sábado, setembro 10, 2016

Tenho bem presente a imagem do meu tio Manuel a dormir no palheiro com a espingarda ao lado. A necessidade de proteger o que plantara, o que cuidara, o que aprovisionara para dar de comer à sua família, justificava esta imagem que não gostaria de um dia ter de reencarnar.
A vida de pequeno agricultor, de ganadeiro, de pastor, não é nada bucólica como o poeta nos faz crer.
Não está assim tão longe o tempo em que o senhor feudal exigia o tributo e parte da colheita. Em tempos de PAC, de campos subsidiados, os roubos de produtos agrícolas estão ao nível do carjacking de marcas de altas gamas.
O meu tio protegia o seu trabalho de um acampamento ilegal na sua propriedade. De ciganos que andavam a rondar para ver o que podiam mangar (lembro-me bem e não cairei num registo correcto politicamente se não o é com o que vivi). O peso do Ultramar pesava-lhe no passado e ajudava-o a assumir a arma carregada e um possível apontar em legítima defesa. Era assim, a sua geração é assim.
Lembro-me tanto dele, e da quinta da infância das minhas primas, porque hoje parte de nós cá em casa deposita no campo a esperança de um futuro familiar sustentável. No entanto, proliferam os roubos nos olivais, amendoais, montados de sobro, até mesmo vinhas, numa total impunidade.
Quem me diria que o azeite, e a sua modesta azeitona, ascenderia ao estatuto de produto de luxo e emblema ibérico da gastronomia “gourmet”? Torradas de azeite, pão com azeitonas, refugados, etc., eram coisa de pobre e hoje este óleo natural é ouro líquido.
Parece que a influência do mediterrâneo chega até onde encontrarmos oliveiras plantadas. É uma imagem bonita de se pensar, bem mais idílica do que a de um homem guardar o suor do seu trabalho à ponta de escopeta porque a lei não o protege.
Hoje à tarde estava a passar na televisão, num desses canais reacionários, uma sessão de cinema Western. Bud Spencer, Terrence Hill, Djangos, Clints, Waynes e afins defendiam-se assim até chegar a mão da lei, em forma de Rangers, Xerifes e “Deputies”… O campo não tem portas e, apesar de parecer esquecido, votado à desertificação, não se protege minimamente na memória da cidade. Vamos ver como será quando houver uma crise da batata… Vai-se descobrir que não nasce empacotada. 

"Sé tú mismo" - Marc Tauss



sexta-feira, setembro 09, 2016

Praia do Vau 08.09.16

Deixei o rescaldo da fronteira ardida em casa e rumo ao sul de Portugal. 
O vento transporta o cheiro a queimado por quilómetros e, sem saber, chegamos ao nosso destino também a arder. As cinzas no ar povoam esta terra dedicada a turistas e o fumo veste o pôr-do-sol para um momento trágico. A serra de Monchique arde descontroladamente. 
Há alguns anos que não venho ao Algarve, o que me unia a esta região morreu e o pouco que me resta não me faz priorizar visitas nem veraneios como os de antanho. Sem mágoa, olho para trás como olho para este fogo, deixo que se extinga e aceito o horizonte a ocultar-me a beleza dos dias de sol nesta região.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Fronteira a arder

O fogo não conhece limites, não se circunscreve a fronteiras, devora hectares e não é por acaso que Hades arde mitologicamente. 
No norte arde o Gerês e o "Xures", enquanto aqui arde o Caia e nem o rio com o mesmo nome impediu que cruzasse as águas e ateasse fogo à margem espanhola. Passei de carro pela antiga nacional e vi como as chamas passavam de um lado para outro da ponte José Saramago. 
"O que farei quando tudo arde?" do Sá de Miranda pode-se interpretar com tantas retóricas e ao longo destes anos da minha vida tenho visto demasiadas coisas a arder. Não tenho interesses pirómanos e o fogo só me fascina por depois de se extinguir em cinzas adquirir um estatuto fértil, de adubo para crescimentos futuros. 
Amanhã passarei nos locais ardidos, os quais penso já terem os focos extintos, pensarei qualquer coisa diferente do Sá de Miranda. Tenho a certeza. 
Aqui deitado, com a noite menos tropical do que em dias anteriores, ainda cheiro o ar ardido e lembro-me que o melhor é evacuar o meu espírito deste diário. Por hoje já chega.

