla tiene un color diferente”. 

Aprovecho este punto para confesaros que mi ejemplar está lleno de subrayados y anotaciones para, cuando la vida me lo permita, desplazarme a Sevilla, que desafortunadamente conozco de paso, y hacer la ruta literaria de las “Confesiones del apócrifo Cervantes”. Puede que tenga la suerte de cruzarme con algún personaje como el misterioso Gerardo y pasado un par de cervezas deje todo el misterio de lado y se convierta en un amigo. 

Pero hay una pregunta que se impone: ¿Cómo sería si esto no fuera ficción y el apócrifo Cervantes cambiara la historia de la literatura universal para siempre? 

La respuesta está en las entrelineas de esta novela innovadora y tradicional a la vez, de ritmos y registros distintos asumidos por el rigor del autor desde la primera página. Jaime Sanchís Mata es el testigo, en el papel, de la tremenda lucidez del autor sobre cómo el mundo extraliterario influye en la difusión de las letras. Jaime Covarsi, tiene aquí una, o varias declaraciones de intenciones como filólogo y hombre de cultura. Por suerte, nosotros lectores no lo tenemos aquí como académico, pero sí porque es poderosísimo narrador y un escritor con presente sin necesidad de apócrifos en el futuro.

Dez anos de “Senderos de Reflexão”...

Há dez anos, nasceu este blog. O primeiro “post” justificava um pouco o porquê do nome, a sua origem e inspiração, denunciava a ingenuidade de quem passou de um blog individual (ainda mais ingénuo – “with empty hands”) para este que queria coletivo.
Até foi coletivo durante algum tempo. Teve participações de várias pessoas mas afinal, passada uma década, apenas mantém as publicações de dois amigos: O Pedro L. Cuadrado e eu.
Dez anos, apesar de dizermos que passam muito rápido, é muito tempo. Esta década trouxe-nos “senderos” que não podíamos imaginar, caminhos mais fáceis e veredas cheias de mato.
Houve e há tanto para ver, tanto para ouvir, para cheirar, abraçar. Sou grato por estes dez anos em que pude escrever aqui e, esporadicamente, ser lido dentro de tanto que se ignora na vida (e, imagine-se, na blogosfera).
Estes anos deram-me coragem para me assumir como um ser humano que necessita tanto da escrita como necessita dos outros. Como necessito aqui do Pedro, a minha verdadeira pedra basilar nestes “senderos”, ele, amigo, que sempre me faz melhor com a sua presença e conselho.
Se tiver a sorte de aqui poder escrever mais entradas durante os próximos dez anos, espero que o post do vigésimo aniversário seja também de gratidão, essa gratidão que é um dos principais vocábulos deste percurso editorial na internet.
Para ilustrar esta entrada, recorro a Jiro Taniguchi, como há dez anos atrás, com o “Homem que Caminha”. Hoje posso ilustrá-lo também com “O Diário do Meu Pai”, algo que não poderia imaginar, mas aí está alguma desde magia de caminhar…
Continuemos a fazer o caminho a andar.

terça-feira, abril 26, 2016

Presentación de "Confesiones del apócrifo Cervantes" de Jaime Covarsí

Es un gran riesgo que mi amigo Jaime Covarsí Carbonero asume al tener a un discípulo de Camões presentando su “Confesiones del apócrifo Cervantes”. Uno era tuerto, el otro manco y nosotros también tenemos un par de lesiones pero allí estaremos hablando buena literatura./ É um grande risco que o meu amigo Jaime Covarsi assume ao ter um discípulo de Camões a falar do seu  “Confesiones  del apócrifo Cervantes”. Um era zarolho, o outro maneta e nós também temos umas quantas lesões mas ali estaremos a falar de boa literatura. (20:00 en Librería Universitas, Badajoz)

segunda-feira, abril 25, 2016

¿Cuántas personas fecharon una nueva era en sus vidas a partir de la lectura de um libro? Thoreau

"¿Cuántas personas fecharon una nueva era en sus vidas a partir de la lectura de um libro? Posiblemente, el libro es para nosotros lo que explicará nuestros milagros y revelará milagros nuevos. Podemos encontrar en algún lugar las cosas que en el presente son inexpresables." Henry David Thoreau

Era o meu Fernando José, o meu afilhado. (in "nós-otros")

Durante anos, este fora um dos dias mais celebrados e bonitos da minha vida. À porta de Maio, ia pela mão dos meus pais, lá a cima, à praça da minha cidade onde, à meia-noite, passos coletivos na gravilha do tempo nos levavam a cantar uma terra de fraternidade sonhada pela geração que me educou.

