Autor não indicado.
segunda-feira, setembro 12, 2016
Natação sincronizada
domingo, setembro 11, 2016
sábado, setembro 10, 2016
sexta-feira, setembro 09, 2016
Praia do Vau 08.09.16
quarta-feira, setembro 07, 2016
Fronteira a arder
Vincent Hawkins
terça-feira, setembro 06, 2016
É melhor aprenderes a voar com a galinha do que com a águia. A galinha nunca vai deixar de sonhar com o voo completo, sempre com os pés bem assentes na terra para o impulso. A águia adquiriu o estatuto no ninho e altiva orgulha-se de não necessitar da terra para nada, até descobrir que não há voos intermináveis.
Noite tropical...
segunda-feira, setembro 05, 2016
"Arthur Bispo do Rosario" - Eduardo Galeano
Eduardo Galeano
domingo, setembro 04, 2016
"Uma esquina de estima, uma montra de reconhecimento" - in Livraria Nazareth (Évora, 03.09.16)
Miguel Torga foi tão do Alentejo quanto transmontano de berço. Évora não lhe foi indiferente e podemos encontrar a cidade museu em vários fragmentos da sua obra, especialmente em várias entradas dos seus diários.
Ontem, a caminhar pelas ruas das minhas raízes, encontrei esta montra de reconhecimento, esta esquina de estima...
quarta-feira, agosto 31, 2016
O meu pai movia-se entre nós - e.e. cummings
O meu pai movia-se entre nós,
cantando cada nova folha saída de cada árvore
(e cada criança tinha a certeza de que a Primavera
dançava quando ouvia o meu pai a cantar).
terça-feira, agosto 30, 2016
segunda-feira, agosto 29, 2016
Presumível
sorriso
um aviso
uma acção
do passado
talvez o culpado
desta condição.
factos justificados
perante o grande júri.
advogam-se as causas
à luz que deve iluminar
a processo
dentro da lei
dos homens a legislarem a natureza
a evitarem cumplicidades
associações desconsideradas
criminosas
não admite
em confessa
ser
presumível
autor.
que o julgue o tempo
quando este deixar de ser arguido
da sua própria existência.
A piscina na estrada...
sexta-feira, agosto 26, 2016
Não te basta já a dor de cabeça de seres de carne e osso?
quinta-feira, agosto 25, 2016
terça-feira, agosto 23, 2016
Portagem, 23/VIII/2016
Depois de Castelo de Vide, depois da bela e estreita estrada com árvores de tronco vestido de branco, chegámos à Portagem. Refrescámo-nos na companhia de bons amigos (para variar abusaram no preço do almoço graças ao nosso ar e companhia de estrangeiros) e fomos o que há anos somos. O Luis, o José, a Pepi, iguais aos anos que passam, fiéis ao afecto, com filhos e com a cumplicidade da Elsa, da Camino e do Rafa. Faltavam o José Manuel e a Maite fisicamente.
À volta, depois de uns mergulhos anti-inflamatórios e de umas conversas à beira do Sever, conduzi feliz em direção a casa.
Gosto de estar assim, acompanhado, rodeado por gente que não se julga, que apenas é o que é. Consola-me saber isso e ser eu, sem máscara, sem filtro social que não seja o da estima e da amizade. O que é que seria do Dom Quixote sem o seu fiel escudeiro (amigo que era o que era) Sancho Pança? Seria apenas mais um cavaleiro de triste figura. Ao homem incapaz de ser amigo por assim o dever ser, acontece exactamente o mesmo. É um triste homem...
segunda-feira, agosto 22, 2016
Estivemos todo o dia em casa. O agosto remata o final dos seus dias com um calor que só à sombra permite a existência, ou à noite, porque também é amigo da insónia.
Não é fácil entreter duas crianças, uma delas um bebé de um ano, nestas circunstâncias. Há que ter paciência. Têm de aprender a abrigar-se do frio como também do sol que nos marca com raios UV.
Onde vivemos, o frio é passageiro e quase sempre provoca-me saudades. O sul, esse que no mapa também se marca com cores quentes.