Vincent Hawkins








terça-feira, setembro 06, 2016

É melhor aprenderes a voar com a galinha do que com a águia. A galinha nunca vai deixar de sonhar com o voo completo, sempre com os pés bem assentes na terra para o impulso. A águia adquiriu o estatuto no ninho e altiva orgulha-se de não necessitar da terra para nada, até descobrir que não há voos intermináveis.

Noite tropical...

Setembro começou agarrado às temperaturas de Agosto. Mais de 40 graus durante o dia e a rondar os 30 durante a noite. 
Não me bastava o suor, e a letargia dos movimentos de pele pegada ao corpo, ainda tinha de me constipar e andar a fungar quando toda a gente anseia nadar no mar ou numa piscina. 
Se já me custava antes dormir, agora ainda mais. Consola-me a estupidez e ironia da situação. Vivo um clima de Verão com sintomas de Inverno... 

segunda-feira, setembro 05, 2016

"Arthur Bispo do Rosario" - Eduardo Galeano


Arthur Bispo do Rosario fue negro, pobre, marinero, boxeador y artista por cuenta de Dios.
Vivió en el manicomio de Río de Janeiro.
Allí, los siete ángeles azules le trasmitieron la orden divina: Dios le mandó hacer un inventario general del mundo.
Monumental era la misión encomendada. Arthur trabajó noche y día, cada día, cada noche, hasta que en el invierno de 1989, cuando estaba en plena tarea, la muerte lo agarró de los pelos y se lo llevó.
El inventario del mundo, inconcluso, estaba hecho de chatarras,
vidrios rotos,
escobas calvas,
zapatillas caminadas,
botellas bebidas,
sábanas dormidas,
ruedas viajadas,
velas navegadas,
banderas vencidas,
cartas leídas,
palabras olvidadas y
aguas llovidas.
Arthur había trabajado con basura. Porque toda basura era vida vivida, y de la basura venía todo lo que en el mundo era o había sido. Nada de lo intacto merecía figurar. Lo intacto había muerto sin nacer. La vida sólo latía en lo que tenía cicatrices.

Eduardo Galeano

quarta-feira, agosto 31, 2016

O meu pai movia-se entre nós - e.e. cummings

O meu pai movia-se entre nós,
cantando cada nova folha saída de cada árvore
(e cada criança tinha a certeza de que a Primavera
dançava quando ouvia o meu pai a cantar).

segunda-feira, agosto 29, 2016

"El Quijote" marchito, igual que un clavel de abril...

Presumível

("make my day")
há um motivo
sorriso
um aviso
uma acção
do passado
talvez o culpado
desta condição.

acusa-se com provas
factos justificados
perante o grande júri.
advogam-se as causas
à luz que deve iluminar
a processo
dentro da lei
dos homens a legislarem a natureza
a evitarem cumplicidades
associações desconsideradas 
até se provar o contrário
criminosas
pelo seu embaraço.

de pé o réu
não admite
em confessa
ser
presumível
autor.

presumivelmente poeta. 
é tudo uma questão passional.
que o julgue o tempo
quando este deixar de ser arguido
da sua própria existência.

A piscina na estrada...


Ensinei o meu filho mais velho a nadar. Posso afirmar, a partir de hoje, ser tudo uma questão de prática. Foi numa piscina aberta ao público, à qual temos ido refrescar estes últimos dias de Agosto. 
Aprender a nadar é aprender a sobreviver num meio para o qual não estamos particularmente concebidos. Espero que nunca tenha de nadar para sobreviver, no entanto, como se faz na Holanda, toda a gente devia pelo menos saber boiar, manter-se à tona dentro (e fora, já agora) de água. 
Em casa, junto com o pequenito, ambos na banheira, lavei-lhes a pele e o cabelo ainda com jeitos de cloro, sequei-lhes a pele atópica e apliquei-lhes o creme do dia-a-dia. Ainda usei o secador nos caracóis do mais novo pois anda um bocado ranhoso. Enquanto fazia estas tarefas, às quais já estou tão mecanicamente habituado, percorri "The Road" do Cormac McCarthy. 
Não dou por garantido cada gota de água com que os lavo, cada noz de champô, cada dose de gel duche, o sabor do dentífrico, a electricidade do secador de cabelo. Não dou por garantido aqui estar sempre para os cuidar no seu crescimento.
Todos os que têm filhos deveriam ser capazes de entender a personagem do pai neste livro de sobrevivência física e moral num mundo com todos os recursos esgotados. Darwin tem quase toda a razão, sobrevivem os mais fortes, mas também sobrevivem os que colaboram. Neste caso, um pai e um filho numa estrada em direcção ao litoral sul.
Estamos no final do Verão mas não sabemos quantos Invernos aguentaremos. Sobreviveremos? Ninguém está preparado. Será que o fogo viverá dentro deles? A semente foi plantada com fé de o clima possibilitar que algo germine nesta era de estupidez.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Não te basta já a dor de cabeça de seres de carne e osso?