Mantive sempre o hábito de ir cantar a liberdade que aprendera, até a minha vida se assumir do outro lado da fronteira, onde, este dia de Abril, não é uma efeméride para a hispanidade.

A necessidade de uma canção, de uma utopia (talvez vestígios duma saudade herdada por circunstância), impôs-se de tal maneira que decidi agarrar no carro e ir até Portugal fazer o que quer que fosse. Castelo de Vide era perto e não hesitei em seguir o que a memória tinha lido, no final da adolescência, sobre um nobre militar no livro “Um Homem da Liberdade” de António de Sousa Duarte.

De Valencia de Alcántara a Castelo de Vide, seja qual for a estação do ano, todos os quilómetros são belos. Sabemos que existe uma fronteira mas só a vemos se quisermos.

A frugalidade, robusta de motor, do meu velho Clio, sentia-se bem na solidão daqueles freixos pintados à sombra de Marvão. Conduzir por ali faz-nos ser parte da paisagem. Ainda hoje sei que vagueia qualquer coisa de mim por aquelas bandas.

Castelo de Vide mantém frescura e mata a sede ao calor do Alentejo. Sabe receber e não é preciso averiguar a sua tradição judia para sentirmo-nos bem-vindos. Estacionei nas imediações da fonte do Montorinho. Fazia um calor intermédio, pouco vulgar destas estações esquecidas pelos extremismos das alterações climáticas. Os sapatos eram confortáveis, mas o pé ainda coxeava, recém-liberto das muletas, fruto de uma queda que me levou o tornozelo direito diretamente à sala de operações. Doía-me estar de pé e, para aquecer a rigidez da articulação, caminhei até um quiosque no qual comprei uma revista. Aproveitei para ter certeza onde era o cemitério.

- Vá sempre em frente, passa o jardim e depois de atravessar o parque. Não tem nada que enganar!

Habituado à dor esqueço o sofrimento. Caminhei só. Anónimo, cruzei-me com alunos que não tinham aulas e idosos sem conversa. Escasso de sombra, reparei com agrado que o dia do calendário coincidia com o nome do parque.

Ao lado da entrada do cemitério está uma capela, ao espreitar lá para dentro, lembrei-me do pároco polémico da localidade por causa de umas homilias divulgadas pelos media. Não estava ali por isso, logo eliminei esse recordatório inútil da minha mente.  

Um deserto de gente. Não sendo um cemitério de uma cidade, a vila é suficientemente grande para que a procura duma sepultura exigisse possivelmente mais tempo do que eu dispunha. Adentrei-me mais e, por casualidade, junto a uma torneira a encher um pequeno regador, estava uma senhora cujas roupas, se não eram negras, eram de escuras tonalidades. Dirigi-me a ela com o sol do final da tarde a iluminar-lhe o rosto, rasgado num sorriso reconfirmado pela sintonia das suas rugas.

- Boa tarde minha senhora, desculpe incomodar. Não me sabe dizer onde é que está a campa do capitão?

Se o sorriso já existia, nesse momento confirmou-se feliz.

- Claro que sei. É aqui pertinho. Eu vou lá consigo!

Sem vontade de incomodar, caminhámos lado a lado. Quero recordar que lhe agradeci de imediato a simpatia, no entanto sou incapaz de escrever as palavras, ou o silêncio, que tivemos um para o outro naqueles passos comuns pelo cemitério.

Lá de cima, acredito que Senhora da Penha nos observou devota desta região e da sua gente.

Em frente da simplicidade de uma campa rasa, com cravos ainda frescos, emocionei-me com as inscrições “Ao Tenente-Coronel Salgueiro Maia (…) Conquistador do sonho inconquistado / Havia em ti o herói que não se integra”.

- Foi um grande homem. – Disse-o com o orgulho de um filho de um ferroviário que homenageia a biografia de outro filho de um ferroviário.

Desaparecia a tarde de um dia 25 Abril. O meu 25 de Abril. Tinha 26 anos e, ao meu lado, a generosidade de uma senhora (a qual jamais esquecerei) confirmou-me que Abril em mim será sempre um pequeno milagre de bondade e altruísmo que todo o homem comum leva dentro.

- Eu sei. Era o meu Fernando José, o meu afilhado.

Nota: Fernando José Salgueiro Maia perdeu a sua mãe, Francisca Silvério Salgueiro, num acidente de trânsito em Lisboa. Tinha 4 anos. O seu pai voltou a casar, dois anos mais tarde, com Maria Augusta Salgueiro, a quem Fernando José ao longo da vida tratou por madrinha. À D. Maria Augusta dedico esta crónica.