O vento é emulado por uma coluna de ar artificial, uma ventoinha que trabalha noite e dia dois a três meses por ano. O seu ruído é mecânico, tão diferente da sínfonia do vento que anunciará em breve o outono.
Não páro de pensar. Não sou capaz de adormecer sem antes fazer ou conjugar algum verbo da segunda conjugação, regular ou irregular, só para rimar. Ler, escrever, por exemplo, para não entrar em mais detalhes.
Hoje li pouco. Uns artigos sobre o Bordalo Pinheiro do Zé Povinho, um documento sobre a guerra civil espanhola e uma entradas num diário alheio. Mas o que levo para a cama é um pensamento preocupante de como os extremismos, neste caso particular o ISIS, recrutam fiéis logo na primeira infância a troco de umas guloseimas, de umas promessas divinas, ofensivas para qualquer deus decente, de serem "as crias" do profeta. É tão fácil doutrinar para que explodam em nome da cobardia humana...
Fecho os olhos em oração a um qualquer deus decente e rogo-lhe que interceda por estas crianças. Tenho fé não sei bem no quê, se em deus ou num resto de decência humana.
As Pontes (Acetre)
Sobre o disco de Acetre a que pertence "As pontes", Arquitecturas rayanas, podemos ler o seguinte na página musicaflok.es :
"As Pontes fue el primer single que el grupo extremeño Acetre lanzó, como adelanto a su álbum Arquitecturas Rayanas. También fue el primer videoclip que realizaron, con impecable resultado, como podéis ver tras el salto. Rodado en Badajoz, el tema habla de los puentes físicos tendidos a ambos lados del Guadiana a su paso por la ciudad."
AS PONTES
Blanca es la paloma
Que aquí se posó
Bella como el alba
Cuando sale el sol
Ó minha pombinha branca
Vem depressa ao meu quintal
Salpicadinha d’amores
Pra ver meu amor chegar
Claveles en mayo
Rosas en abril
Mi amante se peina
Junto al toronjil
Ausente de ti, meu bem
Sempre estou a suspirar;
Esta paixão do meu peito
Já não a posso olvidar
Pequeña es la dama,
Pequeña y hermosa
Y reparte amores
Como hojas de rosa
A rosa depois de seca
Foi-se queixar ao jardim,
O jardinheiro lhe disse
Tudo no mundo tem fim
Abanicos verdes
Lleva la pastora
y guarda el ganado
mientras me enamora
Pastora, boca de cravo
Cintura de capitão
Cadeado do meu peito
Chave do meu coração
Cuando en ti pienso
Renace mi amor,
Donde prendió el fuego
Ceniza quedó
Ó minha pombinha branca
Vem depressa ao meu jardim
salpicadinha de flores
Pra ver meu amor partir
Quando os meus olhos te viram
Meu coração se alegrou
Na cadeia dos teus braços
Minha alma presa ficou.
sexta-feira, agosto 19, 2016
Sísifo de rede ovelheira
quarta-feira, agosto 17, 2016
Victor "Young" Perez
nunca deixou o teu coração ser francês.
Os teus punhos foram nacionalizados
mas tu nunca foste um protectorado de Vichy.
Obrigaram-te a levar a estrela
a ti a verdadeira estrela
o mais jovem campeão
do mundo
e de David.
O quadrilátero era de arame farpado
e o árbitro mais que comprado.
Com fome e sem sentires o jogo das tuas pernas
voaste pelo fumo das chaminés do crematório
a escorreres sangue de campeão,
verdadeiro, sem raça,
sem pureza que só existe
em farsas
e ideologias
que para a história
não foram mais que sofrimento
derramado em hemorragia.
A tua guarda debilitada
pela guarda de um campo de concentração
não te desconcentrou
nem pôde a humilhação
desleal doutra categoria de peso
fazer frente ao peso da alma.
Há quem afirme que o peso da alma são 21 gramas,
se assim é foram as tuas gramas
que se imposeram à tonelagem de crueldade
e fizeram do teu voo
um combate para a eternidade.
O sol em Janeiro na Polónia não se vê. Foi difícil marchar de pés sangrentos
para voltar à beira-mar do mediterrâneo.