Escrevo para me descrever, para não me esquecer, isso pensava. Tenho esse hábito, hoje já rotina, de grafar o que sou à solta. Na escrita, silencio o que tem um referente fonético por convenção e hábito, hoje já rotina, que nos torna sociais. 
Escrevo porque o aprendi. Não esqueço descender de quem lho foi impedido, por isso treino-o como pratico uma forma, um golpe rotineiro. No entanto, quanto mais me escrevo mais tenho a certeza da necessidade de saber ler-me. Isso creio que nunca o aprenderei com rigor, nem de cor. 
Numa gritaria nunca sou capaz de isolar uma voz. No trabalho, sem prazer, unicamente necessidade, uso a técnica da sanção colectiva, infelizmente com os pecadores pagam sempre os justos.
Fora desse âmbito, vozes destas são para as evitar. Não te basta já a dor de cabeça de seres de carne e osso?

terça-feira, agosto 23, 2016

Portagem, 23/VIII/2016

Sempre que vou à Portagem passo por Portalegre. Havia coisas a tratar e parámos nos locais indicados para os afazeres. Só depois fomos em direção a Castelo de Vide para matar saudades da paisagem. Ainda em Portalegre, bem no centro tristemente envelhecido, tomei um café que me ofereceu o terceiro volume do Dom Quixote.

O "bookcrossing" é das iniciativas mais bonitas, depois das bibliotecas públicas e escolares, para o fomento da leitura e, quiçá, de um espírito mais iluminado. Tenho "El Quijote" original, edição humilde mas bem completa, porém nunca terminei a sua leitura apesar de ter lido várias adaptações e versões livres. Acredito que muitos dos intelectuais das praças públicas internacionais tão-pouco o leram mas o seu estatuto seria outro se o reconhecessem. Seriam honestos com a inteligência do próximo, mas fundamentalmente seriam honestos consigo próprios. Mentimos tantas vezes a nós mesmos que tornamos a mentira a verdade do que somos. 

Depois de Castelo de Vide, depois da bela e estreita estrada com árvores de tronco vestido de branco, chegámos à Portagem. Refrescámo-nos na companhia de bons amigos (para variar abusaram no preço do almoço graças ao nosso ar e companhia de estrangeiros) e fomos o que há anos somos. O Luis, o José, a Pepi, iguais aos anos que passam, fiéis ao afecto, com filhos e com a cumplicidade da Elsa, da Camino e do Rafa. Faltavam o José Manuel e a Maite fisicamente. 

À volta, depois de uns mergulhos anti-inflamatórios e de umas conversas à beira do Sever, conduzi feliz em direção a casa. 

Gosto de estar assim, acompanhado, rodeado por gente que não se julga, que apenas é o que é. Consola-me saber isso e ser eu, sem máscara, sem filtro social que não seja o da estima e da amizade. O que é que seria do Dom Quixote sem o seu fiel escudeiro (amigo que era o que era) Sancho Pança? Seria apenas mais um cavaleiro de triste figura. Ao homem incapaz de ser amigo por assim o dever ser, acontece exactamente o mesmo. É um triste homem...