Foto de Fernando José Salgueiro Maia com 8 anos (in “Salgueiro Maia – Um Homem da Liberdade” de António de Sousa Duarte).


sábado, abril 23, 2016

Se a literatura universal comemora as mortes de Cervantes e Shakespeare...

Se a literatura universal comemora as mortes de Cervantes e Shakespeare, nós celebramos a vida do nosso segundo filho nascido há um ano. Os “direitos de autor” da capa são da sua mãe e meus, mas do conteúdo do que se escreverá são seus. Enganar-nos-emos muito cheios de boas intenções. (A foto é da autoria do seu irmão mais velho, de 5 anos, a iniciar-se no mundo da fotografia com uma velha câmara digital lá de casa.) 

Si la literatura universal conmemora las muertes de Cervantes y de Shakespeare, nosotros celebramos la vida de nuestro segundo hijo nacido hace un año. Los “derechos de autor” de la portada son de su madre y míos pero del contenido que se escribirá son suyos. Nos equivocaremos mucho llenos de buenas intenciones. (La foto es de la autoría de su hermano mayor, de 5 años, iniciándose en el mundo de la fotografía con una vieja camera digital que tenemos por casa).

Porque é que estamos destinados a não estar? Porque é a única forma de termos consciência de aproveitar o por aqui passar.

sábado, abril 16, 2016

"Sinto dores concretas pelas horas em que não vi os meus filhos crescer" José Luís Peixoto

Onésimo Teotónio de Almeida (sobre Portugal)

"O escárnio e o maldizer entre nós são virtudes que vêm de longe. Quem toma uma atitude positiva, elogiando, acreditando na possibilidade de se alterar o estado de coisas é imediatamente apodado de ingénuo, pateta ou de simplesmente fazê-lo levado por ter interesses escondidos. Sei que estou a simplificar em demasia, no entanto creio que poderia encher umas quantas páginas a dar exemplos concretos de experiências em que me apoio para estas generalizações."

quinta-feira, abril 14, 2016

Día de la República

Espanha também é o meu país. Assumo-o como assumo o berço em Portugal, a língua mamada o português e a paisagem contínua do Alentejo a entrar pela Extremadura (porque nunca deixarão de ser a Lusitânia). 

A monarquia não a assumo. Mesmo reconhecendo mérito intelectual e figura de estado a Felipe VI, jamais poderei aceitar a hereditariedade como condição de acesso ao cargo que seja. Nem que fosse descendente directo de D. Miguel de Cervantes! 

Será que algum dia verei a minha querida Espanha republicana? Será que algum dia a monarquia aperceber-se-á do seu anacronismo ridículo no seio dos cidadania? 

(Como se isso lhes importasse!).

Quem sabe o que é que vais escrever antes de te deitares daqui a uns quantos anos? 

Pensamentos monárquicos? Não me parece... 

Vou adormecer com o sonho de amanhã acordar numa república. 

(Agora vêm os duendes e trasladam-me a cama para território português... Acordo e vejo: "Olhó Sou Professor Marcelo! Afilhado do Sr. Presidente do Conselho! - Pelo menos não era rei!).

Cool

Steve McQueen in "The Great Escape".

Escrever é uma necessidade à qual nos prostramos como seres marrecos que somos.

quarta-feira, abril 13, 2016

Colaboração no "Especial Tradução" da revista "nós-otros" nº5

Ao conhecer alguém, quase sempre, bastam-me uns escassos momentos para saber que se trata duma pessoa especial. Felizmente, no ano passado, em Salamanca, tive o privilégio de conhecer a professora Concha. A sua discrição não faz jus à sua simpatia, dinamismo e talento, que todos podemos ver no carinho, dedicação e profissionalismo posto na revista “Nós-otros” (que, desde já, vos convido vivamente a ler).
Poder dissertar sobre tradução a seu convite, com o privilégio de escrever na mesma edição dum escritor que tanto aprecio como o João de Melo, foi um desafio aceite com prazer e que se traduziu em “Ser o outro (sendo nós próprios em silêncio)”, um pseudo ensaio sobre o acto de traduzir.

Muito obrigado Concha. Muito obrigada toda a equipa da “Nós-otros”, da EOI de Valladolid e das Universidades Seniores Eugénio de Andrade e Contemporânea. 

terça-feira, abril 12, 2016

Estado febril

Onde é que encontramos a nossa verdadeira personalidade? Há apenas uma ou a nossa personalidade é um somatório de filtros com que nos apresentamos aos outros? 