Oportunista, como bom pugilista, encontraste um aberta na guarda da morte
e esquivaste o esquecimento.
Bastava-te um momento
mas uma bala fez-te ir ao tapete
antes de tempo.
Rua da Cal Branca
Como qualquer superfície de mármore, era preciso ter cuidado para não se escorregar. Mas sempre os sentidos se alegravam por ali passarem.
Optava por lavar todas as escadas de joelhos. Do rés-do-chão ao segundo andar, a senhora da limpeza, de quem nunca soube o nome, era tal qual a sua mãe que anos antes lavara a mesma escadaria na mesma incomodidade de genuflexão mas deixando como herança o brio e o hábito do esfregão e do sabão azul.
Hoje escorreguei na brancura do mármore desta lembrança da Rua da Cal Branca. Escorregámos. Nunca subi essa escada sozinho porque lá em cima alguém me esperava sem necessidade de avisar.
A senhora já me conhecia, o plátano lá fora também. Fazia questão de me receber com o acto cerimonioso de interromper o seu labor para que passasse e não escorregasse na humildade da sua existência. Creio que assim o pensava.
Eu não. A gratidão que tenho pelo seu gesto é presente como tento pisar com cuidado e reconhecimento o trabalho prévio dos outros. O sorriso é o do jovem apaixonado já então lhe reconhecia o mesmo azul dos olhos e longo cabelo da sua princesa.
Hoje as escadas da Rua da Cal Branca voltaram a ser subidas a vários anos e quilómetros de distância. Lá estava a senhora de joelhos a lavar com sabão azul o mármore dos nossos passos.
Cumprimentámo-la e fomos cumprimentados como se ontem por lá tivéssemos passado. Ela olhou-nos e soube que a sua dignidade ia ali connosco. A da sua mãe também. No nosso caminhar há a brancura do seu esforço, agora o nosso esforço.
terça-feira, agosto 16, 2016
Aos que cá estão e aos que não
Em criança, se queria chorar, bastava-me pensar na morte dos meus avós. Não era que o pensamento do fim dos meus progenitores não me afetasse, sempre me deram a ilusória segurança que ali estariam, essa ideia de perenidade desactivava o melodrama. Também era criança e era bem enganado, algo que a cronologia da idade dos meus avós não me permitia estar tão seguro da igual condição mais jovem dos meus pais.
Mas o peso da ideia de fim não abandonou essa criança. No quarto ao lado dormem outras duas às quais sou incapaz de prometer céus e outros mundos. Não lhe mostro que também eu tenho as mesmas dúvidas e medos multiplicados pelo anos que vou vivendo e pelas filosofias que vou descartando.
Ganhar só existe porque se contrapõe ao perder, sabemo-lo demasiado bem. Ganhei mais um dia, mais uma entrada neste diário sem leitores, a memória dos meus avós não me faz chorar, todo o contrário, lembra-me de cuidar, estar lá, para os que de mim dependem. Ser ainda esse menino, assumir o seu medo, é a maior prova de amor que lhes posso dar. Aos que cá estão e aos que não.
sábado, agosto 13, 2016
quinta-feira, agosto 11, 2016
Árvore da infância
quarta-feira, agosto 10, 2016
Cantares que fazem pontes – Luis Leal (Revista "Mais Alentejo" nº134)
Leiria. Vida comercial. Shopping Center.
Foz do Arelho
Leiria, 6/VIII/2016
terça-feira, agosto 02, 2016
Praticar. O verbo consciente.
Portado de Verão
O portado é a parte mais importante de uma casa no Alentejo. Depois, imediatamente, vem a fachada caiada a branco e com um rodapé creme ou azul.
É o portado porque, além de apoiar o pé nas boas-vindas caseiras, apoia o traseiro num contemplar de fim de tarde veraneio em que todo o dia nos pediu sombra e fresco.
Se o serão se assume simpático, vai-se lá dentro buscar uma cadeira de praia e fica-se na conversa com as vizinhas da rua. Vêem-se as crianças a brincar aos jogos sem fronteiras, fala-se sobre a última contratação do Benfica, do gazpacho do almoço e dos restos que se aproveitam para a refeição ou dia seguinte.