segunda-feira, agosto 22, 2016

Estivemos todo o dia em casa. O agosto remata o final dos seus dias com um calor que só à sombra permite a existência, ou à noite, porque também é amigo da insónia.
Não é fácil entreter duas crianças, uma delas um bebé de um ano, nestas circunstâncias. Há que ter paciência. Têm de aprender a abrigar-se do frio como também do sol que nos marca com raios UV.
Onde vivemos, o frio é passageiro e quase sempre provoca-me saudades. O sul, esse que no mapa também se marca com cores quentes.
O vento é emulado por uma coluna de ar artificial, uma ventoinha que trabalha noite e dia dois a três meses por ano. O seu ruído é mecânico, tão diferente da sínfonia do vento que anunciará em breve o outono.
Não páro de pensar. Não sou capaz de adormecer sem antes fazer ou conjugar algum verbo da segunda conjugação, regular ou irregular, só para rimar. Ler, escrever, por exemplo, para não entrar em mais detalhes.
Hoje li pouco. Uns artigos sobre o Bordalo Pinheiro do Zé Povinho, um documento sobre a guerra civil espanhola e uma entradas num diário alheio. Mas o que levo para a cama é um pensamento preocupante de como os extremismos, neste caso particular o ISIS, recrutam fiéis logo na primeira infância a troco de umas guloseimas, de umas promessas divinas, ofensivas para qualquer deus decente, de serem "as crias" do profeta. É tão fácil doutrinar para que explodam em nome da cobardia humana...
Fecho os olhos em oração a um qualquer deus decente e rogo-lhe que interceda por estas crianças. Tenho fé não sei bem no quê, se em deus ou num resto de decência humana.

As Pontes (Acetre)




Sobre o disco de Acetre a que pertence "As pontes", Arquitecturas rayanas, podemos ler o seguinte na página musicaflok.es :

"As Pontes fue el primer single que el grupo extremeño Acetre lanzó, como adelanto a su álbum Arquitecturas Rayanas. También fue el primer videoclip que realizaron, con impecable resultado, como podéis ver tras el salto. Rodado en Badajoz, el tema habla de los puentes físicos tendidos a ambos lados del Guadiana a su paso por la ciudad."


AS PONTES

Blanca es la paloma
Que aquí se posó
Bella como el alba
Cuando sale el sol

Ó minha pombinha branca
Vem depressa ao meu quintal
Salpicadinha d’amores
Pra ver meu amor chegar

Claveles en mayo
Rosas en abril
Mi amante se peina
Junto al toronjil

Ausente de ti, meu bem
Sempre estou a suspirar;
Esta paixão do meu peito
Já não a posso olvidar

Pequeña es la dama,
Pequeña y hermosa
Y reparte amores
Como hojas de rosa

A rosa depois de seca
Foi-se queixar ao jardim,
O jardinheiro lhe disse
Tudo no mundo tem fim

Abanicos verdes
Lleva la pastora
y guarda el ganado
mientras me enamora

Pastora, boca de cravo
Cintura de capitão
Cadeado do meu peito
Chave do meu coração

Cuando en ti pienso
Renace mi amor,
Donde prendió el fuego
Ceniza quedó

Ó minha pombinha branca
Vem depressa ao meu jardim
salpicadinha de flores
Pra ver meu amor partir

Quando os meus olhos te viram
Meu coração se alegrou
Na cadeia dos teus braços
Minha alma presa ficou.





sexta-feira, agosto 19, 2016

Recordando a Lorca...

Hace dos días, se cumplieron 80 años desde que nos dejó a manos del odio ideológico...

Sísifo de rede ovelheira

O trabalho do campo é duro e qualquer pessoa que tenha noção de várias vidas laborais além das que no seu dia-a-dia exerce deve concordar comigo. 
A minha manhã começou bem cedo, ver o sol nascer é sempre uma maravilha, e esperava-me uns metros de cerca ovelheira, arame farpado dissuasório de focinhos intrometidos e bastantes estacas ressequidas no meio do matagal rasteiro do Agosto alentejano. 
Munido de alicate de corte (estúpido deixei o universal em casa que tanta falta me fez), chave de fenda, martelo de orelhas (as quais não resistiram nem a um dia de labuta) e algumas coisas, tipo cordéis e elásticos, para desenrascar, meti mãos à obra. 
Pouco a pouco, fui entrando na rotina de arrancar grampos, cortar arame, enrolar as velhas cercas e reciclar o arame farpado. A tarefa exigia movimento constante numa solidão que nem minimizei com o rádio ou música do telemóvel, uma vez que até tinha posto os auriculares no bolso da camisa. Dei por mim a pensar em coisas estúpidas, incertezas, medos de que o outro, o que está fora da minha cerca, me invadisse com más intenções. Receios que o que tenho recolhido, criado aqui dentro, sem essa barreira fugisse para longe de mim. 
Estava desconfortável, não com o trabalho duro, com as mãos e antebraços picados e arranhados, sim com a solidão dos meus pensamentos. 
Mas, por mais "new age", "couching" ou sabedoria proverbial de livro de auto-ajuda pareça, os pensamentos são as flores do nosso jardim. A nossa tarefa de jardineiros é escolher o tipo de flora que por lá queremos ver a propagar-se. A fotossíntese com a cara ao sol e os sentidos cientes dos elementos, ajuda-me a minimizar o que hoje por lá plantei. 
A rodar pelo terreno acima, lembrei-me do mito de Sísifo e de quando o conheci e entendi o que talvez significasse. Não quero ser arrogante e dizer que o entendo, quando o que sinto é compaixão. Hoje rebolei rede ovelheira, outros dias carrego sacos de compras, móveis, livros, utilidades e inutilidades, etecetera, longe da condição de titã, lá me vou aguentado, duvidando, sendo cada vez mais pragmático num corpo onde sinto marcas de tempo e se veste com roupas totalmente cobertas de pó.
Num ritmo cada vez mais parecido ao do meu avô e do meu pai, trabalhei com as ferramentas quase adequadas, olhei-me no horizonte passado e reconheci mais lentidão, mas com mais segurança e eficácia nos passos. Dorido, ao fim do dia, repenso que todos os trabalhos exigem inteligência, brio e destreza. No meu caso, um cinto de ferramentas ter-me-ia poupado as costas e feito ganhar minutos na execução das tarefas. Tenho sorte. O Sísifo tem sorte. Por mais pensamentos infestantes que tenhamos, amanhã podemos recomeçar.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Victor "Young" Perez