Sabe-se que a nossa personalidade(s) é dinâmica, se adapta resiliente às cicatrizes impostas à externalidade da vida e que, se há alguma raíz do pensamento moldado, remete-nos quase sempre para a primeira infância. 

Ontem fui atacado por uma gastroenterite. Fui o último a sucumbir as defesas, patriotas dum corpo sem fado, cá em casa. Porém, não houve muralha gloriosa de glóbulos brancos que impedisse o fado do Gregório, febre e dores no corpo que teimam em enfatizar-se, sei lá porquê, nos meus antebraços. 
Foi nesse estado febril de tantos filtros encontrados à pessoa que sou que decidi guardar em palavras esse estado. 

Não sei como, pois que saiba ainda não temos o nosso ADN ligado com WiFi à internet, mandei de cabeça tantos e-mails e mensagens sem critério numa ADSL febril de banda larga de verdadeira estupidez que o sentimento de descontrolo me deu suores frios. 

Tecnicamente, esta ligação biológica à rede far-se-á já amanhã. Seremos capazes de dominar os verdadeiros Estados febris que só com um somatório de filtros se tornam essência? Ver-se-á a impotência biológica face ao tempo? A libido reptiliana sem moral num instante com pegadas de dinossauros de milhões de anos? 

O paracetamol, e findo o período de incubação do vírus gripal, aliviou-me os síntomas más não me tirou o medo do descontrolado, sem filtros que levo dentro, e que não sou eu e que não somos nós.
 
Refugio-me num canto distante dum continente febril que trata pessoas como vírus. Barra-lhe a entrada a garrote. À porta desse corpo, em contacto com a sua pele, gangrena gente, futuros febris sem filtros. Apodrecida a corda atada em garrote não há refugio do eu nem do nós. Somos o outro gangrenado. 

domingo, abril 10, 2016

É velho mas está pago

"É velho mas está pago" é um provérbio que ilustra muitas traseiras descaídas do parque automóvel português. Já o tinha visto várias vezes, talvez até o tenha usado em algum momento dado, porém ontem estive alguns minutos a conduzir o nosso carro do dia a dia (curiosamente com 22 anos) atrás dum velhinho mas cuidado Renault Clio. 

A traseira proverbial do carro idoso contrastava com a paisagem de publicidade estimulante à novidade bem paga do último momento. 

Enquanto uns fazem créditos de viverem acima das suas possibilidades (dizem-nos os que nos vendem as financiações a 100% com os juros escritos com letra pequena para não nos incomodarem), outros protegem-se do sol com um chapéu do Panamá. 

Somos assim de "Panamá Hassholes"...

O pior inimigo do coração bom é a mente ociosa.

sexta-feira, abril 08, 2016

O sabor a Bisonte do Wisconsin na boca

Não sou do tipo de grandes experiências gastronómicas. Gozam comigo a dizer que sou de tripa fraca e têm razão. A minha mulher é a primeira que me atira esse pouco atrevimento à cara quando inova pratos caseiros com aquele paladar atribuido apenas pelos seus temperos.
Na semana passada, tive a sorte de conhecer um grupo de pessoas do estado norteamericano do Wisconsin, da localidade de Ashland. Falei-lhe da nossa cultura transfronteiriça, de Espanha e, ainda mais, de Portugal. Pude falar de "wrestling" (a nossa greco-romana), de viagens no outro lado do mundo, de paisagens de sonho, do Bob Dylan e, inevitavelmente, do Donald Trump.
A ideia estereótipada dum povo tem-se graças a exemplos dum colectivo. Tem tanto de verdade como de injustiça para tantos que dessa verdade deveriam de ser excluídos.
Esta gente podiam,  na sua maioria, não prestar muita atenção à nossa história, talvez a única coisa decente que a Europa agora pode dar ao resto do mundo, mas levaram  um pouco do que por aqui vivemos para o Novo Mundo.
Para alguém, como eu, crescido no turbilhão das massas "série B" da indústria cultural americana, poder partilhar um pouco de si com malta da terra do Tio Sam, foi uma excelente experiência.
Antes de voltarem para, a ainda fria, Ashland, obsequiaram-me o desafio de comer um "snack" de carne de bisonte com bagas.
Esta tarde convidei o meu amigo Pedro L. Cuadrado a provar esta carne comigo. Como dois exploradores do inóspito gastronómico, acompanhados pelo tinto, terminámos a última revisão do "Dentro del Secreto" com o sabor forte do bisonte na boca. Esta talvez seja a única coisa de pioneiros que ambos temos... O travo a bisonte na boca.
Agradeço aos meus amigos norteamericanos esta atenção para comigo, espero poder devolvê-la um dia no seu país.
O bisonte já está no meu sistema digestivo e na minha memória fica um conselho por estes amigos dado: "Sê negrito ou itálico, mas nunca normal".

quarta-feira, abril 06, 2016

Seres de uso e consumo

O mundo material só é visto como tal porque o intelecto humano assim o vê. O ser humano é a única espécie que acumula matéria e a converte em bens, que analisa a utilidade da matéria e a usa como moeda de troca. Há um interesse, uma possível utilidade ou, em tantos casos, apenas a necessidade de satisfazer egos. No extremo dessa satisfação encontramos o egoísmo. 