O Alentejo é o portado de Portugal. Há portados por outras regiões e países fora que, tal como no Alentejo, se estão a perder.
Os portados estão em vias de extinção, morrem de velhos e não se renovam. Fecham-se em casa. O convite ao diálogo, à circunstância passageira ou à autorização de entrar-se no lar de cada um, evoluiu para uma timidez física extrovertida no meio digital. As redes sociais de conversa de cadeira de praia ao serão Alentejano são cada vez mais escassas mas um autêntico prazer quando as encontras.
Ontem lembrei-me como gostava de apanhar fresco na rua, no pátio, nessas esplanadas de vontade de ar menos abafado do que em casa, ao ver os meus filhos brincarem em Vale do Pereiro, na aldeia da minha família.
Ainda se ouvia a música do último dia da festa e comia-se com a porta aberta aos que na rua passavam. Os miúdos tomavam banho no tanque e brincavam a varrer a casa.
Sentei-me no portado a falar com o Jorge. As cadeiras sairam à rua e começaram a falar umas com as outras.
Em amena cavaqueira, tive de as abandonar, sentar-me ao volante dum carro que retirou os meus filhos da brincadeira de rua e voltar para o lado de dentro do portado, onde me escondo. Aqui onde vivo, já não sou o mesmo menino do bairro. Para ser fiel aos meus, tenho de me esconder ou passar a ser o portado.
segunda-feira, agosto 01, 2016
sábado, julho 30, 2016
Se é caso disso, levem-me lá para trás e...
Posso ver com os meus olhos realidades que nunca imaginei ver. Tenho trabalho. Tenho saúde. Tenho mulher e filhos comigo igualmente bem de saúde. Alguma família e amigos fundamentais. Tenho uma almofada que dorme tranquila e que está à minha espera.
Por tudo isto, se alguém me ouve a queixar-me, por favor, levem-me lá para trás e espetem-me um tiro nos cornos...
sexta-feira, julho 29, 2016
quinta-feira, julho 28, 2016
quarta-feira, julho 27, 2016
Alguma vez seremos melhor do que isto?
Hoje estive no "Imperial War Museum" de Manchester. Ontem, e nos dias e semanas anteriores, falaram-nos de guerras religiosas, mata-se em prol do Islão, e não só, portanto o terror faz parte do discurso dominante. O Papa Francisco não cai nesse argumento simplista e já veio dizer que não há nenhuma guerra de religiões mas sim de interesses, poder e de recursos. Gosto deste gajo. Depois de tanto tempo, já não desconfio da sua figura apesar de continuar a criticar parte da instituição que representa.
Do outro lado do Atlântico, o Trump está à frente da Hillary nas sondagens e o Obama diz que a Rússia tem muito a ganhar com um idiota assim na Casa Branca. Reminiscências da guerra fria?
Neste museu não senti apologias bélicas ou pacifistas. Há uma cobertura única sobre o conflicto, desde a Primeira Guerra Mundial até ao presente, um estudo e entendimento da história da guerra moderna e do que é vivê-la como soldado, vítima, refugiado, dano colateral ou viver o pós-guerra. Trouxe um postal que quero pôr bem visível em casa. Lembrei-me de Sun Tsu. "Em tempo de paz não esqueças a guerra, em tempo de guerra não esqueças a paz". Não tenho boa memória para os "ipsis verbis" porém essa é a ideia.
No centro daquele edifício moderno, com o meu filho mais novo a berrar de teimosia, de birra de saturação de carrinho e de horas de autocarro, algo tão diferente do choro sincronizado com o zumbido e explosão posterior de bombas, tentei acalmá-lo consolando-o no meu colo. Sei que esta paz é ilusória. Temo por eles, por o mundo que se consome a si mesmo e temo que sejamos tão estúpidos para entregarmos os "Red Bottons" a quem nem sequer deveria de ter acesso a uma pistola de água.
Cresci filho duma guerra sem razão onde ia morrer obrigado o povo humilde, manipulado e sem recursos, português. Não conheço a guerra como vítima ou combatente, mas conheço bem o conceito e a história detrás desse conceito.