O sol da tua infância tunisina
nunca deixou o teu coração ser francês.
Os teus punhos foram nacionalizados
mas tu nunca foste um protectorado de Vichy.
Obrigaram-te a levar a estrela
a ti a verdadeira estrela
o mais jovem campeão
do mundo
e de David.
O quadrilátero era de arame farpado
e o árbitro mais que comprado.
Com fome e sem sentires o jogo das tuas pernas
voaste pelo fumo das chaminés do crematório
a escorreres sangue de campeão,
verdadeiro, sem raça,
sem pureza que só existe
em farsas
e ideologias
que para a história
não foram mais que sofrimento
derramado em hemorragia.
A tua guarda debilitada
pela guarda de um campo de concentração
não te desconcentrou
nem pôde a humilhação
desleal doutra categoria de peso
fazer frente ao peso da alma.
Há quem afirme que o peso da alma são 21 gramas,
se assim é foram as tuas gramas
que se imposeram à tonelagem de crueldade
e fizeram do teu voo
um combate para a eternidade.
O sol em Janeiro na Polónia não se vê. Foi difícil marchar de pés sangrentos
para voltar à beira-mar do mediterrâneo.
Oportunista, como bom pugilista, encontraste um aberta na guarda da morte
e esquivaste o esquecimento.
Bastava-te um momento
mas uma bala fez-te ir ao tapete
antes de tempo.

Rua da Cal Branca

Como qualquer superfície de mármore, era preciso ter cuidado para não se escorregar. Mas sempre os sentidos se alegravam por ali passarem.
Optava por lavar todas as escadas de joelhos. Do rés-do-chão ao segundo andar, a senhora da limpeza, de quem nunca soube o nome, era tal qual a sua mãe que anos antes lavara a mesma escadaria na mesma incomodidade de genuflexão mas deixando como herança o brio e o hábito do esfregão e do sabão azul.
Hoje escorreguei na brancura do mármore desta lembrança da Rua da Cal Branca. Escorregámos. Nunca subi essa escada sozinho porque lá em cima alguém me esperava sem necessidade de avisar.
A senhora já me conhecia, o plátano lá fora também. Fazia questão de me receber com o acto cerimonioso de interromper o seu labor para que passasse e não escorregasse na humildade da sua existência. Creio que assim o pensava.
Eu não. A gratidão que tenho pelo seu gesto é presente como tento pisar com cuidado e reconhecimento o trabalho prévio dos outros. O sorriso é o do jovem apaixonado já então lhe reconhecia o mesmo azul dos olhos e longo cabelo da sua princesa.
Hoje as escadas da Rua da Cal Branca voltaram a ser subidas a vários anos e quilómetros de distância. Lá estava a senhora de joelhos a lavar com sabão azul o mármore dos nossos passos.
Cumprimentámo-la e fomos cumprimentados como se ontem por lá tivéssemos passado. Ela olhou-nos e soube que a sua dignidade ia ali connosco. A da sua mãe também. No nosso caminhar há a brancura do seu esforço, agora o nosso esforço.