O mesmo se faz com as pessoas convertidas em matéria, em objeto, em interesse de acumular benefícios graças ao que se pode "esmifrar" do outro. 

As relações humanas têm de ter esse equilibrio são no centro das suas relações. Nem a abnegação em prol do outro, nem sentido interesseiro e aproveitador do outro. 

No dia que hoje finda, apercebi-me que há tantos que se aproveitam do pouco que lhes posso dar na esperança de com isso lucrar alguma coisa. Que ingénuos. O que é que se lucra de um gajo como eu? Tempo, honestidade esforçada, lealdade ao que foi e ao que vai sendo, e alguma esperança de que vale a pena tentar marcar a diferença pela positiva. Parece-me que isso não tem valor para o oportunista, mas pode ajudar os seus interesses a reboque. 

Nunca gostei de trabalhar com a sensação de que se estão a aproveitar de mim. Acho que ninguém gosta, mas é o que tenho sentido nos últimos dias. 

A única forma de lidar com esse lado humano, que me desagrada e me faz ter relações mais distantes, é praticar a gratidão de estar vivo. Há que ser grato, mas isso, amigos não é o mesmo que ser parvo.

Alentejo (Cartier-Bresson, 1955)



Mestre  Cartier-Bresson no Alentejo.





terça-feira, abril 05, 2016

Vamos antes a Paris (Olavo d'Eça Leal)




Quem me dera ser simples e vulgar,
Pensar como o vizinho merceeiro...
Juntar no Montepio algum dinheiro
E fazer-me por todos respeitar.

Normal no porte, feio e regular,
Ter casa própria já, com jardineiro...
Vazio de ilusões, e bom caixeiro,
Ensinar o meu filho a continuar...

Assim envelhecer devagarinho,
Perfeitamente parvo, mas feliz,
E certo de seguir por bom caminho.

Dirás, leitor: "a quem você o diz!
Beber também eu queria desse vinho..."
— Não bebas... vamos antes a Paris!

Julho de 1938.


Olavo d'Eça Leal (n. 1908 - m. 1976), in Presença, n.º 53, 1938. Caído no esquecimento, publicou poesia e ficção, fez teatro e cinema, foi artista plástico. Colaborou na revista Contemporânea, tendo o seu nome ficado associado ao movimento presencista por na revista desse grupo ter publicado alguns dos seus versos. Poeta de leitura agradável, praticou versos simples de refinada ironia.



Post publicado originalmente no blogue antologia do esquecimento a 29 de março de 2016.




segunda-feira, abril 04, 2016

O Prazer é Silencioso

Ao contrário da ideia assente 
A palavra não é criadora de um mundo; 
O homem fala como o cão ladra 
Para exprimir raiva, ou medo. 

O prazer é silencioso, 
Tal como o é o estado de felicidade. 

Michel Houellebecq, in "A Possibilidade de uma Ilha" 

sexta-feira, abril 01, 2016

"Tens tanto medo" - Leonora Machado

Pobre e Poeta

Enquanto os turistas se sentavam para tirar uma "selfie" na Brasileira com um Fernando Pessoa gasto de tantos rabos sentados (e citações roubadas) em mesas de café, o Antonio Carrasco e eu fomos confrontados com a pobreza da poetisa que por aí deambulava a vender versos impressos numa A4 sem dinheiro para sobreviver. Vender poesia para comer é tão digno como qualquer outro oficio. Se vivemos numa sociedade em que se vende tudo por que motivo a poesia tem de ser grátis? Vender o intangível, o inútil, a arte feita miséria por condição, os versos desta Leonora têm tanta legitimidade como qualquer outro produto que possamos trocar por dinheiro. 