Sem ilusões mas sem duvidar de existir esperança, pergunto-me:
- "Alguma vez seremos melhor do que isto?"
terça-feira, julho 26, 2016
Notas processadas
Escrevo estas notas feitas diário quase sempre antes de me deitar. Fecho o dia com o inventário do que vivi e como o senti.
Estou em Inglaterra há uns dias, em Stockport, mais precisamente em Brinnington, uma das localidades periféricas mais pobres da grande Manchester. Estamos em casa da nossa "família africana", como já aqui escrevi numa entrada anterior, aquela que ganhei graças à minha mulher. Estou grato por isso.
Todos os dias nos deslocamos nos transportes públicos, de autocarro suburbano, para os passeios que damos por esta região que foi o berço da revolução industrial. Fazemos esse turismo ao lado de quem trabalha, sem pretensões de grandes atrações, mas com a certeza que sabemos e valorizamos o seu dia-a-dia que lhes põe pão na mesa.
Inglaterra é uma realidade social tão diferente da peninsular, apesar de todos os templos do consumo nos remeterem para a igualdade do ser em massas, global e tendencialmente acrítica, que não me atrevo a analizá-la. Escrevo aqui o que vi. Enumero sem nenhum rigor na ordem.
1- Há uma maioria de ingleses amparados pelo estado social. Dão nas vistas tal como alguns emigrantes que entendem e usufruem do sistema.
2- Os emigrantes são o motor da economia com trabalhos precários, ausentes de contratos laborais, mas no activo como população.
3- O poder político está totalmente afastado de aglomerados de prédios, periferias convertidas em burgos para dormidas de quem trabalha na grande cidade ou parasita porque lhes é permitido por esse poder para que se possa perpetuar ao comando do país.
4- Há videovigilância por todo o lado. O Orwell já o vaticinara na história da literatura deste país mas como um "big brother" totalitário. Aqui há totalitarismo misturado com paternalismo estatal. Atira-lhe umas migalhas que o povo abdica de tudo, da sua educação, da sua liberdade, da sua dignidade.
5- Nunca vi em tão pouco tempo e espaço tanta obesidade. Cresci a associar a gordura a quem tudo come e nada deixa para os outros. O menino rico com acesso aos chocolates e guloseimas lá do bairro há 30 anos atrás vai ao ginásio, come produtos naturais e tem nutricionista. O pobre apodrece no excesso fácil da nutrição rápida, processada para massas e aumenta o lastro que lhe solda as articulações e nunca conseguirá subir os degraus sociais.
5- Escrevo em Inglaterra, estou aqui por casualidade e atrevo-me a tirar conclusões que tiraria no bairro mais pobre da cidade onde vivo, mas o impacto visual influencia o que aqui redijo.
Há perversão nestes guetos. Do ser humano. Não há só oprimidos ou opressores. Há miséria de espírito e há muitos anos sei que este tipo de miséria não tem classe social. Uno-me a essa miséria, não a desprezo, rezo apenas para que estas palavras rápidas nutram alguém a ter consciência do que se é, do que se pode ser e do que o colectivo quer que sejamos. Sem moral processada como a comida que trago na mochila.
sábado, julho 23, 2016
sexta-feira, julho 22, 2016
Poder fazer parte do dia-a-dia de quem emigra para ganhar o pão, nem que seja por uma semana, noutro país que não seja Espanha, é um privilégio do qual me sinto profundamente merecedor.
Em 24 horas pisei três países diferentes e falei três línguas diferentes. É inevitável fazer comparações, mas também é inevitável saber que fazer comparações quase sempre é perder tempo. Prefiro observar.
Espanha, Portugal e Inglaterra. Essa tríade com vértices em afectos como os que temos pela Deu e pelo Márcio, a nossa família africana, aquela que a minha mulher ganhou e nos deu para a vida.
Adormeço em Manchester, mais precisamente nos arredores de Rockport, e sei que estar aqui é algo tão necessário como o facto de gravar em palavras o que sinto.