Escrever tem-se convertido na necessidade de libertar o que penso ao mesmo tempo que tenho assumido que isso de pouco vale.

"Dormir es la mejor manera de meditar" - Dalai Lama

terça-feira, agosto 16, 2016

Pode uma palavra inspirada salvar a humanidade? Pode. Salvar um ser humano é amparar o colectivo, mesmo que não não nos apercebamos ou reconheçamos isso.

Aos que cá estão e aos que não

Em criança, se queria chorar, bastava-me pensar na morte dos meus avós. Não era que o pensamento do fim dos meus progenitores não me afetasse, sempre me deram a ilusória segurança que ali estariam, essa ideia de perenidade desactivava o melodrama. Também era criança e era bem enganado, algo que a cronologia da idade dos meus avós não me permitia estar tão seguro da igual condição mais jovem dos meus pais.
Mas o peso da ideia de fim não abandonou essa criança. No quarto ao lado dormem outras duas às quais sou incapaz de prometer céus e outros mundos. Não lhe mostro que também eu tenho as mesmas dúvidas e medos multiplicados pelo anos que vou vivendo e pelas filosofias que vou descartando.
Ganhar só existe porque se contrapõe ao perder, sabemo-lo demasiado bem. Ganhei mais um dia, mais uma entrada neste diário sem leitores, a memória dos meus avós não me faz chorar, todo o contrário, lembra-me de cuidar, estar lá, para os que de mim dependem. Ser ainda esse menino, assumir o seu medo, é a maior prova de amor que lhes posso dar. Aos que cá estão e aos que não.

quinta-feira, agosto 11, 2016

"Não insulte jamais um crocodilo antes de ter atravessado o rio" - Provérbio Africano

Árvore da infância

A casa da nossa infância constrói-se com restos de memória, ergue-se com o concreto disponível à nossa imaginação e, desde o alto, melhor do que vislumbrar futuros é descer à terra e brincar com o que se tem à mão.

La casa de nuestra infancia se construye con restos de memoria, se levanta con el concreto disponible a nuestra imaginación y, desde lo alto, mejor que vislumbrar futuros es bajar a la tierra y jugar con lo que se tiene a mano. 

quarta-feira, agosto 10, 2016

Cantares que fazem pontes - Luis Leal (in revista "Mais Alentejo" nº134)


Cantares que fazem pontes – Luis Leal (Revista "Mais Alentejo" nº134)

Se em Portugal se cita constantemente Fernando Pessoa, Camões ou, como parece que é típico dos discursos de investidura dos Presidentes da República, Miguel Torga, em Espanha, Antonio Machado vê frequentemente os seus versos por conta de outrem. Os mais usados, em todo o tipo de situações, desde as protocolares às mais mundanas, talvez sejam estes que aqui traduzo de forma recordá-los ao meu estimado leitor: “Tudo passa e tudo permanece,/mas para nós é passar,/passar a fazer caminho,/ caminho sobre o mar. (…) Caminhante, são tuas pegadas/ o caminho e nada mais;/ Caminhante, não há caminho,/ faz-se o caminho a andar.”

Anos mais tarde, Joan Manuel Serrat musicou-os e gravou uma canção que considero das mais bonitas da música popular espanhola. Este grande músico, catalão por nascimento, cuja pena é tão doce quanto a voz, é um símbolo desta ibéria submersa numa diversidade que não se esgota em questões de nacionalidade no espaço peninsular. Sabemos que estão na ordem do dia e, para os olhares atentos, é fácil identificar a primazia da economia e da política por cima duma maioria orgulhosa da sua cultura e nação, sem pretensão a mais fragmentação do que aquela já existente.

A região que me adoptou é um claro exemplo disso. “Castúa” e castiça, a Extremadura orgulha-se de ser um território caracterizado por possuir as melhores pontes do mundo ocidental, com destaque para a jóia romana de Alcântara e a renascentista de Almaraz, ambas erguidas sobre o rio Tejo. Mais a sul, o Guadiana tem também a sorte de partilhar, em ambas as margens, os destroços visíveis de uma ponte-fortaleza, a última do seu género na Europa, cuja grande abóbada central se antecipou, quase um século, à mundialmente famosa de Rialto, na elegante Veneza. Há mais de três séculos, em 1709, o marquês de Bay destruiu esta ponte, elevando-a assim à categoria de ruína. Até que ponto a vida não é isso, necessidade de construir pontes ou derrubá-las em escombros para manter a integridade do nosso espaço vital?