Como poeta, que não me sei assumir por ter demasiada terra debaixo das unhas, tenho ganho muito uma percepção de mim, e dos outros, desconhecida até há bem pouco tempo. Esse é o valor que tenho tido em troca, dinheiro nem por isso. Pago a poesia que faço com o tempo dedicado à profissão que a academia me permite exercer. Que coragem abordar alguém assim na rua e assumir-se pobre e poeta. Essa coragem merece o meu reconhecimento, o meu apreço estético, o meu agradecimento por me recordar o valor da poesia. É mais fácil que alguém nos recorde o valor dos mercados. 

Aqui transcrevo os versos de Leonora Rosado:

"Tens tanto medo
Da minha sede 
Que abres sulcos 
Na parede 
Do Tempo"

Só pode ser amor (António Zambujo)







terça-feira, março 29, 2016

Sou neto de um analfabeto

Sou neto de um analfabeto. Sou filho de pais pouco letrados. Talvez por estes motivos a leitura se impôs como um escape à minha condição filial, à evasão de uma adolescência numa cidade do interior português, à minha ânsia de encontrar respostas para as perguntas às quais constantemente me inquiro. 

Apesar de tantas vezes ter pensado e valorizado a sorte de não assinar discriminado com o indicador ou o polegar, nunca tinha assistido à mais pura liberdade de juntar sílabas para entender e grafar o pensamento. 

Vejo isso no meu filho. Vejo isso na vontade que tem de aprender a ler para conhecer mais e entender mais o que o rodeia. 

Para tanto conhecimento de academia, por vezes um pouco de nariz empinado, estes bicos dos pés curiosos a espreitarem o mundo, a investigarem apenas com o empirismo sem vícios, têm tanto para nos ensinar e não o podemos encontrar em nenhum artigo científico. 

Eu fico fascinado. Aproveito e, sem que ele note, um dia dir-lhe-ei, continuo a ser o mesmo menino neto de analfabetos. A única diferença entre nós é que junto sílabas e formo palavras com manias de adulto. Ele é um texto livre da pontuação que o tempo me impôs. Mas o tempo também me humildou o suficiente para nunca esquecer que as raízes fortes não necessitam de letras. Necessitam de amor, mesmo que esse amor tenha de assinar com o dedo húmido de tinta numa esponja administrativa selar-se-á para sempre numa infância feliz, sem letras, sem vergonha do seu passado iletrado.

segunda-feira, março 28, 2016

Luz de presença

O meu filho mais velho está a participar numa atividade do seu colégio chamada "Famílias Leitoras"  na qual, para receber um certificado de leitor, tem de cumprir os requisitos de várias leituras livres durante os dias da semana. As suas recentes cinco primavera não lhe permitem ainda ler sílabas sozinho (está no bom caminho, não graças a mim ou à sua mãe,  mas graças à Gracia, a sua professora da atividade de leitura).
Acabei de lhe ler um capítulo do "Comboio das Palavras". Dobrámos a esquina da página com carinho e esperança de amanhã continuarmos. Ficou uma luz de presença no seu quarto que ilumina as suas noites e as noites irregulares do seu irmão mais novo (ainda a aprender a dormir à Stivill).
É a única coisa que lhes posso deixar. Uma luz de presença... (e a esperança).

Robert Doisneau: "Le vélo de Tati". Paris (1949)







(Black Picture)



sexta-feira, março 25, 2016

Bruce Wayne: "Twenty years in Gotham. How many good guys are left? How many stay that way?" (in "Batman vs Superman")

quarta-feira, março 23, 2016

Guerra Civil (Miguel Torga)



Já passou o Dia Mundial da Poesia, anteontem, mas venham agora estes versos de Miguel Torga e os anteriores de Vitorino Nemésio para o recordar



GUERRA CIVIL

É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino.

Miguel Torga




A vida é tempo (Vitorino Nemésio)




A VIDA É TEMPO

Com alma, ideias, tempo, luta
Componho um homem, sou sujeito:
Penso-me livre numa gruta
Como pretérito imperfeito.

De era se faz o meu futuro,
Será será o meu passado
Como da hera se faz o muro
Mais que da pedra levantado.

Se horas a nada levam tudo,
Nada nasceu, tudo é que é,
Haja ou não haja Sartre e o mundo
Deus Tudo-Nada havido em fé.

Que ele é Deus mesmo no absoluto
Ser contestado, tão assente
Que se faz Deus na voz que escuto,
Mesmo que o negue, e me desmente.

Vitorino Nemésio

O Verbo e a Morte, Lisboa, Moraes Editora, 1959, p. 22


(Blogue Folha de Poesia)



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"Com os anos, reconhecemos a felicidade de ter raízes".  Jiro Taniguchi

terça-feira, março 22, 2016

Bélgica, Bruxelas (Sem olhos todos somos cegos e não há rei que nos valha)

Acordo com a notícia dum atentado (dois, apercebi-me à "posteriori") na capital do projeto europeu, Bruxelas.