Neste presente em que o Reino Unido se separa mais que geograficamente da Europa, em que há tantos movimentos extremistas baseados em ódios a movimentos migratórios, a credos, ao que quer que seja diferente, uno-me à coragem desta família para, através do trabalho duro (e que muitos ingleses não querem fazer), sentir que os lugares também se controem desde fora, mesmo que alguns pensem que os alicerces duma nação são uma base de cimento e areia puros... Uma casa não pode existir sendo só alicerces, essa verdade é tão importante como qualquer projeto de estabilidade que nos queiram vender.
terça-feira, julho 19, 2016
Com os termómetros a rondarem os 40º...
segunda-feira, julho 18, 2016
“Não há nada…” (Jorge de Sena)
Não há nada que canse estas crianças.
Pulam e gritam, de regresso a casa,
após longo passeio, como se
fosse apenas um caso de memória
o cansaço que traziam nas pernas e na noite.
Gritam, pulam, brigam,
já esquecidos de que estavam cansados.
É horrorosa esta energia indomável,
sem graça e sem encanto, que deleita e baba
os que fazem mentalmente os filhos que não querem ter
ou que não podem ter, ou que perderam.
Porque é gratuita, é inhumana, é
dissipação de um passado selvagem
que a cada hora espreita nos tranquilos gestos.
Eu sei que é a vida – a vida, oh sim, a vida –
manifestando-se nesses uivos, neste gosto
da grosseria, da brutalidade, e de andar sujo,
despenteado e descalço, o gosto
fascinante e medonho da degradação.
Não há nada que canse estes animais
que amamos com tédio, e pelos quais tememos
o futuro e a morte, ou mesmo os olhos deles.
Hão-de crescer cansados e viver cansados
da humanidade delicada e terna
que apenas um ou outro, menos bruto,
descobrirá por conta própria apenas.
Belas as crianças? Se o forem.
E porque o hão-de ser por serem minhas?
E porque hei-de fingir que os amo como gente,
se ninguém pensou nelas para serem feitas?
E porque hei-de aceitar que seja amor
este teimoso orgulho de ter crias?
Não há nada que canse estas crianças,
nem mesmo o desespero de que o sejam.
17/10/1965
Jorge de Sena
Visão Perpétua (1982)
"Visão Perpétua: A Poesia Oculta de Jorge de Sena.". Recensão de José Rodrigues de Paiva em Ler Jorge de Sena
domingo, julho 17, 2016
Pedagogia
Em criança reduz-te à tua insignificância para que na idade adulta a tua consciência signifique.
quarta-feira, julho 13, 2016
Sertão (Bruno Cunha)
terça-feira, julho 12, 2016
A caminho de Madrid
segunda-feira, julho 11, 2016
Portugal, campeão da Europa
Foi uma pena os meus avós não terem presenciado este momento. Só um país como Portugal poderia ter conquistado este troféu assim, a sofrer até ao final, com o capitão do navio fora da embarcação, a dar nas vistas pelas lágrimas com traças à mistura, a bater sem querer no treinador e nos colegas, mas, principalmente, sem o devido respeito pelo país anfitrião e adversário na final. Ganhou Portugal porque teve que ser, pela sorte que protege os trabalhadores, até mesmo os que costumam ter pouca. Ganhou a juventude. Ganhou o jogador da liga menor e quase desconhecido.
Mas a verdade é que eu já não estou em Portugal, a minha avó morreu e o meu avô já nem sem apercebe se a sua seleção ganha em 1960 ou em 2016.
Hoje deito-me a sentir-me emigrante, apesar das dezenas de quilómetros que me afastam do berço. Hoje deito-me com os gritos do vizinho Soares, na casa em frente no pátio, imaginados na memória.
Amanhã tudo isto será história. Portugal voltará a pagar as suas dívidas à Europa, mas neste 10 de Julho foi enorme!
domingo, julho 10, 2016
Conflitos literários
sábado, julho 09, 2016
Um português sem medo de existir.
A propósito dum post dum reconhecido escritor português
Acabo de ler, escrito por um reconhecido autor português, que "ninguém, salvo raras excepções, antes dos cinquenta é um escritor sério", ou "a sério", não sei precisar e não me apetece reler o post.