Roberto Juarroz acreditava que “pensar em alguém é parecido a salvá-lo”. Vejo esta crença como uma espécie de salva-vidas de lembrança que nos permite resgatar ou fazer pontes com os outros. 

Na margem espanhola da Ponte Ajuda encontramos Olivença, neta de Portugal e filha de Espanha, e o melhor exemplo do que é ser-se português do outro lado da fronteira, apenas há que parar e prestar atenção.

E foi o que fiz. Há quase uma década, parei, olhei e ouvi. Em Olivença descobri um dos melhores projectos de “folk music” que conheço, os Acetre. Com 40 anos de actividade, impuseram-se como o grande referente “extremeño” de “world music” à qual a sua condição fronteiriça foi fundamental.

Quis o acaso que viver entre duas terras se convertesse em ajuda, em ponte, entre este grupo musical oliventino e as minhas raízes de cante aprendido daqueles que mo ensinaram. Quis também o acaso que não pudesse assistir ao vivo, nem em Badajoz, nem em Cáceres, aos Acetre a cantarem com o Mestre Joaquim Soares e o Grupo de Cantares de Évora.

Ao contrário do silêncio desta tarde quente de modorra em que escrevo, dessas em que ninguém pode acusar a sesta de costume de preguiça, destes cantares sinto uma ressonância afinada, uma arquitectura raiana de sons a edificarem-se numa ponte comum a dois povos. Ao ouvir esta melodia, um pouco como o poeta argentino, por momentos, acredito nessa salvação maior do que qualquer pensamento.

Leiria. Vida comercial. Shopping Center.

Já por lá andava há algum tempo, a meteorologia lá fora tinha mais influência desértica que atlântica, quando me deu vontade de ir à casa de banho. Muitos dos que por lá andavam faziam o mesmo que eu, fugir à hora do calor, mas a maioria sentia como o fim-de-semana se consumia neste templo de consumo. Vive-se assim, eu não sou excepção, nem tenho moral para divagar sobre o que cada um pode (ou deve) relacionar-se com o comércio e as suas necessidades materiais. 

Mas de caminho para um chichi (ou será "xixi" com x?) deparo-me com com senhor, talvez com uns 45 anos, de bermudas e chinelo no dedo, como convida a época estival, com uma espécie de um "certo" grande tatuado na coxa direita à descoberta do calção. Estou tão habituado a corrigir exercícios, a pôr "certos" com prazer, que sei que essa não é uma marca de reforço pedagógico ou reconhecimento de bom trabalho. É uma marca, sem dúvida, cuja única nascença foi ter sido registada e patenteada numa conservatória dos EUA. 
Tem por detrás a protecção da mitologia da deusa grega da vitória que, no século XX, se revisitou para umas sapatilhas desportivas e a partir de então foi um sem parar de facturar. Apenas o fez. Gosto de tatuagens, tenho algumas que são as minhas marcas registadas de símbolos pessoais, bem lamechas, como só na minha pele podem ser, mas pergunto-me o que é que terá levado este gajo, companheiro de urina no mesmo shopping do que eu, a tatuar a mais valiosa marca desportiva do mundo na sua pele. Não acredito que tenham sido milhões de dólares, mas imagino milhões de motivos, confesso que nenhum me faz pensar na deusa da vitória, mas muitos fazem-me rir de desconcerto, tipo aquelas imagens de humor em que um crocodilo se veste com pólos da Lacoste, não necessitamos muita imaginação.
"Nos dias de hoje,  quando todos sentimos a obrigação, sob pena de nos vermos condenados in absentia pelo delito de lesa-respeitabilidade, de laborar em alguma atividade lucrativa com um zelo próximo do entusiasmo, qualquer clamor da fação oposta, dos que se contentam com o suficiente e preferem ficar à parte a observar, terá sempre o seu quê de fanfarronice." Robert Louis Stevenson

Foz do Arelho

Estou cansado mas tenho tanto para aprender que não consigo deixar de querer absorver tudo o que vejo. Os meus filhos fascinam-me, a sua mãe deslumbra-me, e a minha gratidão por os ter em mim é infinita. No entanto, não posso deixar de tentar assimilar outras experiências a somar a este dia-a-dia familiar. Sei que não sou só pai, marido e trabalhador. 
Os poetas falam do absoluto, os místicos do transcendente, os cépticos não sabem do quê... Já eu, neste presente, sei-o bem. Movimento. Acção e contemplação. Desfrutar do movimento e contemplá-lo como uma baliza cronológica... e escrevê-lo aqui, por outra tendência que tenho... esquecer-me.  