O medo instalado no mundo já tem metástases por todo os continentes. Recebo uma mensagem de um dos meus melhores amigos, fora do bairro, como eu, desde um país no coração da Europa a dizer-me que ninguém lhe venderá esse medo,  que continuará a viajar e a dizer que o mundo não é tão maluco como os media nos fazem querer ver. Mas o mais importante é que há de continuar a dizer que 99.9% dos muçulmanos são gente de paz. 


Estou com ele, com todas as vitimas e com todos os decentes e justos. Nem todos os muçulmanos são extremistas, como estes bárbaros jihadistas, nem todos os americanos são idiotas como o Trump. 
O terror é querer levar, e vender ao ser humano, ao extremo, ao limite, onde há apenas a miséria das ideias fáceis e impera a lei de Talião. Sem olhos todos somos cegos e não há rei, com um olho, dois, vesgo ou com óculos, que nos valha.

A felicidade é voltares sempre que quiseres...

É dia do pai e todos os escaparates mencionam-o da forma mais visível possível. Não é a primeira vez que escrevo sobre efemérides forçadas no calendário e é mais do mesmo.
Curiosamente, este sábado dia do pai tem sido passado em solidão de folga da responsabilidade da paternidade. Estou num dia de chuva enfiado num centro comercial e escrevo ao lado de um cartaz em forma de guru que me diz "a felicidade está nestas ofertas".
Reconheço que hoje deixei a minha coragem a 250km de distância e não me atrevo a buscar os raios de sol sem guarda-chuva. Espero a consumir. A consumir-me tempo e ideias. Penso que o tempo que gastei a trabalhar, o salário auferido com o sal dos meus dias, vale a pena ser investido num filme infantil, num disco de heavy metal, numa novela gráfica e numa revista semanal. Sou induzido a acreditar que o que trago dentro do saco passará pelo filtro das minhas lentes miopes e dos meus ouvidos cicatrizados por otites de miúdo e me enriquecerá como enriquecem os proprietários destas grandes superficies que me desumanizam com a minha autorização por escrito.
Esse sou eu. Um pai só numa tarde de sábado. Um filho que preferia estar com o seu pai. Um neto ausente da morte lenta do seu avô.
Escrevo sentado num teclado dum telemóvel inteligente e suspeito do segurança a observar-me de costas desconfiadas.
Lá fora espreitam uns raios de sol. Tenho medo. Mas vou sair deste templo em que me ajoelho para pagar o dizimo do meu tempo. Na pior das hipóteses apanharei uma molha. A relação dum homem com a chuva traiçoeira é natural...  Qual será a minha natureza?
Saio da loja e o guru não me deixa ir embora sem a sua sabedoria.
- A felicidade é voltares sempre que quiseres!

Diogo Gerlach



Diogo Gerlach.




sexta-feira, março 18, 2016

Soy un renegado

Sou um renegado

Sou um renegado,
O santo cidadão da mentira,
Um manequim de estuque.

Sou a vossa mente inquieta,
E perturbada,
Sou da terra, a pedra.

Sou a ira do teu Deus feita carne,
Um redemoinho de obsessões obscuras
Estou maldito.

Sou a felicidade perdida
Nas profundezas de um pântano.

Sou o homem que anseia a guerra
Que se penitencia pelas montanhas,

Sou um passeio
Pelo corredor da morte,...


Alejandro Nuñez Viera
in "darkness", José Manuel Méndez

Entre as memórias de um chulo e uma Nobel

Nobel é um estatuto que muitos aspiram negando-o. Chulo é o que é de falso-amigo em português e espanhol. Memória é o que nos faz ser humanos... (foto do bom amigo - e grande gestor de imagem -Adolfo).

a caça

a
vítima
da
mentira
é
a
verdade
fodida
e
distorcida.

Naquele tempo éramos donos... (Emanuel Jorge Botelho)



Naquele tempo éramos donos
das palavras,
não pagávamos tributo ao dicionário.

Naquele tempo fazíamos dos actos
factos,
ignorávamos os agiotas da decência.

Éramos dragões vomitando fogo,
lava,
origem,
trigo e
irreverência.

Éramos libertinos, libertários,
vagabundos
sentados nas sarjetas da
inocência.

Naquele tempo éramos donos
naquele tempo éramos
naquele tempo...

Emanuel Jorge Botelho 


(lido no blogue da luz & da sombra)

quinta-feira, março 17, 2016

Na minha fome mando eu.