Desconheço as suas excepções, mas imagino que pensará o mesmo para outras manifestações artísticas ou, até mesmo, para actividades profissionais.
Os anos vão passando e sinto que a idade não é um posto. Mesmo para as raras excepções.
Reconheço-lhe razão na necessidade de ter "biografia", até mesmo tempo (o Umberto Eco afirmava que só se dedicou mais à escrita quando os seus filhos já não lhe exigiam tanta atenção), anos de leitura, mas reconheço-lhe no tom, espero enganar-me, uma arrogância com a qual não me quero reconhecer. Ser escritor e ter espírito de crítico literário deve ser uma tarefa árdua, fodido mesmo. Quando é que se é qual?
Há beleza na ingenuidade. Há arte ingénua, "naif" não é? Há uma esperança na juventude que ainda não escreveu o suficiente para ter estilo ou, quando se escreve muito, para se copiar a ela própria.
Vou-me deitar a sentir-me mais velho e a deleitar-me com a escrita da juventude. Séria ou pouco séria, o que é que seria do futuro sem maçaricos ridículos a darem os primeiros passos e das mentes geriátricas que não se apercebem que estão a cair no ridículo?
quinta-feira, julho 07, 2016
Zamora
"Todos trazemos uma cidade dentro" é um verso do poeta zamorano Claudio Rodríguez. Entendo-o muito bem, também hoje trago a sua cidade dentro.
"Todos llevamos una ciudad dentro" es un verso del poeta zamorano Claudio Rodríguez. Le entiendo muy bien, también hoy llevo su ciudad dentro.
quarta-feira, julho 06, 2016
Zamora. Passeio à chuva de Julho
Chego a Zamora, revejo a papelada para amanhã, e ponho-me a caminhar pelas ruas paralelas e perpendiculares ao local onde estou instalado. Gosto de andar assim, sozinho no meio do dia-a-dia de gente alheia ao meu quotidiano, a olhar para os recantos tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes da cidade onde vivo. O céu não enganava ninguém. Anunciava chuva e trovoada desde o início da tarde. Apanhou-me próximo dum edificio público à espera de ser inaugurado na companhia de duas simpáticas senhoras idosas que partilhavam um chapéu de chuva transparente. Ali nos abrigámos os três enquanto esperávamos que escampasse. É tão fácil meter conversa, ainda mais se o tempo está a jeito disso, e estas duas senhoras, uma aqui de Zamora, a outra saudosa da cidade condal, lembraram-me como "isto está difícil para os da minha geração e para os que aí vêm". Lembraram-me isto, com um estoicismo como que os seus anos vindouros não interessassem, não fossem importantes para este país, ainda por cima uma delas com um filho adulto a cargo e um neto menor.
Deixou de chover tão intensamente e despediram-se de mim com uma cordialidade castelhana diferente da do sul à que estou habituado. Uma delas disse-me: "Tenho de ir para casa porque deixei uma janela aberta!".
E lá foram, juntas, passos em comum, o mais digno deste país que vive dos seus votos mas que as esquece mal estes saem das urnas.
Decidi pôr-me à chuva de Julho para lavar-me do calor extremo do meu sul. Caminhei bastante em direção ao Douro e olhei-o de olhos encandeados a correr para Portugal. Na rádio, e nos ecrãs futebolísticos das esplanadas zamoranas, a seleção das quinas chega à final do europeu de futebol com um percurso repleto de mau futebol mas cheio de sorte pouco habitual, o que me faz pensar que sorte não protege só os audazes.
Um pouco antes da meia-noite, volto ao hotel, de onde vejo um parque infantil pouco apelativo à primeira infância, e deito-me com Claudio Rodríguez e a sua cidade na cabeceira.
Uma das senhoras disse-me que Zamora tem pouco para oferecer aos seus e aos de fora. Não quero acreditar. Espero que não tenha razão. Por ela e por este dia que finaliza aqui, única e simplesmente, porque Zamora existe.
terça-feira, julho 05, 2016
Vivendas de luxo
Nunca imaginei ver uma crise económica como a que se arrasta desde 2008 até hoje. É verdade. Apesar de ter conhecido a precariedade, paliada pelo apoio paternal, nunca imaginei que a sociedade que me educou nos valores de casa, carro e electrodomésticos vários num trabalho efectivo fosse tudo menos estável. Via a maioria assim, também eu queria ser maioria numa época em que a minha vida profissional não me permitia sequer alugar casa para viver independente.
Quando comecei a trabalhar com um vínculo mais estável, esse que negam aos milhões (e a alguns dos melhores) por este mundo fora, também persegui a casa, um carrito melhor que o Clio a zumbir o alternador, e electrodomésticos vários. O primeiro foi uma máquina fotográfica.
Podia ser aceite pela maioria, essa classe média de centro-direita, quando tem boa memória pisca o olho à esquerda, e pagar ao banco todos os meses esse estatuto. Assim foi e assim é.
Fiz tudo para entrar neste clube. Fiz empréstimos (talvez algum dia precise outro), comprei casa e electrodomésticos. Mas nunca deixei de ser medroso. Sentia uma espécie de casamento, como o que fiz com a minha mulher, mas sem amor. Estava em núpcias e não sentia o afecto do banco que me exige seriedade ao fim do mês, rígido se há um imprevisto, a casa é tudo menos minha, quanto muito sou eu propriedade da minha casa que me escraviza com manutenção, limpezas semanais, mensais, para não escrever diárias, com o reforço de umas cartitas simpáticas com a boa nova dos impostos. É assim e já está, sem nenhum tipo de remorço ou hipocrísia deste escriba. Ainda bem que posso e aguento o que os economistas denominam taxa de esforço.
O que acontece é que já entrei muito tarde neste clube. Não sou um puro sangue de classe média. Trabalhei demasiado para ver que o médio ilude bem o operário, legitima o político, assegura as finanças do rico e é indiferente à miséria do pobre. O médio consome e é combustível da democracia. Há um equilibrio imperfeito mas, como tantas vezes o ouvi dizer a sábios do bairro, as coisas vão indo.
O problema reside na mochila que trago às costas, na insatisfação material que me contagia, no andar a pé e de bicicleta junto à realidade construída à base de hipoteca, com mais estradas que passeio, onde importa mais o veículo do que o peão.
Não tenho moral para opinar ou criticar a forma consumista como o meu semelhante privilegiado, sem guerras, exílios, ditadura, Daesh, Estado Islâmico ou outro qualquer credo inimigo dos direitos humanos, vive, porque eu vivo assim e reconheço-me tristemente insatisfeito nessa condição.
Hoje ia com os meus filhos pela rua e outro pai tentou-me vender qualquer coisa, tipo lenços de papel ou pensos rápidos, para sobreviver. A minha forma de sobreviver foi desconfiar, apesar de nestas palavras desconfiar de mim mesmo como exemplo de desumanidade.
E do outro lado da avenida, enormes catterpilars alisam o chão para, como diz o enorme outdoor, "Vivendas de luxo, compre já a sua!". Será que alguém nos pode vender uma consciência de que há algo aqui que não encaixa? Agradecia. Distraido, ponho-me a ver se na urbanização há uma gelataria, com o calor agradece-se e aqui não há risco de atentados suicidas.
Espuma (Claudio Rodríguez)
Miro la espuma, su delicadeza
que es tan distinta a la de la ceniza.
Como quien mira una sonrisa, aquella
por la que da su vida y le es fatiga
y amparo, miro ahora la modesta
espuma. Es el momento bronco y bello
del uso, el roce, el acto de la entrega
creándola. El dolor encarcelado
del mar, se salva en fibra tan ligera;
bajo la quilla, frente al dique, donde
existe amor surcado, como en tierra
la flor, nace la espuma. Y es en ella
donde rompe la muerte, en su madeja
donde el mar cobra ser, como en la cima
de su pasión el hombre es hombre, fuera
de otros negocios: en su leche viva.
A este pretil, brocal de la materia
que es manantial, no desembocadura,
me asomo ahora, cuando la marea
sube, y allí naufrago, allí me ahogo
muy silenciosamente, con entera
aceptación, ileso, renovado
en las espumas imperecederas.
Claudio Rodríguez