Muito se tem falado no dia de hoje duns quantos hooligans adeptos de um clube da liga holandesa e da humilhação a que submeteram os seus semelhantes na "Plaza del Sol". Não percebo porquê tanta indignação dos media, talvez porque o que se passa com os refugiados na Turquia e Grécia não abra telejornais junto com o mediatismo dos golos duma equipa qualquer.
Nunca esperei nada que melhorasse o mundo por parte destas tribos de bárbaros, muito menos quando assumem o seu estatuto acéfalo em massa sob o efeito de álcool e outros estupefacientes.
A falta de recursos, de igualdade e de oportunidades feita miséria, é já, de raíz, opressão e facilmente se lhe soma a humilhação pública.
Para quem não tem nada, dançar e fazer flexões, ser pontapeado, escarrado, etc. é algo sem importância para a sua condição. A miséria já está instalada para além do estômago e não é qualquer espírito que não sucumbe perante tal adversidade de circunstâncias.
Lembro-me de uma história que contava José Luis Sampedro sobre um jornaleiro andaluz cuja condição de miséria não suplantava a tenacidade de espírito ao enfrentar de estômago vazio a imposição do capataz com um digníssimo:
- Na minha fome mando eu!

quarta-feira, março 16, 2016

A apresentação do [33] vista pelo amigo José Kuski Vieira

A espontaneidade é a honestidade dos artistas. Sorte de quem merece a sua arte em forma de generosidade.

O mundo pequenino...

Educamos da forma que pensamos ser a mais honesta e adequada ao nossos valores, tentando que sejam de igualdade e generosidade. O mundo é tão pequenino que a única coisa que podemos fazer é deixá-lo crescer com alguma fé na bondade do ser humano. É difícil, mas eles merecem que continuemos a acreditar na Utopia, principalmente nesta Europa, velha e estéril, tão longe de se refugiar no humanismo da sua história.  

Encuentro mi originalidad en palabras usadas que se convierten en versos de segunda mano. La literatura siempre será reciclaje indiferente a colores y contenedores.

"Mantém sempre a tua cara ao sol e as sombras cairão para trás de ti." Whalt Whitman


terça-feira, março 15, 2016

Walt Whitman (Rubén Darío)

III
Walt Whitman

NO seu país de ferro vive o grande velho,
belo como um patriarca, sereno e santo.
Tem na ruga olímpica da sua glabela
algo que impera e vence com nobre encanto.

       A sua alma do infinito parece espelho;
são os seus cansados ombros dignos do manto;
e com a harpa lavrada de um carvalho contíguo
como um profeta novo canta o seu canto.

       Sacerdote, que alenta sopro divino
anuncia no futuro, tempo melhor.
Diz à águia: «Voa!; «Rema!», ao marinheiro,

       e «Trabalha!», ao robusto trabalhador.
Assim vai esse soberbo poeta pelo seu caminho
com seu soberbo rosto de imperador!

       [1890]

[Trad. Luis Leal]




segunda-feira, março 14, 2016

A UM POETA (Rubén Darío)

NADA mais triste que um titã que chora,
homem-montanha agrilhoado a um lírio,
que geme, forte, que pujante implora:
vítima própria no seu fatal martírio.
Hércules louco que aos pés de Onfália
a porra deixa e o lutar recusa,
herói que calça feminil sandália,
vate que esquece a vibrante musa.
Quem irritou os robustos leões,
fiando, escravo, com a frágil roca;
sem trabalho, sem estímulo, sem acções:
punhos de ferro e áspero pulso!
  Não é poeta para pisar tapetes
por onde triunfam femininas danças:
que vibre raios para ferir as sombras,
que escreva versos que pareçam lanças.
Relampejando a soberba estrofe,
o seu sulco deixe resplandecente lume,
e o pântano do escândalo e da troça
que não o veja a águia no seu cume.
Bravo soldado com o seu elmo de ouro
lance o dardo que queima e desgarra,
que invista rude como investe o touro,
que crave firme como o leão a garra.
Cante valente e ao cantar trabalhe;
que ofereça carvalhos se se julga bosque
que a sua ideia no mal irrompa e desbrave
como na selva virgem o bisonte.
Que o que diga a inspirada boca
soe no povo com palavra estranha;
ruído de ondulação a açoitar a rocha,
voz de caverna e sopro de montanha.
Deixe o Sansão da Dalila o regaço:
Dalila engana e corta os cabelos.
Não perca o forte o raio do seu braço
por ser escravo de uns olhos belos.

[Maio, 1890]

[Trad. Luis Leal]