Leiria, 6/VIII/2016

Vir a Leiria é sempre assumir a presença desta cidade na minha vida. Vir a Leiria é ser assertivo, não querer julgar o outro e estar decidido a não perder mais tempo. 
Os anos fizeram que esta cidade também fosse da minha família, aquela que vive longe mas que me esforço por visitar. Estou junto ao Lis, sozinho e tranquilo de incertezas. Na mão trago "O Mar de Madrid" porque sei que o mar em mim só se concebe por mero acaso, tal como o poeta que acho que sou, porque assumo as cidades às quais me impingi, como um bom atrevido sem medo de assumir-se.

terça-feira, agosto 02, 2016

Praticar. O verbo consciente.

Praticar. O verbo consciente. Faz-me crer ser forte através da identificação das minhas fraquezas com a franqueza da experiência. 

O verbo consciente, ao qual tenho devoção dada a minha irregularidade no que concerne às musas ou aos mecenas. 
Praticar. Como nas artes marciais com que forjei a lealdade ao punho primeiro que à letra. A ilusória segurança da repetição, do automatismo, do aumento da probabilidade de safar-me, adaptar-me, ao absurdo estatístico chamado mortalidade.

Portado de Verão

O portado é a parte mais importante de uma casa no Alentejo. Depois, imediatamente, vem a fachada caiada a branco e com um rodapé creme ou azul.
É o portado porque, além de apoiar o pé nas boas-vindas caseiras, apoia o traseiro num contemplar de fim de tarde veraneio em que todo o dia nos pediu sombra e fresco.
Se o serão se assume simpático, vai-se lá dentro buscar uma cadeira de praia e fica-se na conversa com as vizinhas da rua. Vêem-se as crianças a brincar aos jogos sem fronteiras, fala-se sobre a última contratação do Benfica, do gazpacho do almoço e dos restos que se aproveitam para a refeição ou dia seguinte.
O Alentejo é o portado de Portugal. Há portados por outras regiões e países fora que, tal como no Alentejo, se estão a perder.
Os portados estão em vias de extinção, morrem de velhos e não se renovam. Fecham-se em casa. O convite ao diálogo, à circunstância passageira ou à autorização de entrar-se no lar de cada um, evoluiu para uma timidez física extrovertida no meio digital. As redes sociais de conversa de cadeira de praia ao serão Alentejano são cada vez mais escassas mas um autêntico prazer quando as encontras.
Ontem lembrei-me como gostava de apanhar fresco na rua, no pátio, nessas esplanadas de vontade de ar menos abafado do que em casa, ao ver os meus filhos brincarem em Vale do Pereiro, na aldeia da minha família.
Ainda se ouvia a música do último dia da festa e comia-se com a porta aberta aos que na rua passavam. Os miúdos tomavam banho no tanque e brincavam a varrer a casa.
Sentei-me no portado a falar com o Jorge. As cadeiras sairam à rua e começaram a falar umas com as outras.
Em amena cavaqueira, tive de as abandonar, sentar-me ao volante dum carro que retirou os meus filhos da brincadeira de rua e voltar para o lado de dentro do portado, onde me escondo. Aqui onde vivo, já não sou o mesmo menino do bairro. Para ser fiel aos meus, tenho de me esconder ou passar a ser o portado.

segunda-feira, agosto 01, 2016

sábado, julho 30, 2016

Feeling blue in so much green... (Brinnington, 2016)

Se é caso disso, levem-me lá para trás e...

Posso ver com os meus olhos realidades que nunca imaginei ver. Tenho trabalho. Tenho saúde. Tenho mulher e filhos comigo igualmente bem de saúde. Alguma família e amigos fundamentais. Tenho uma almofada que dorme tranquila e que está à minha espera.
Por tudo isto, se alguém me ouve a queixar-me, por favor, levem-me lá para trás e espetem-me um tiro nos cornos...

quarta-feira, julho 27, 2016

Alguma vez seremos melhor do que isto?

Hoje estive no "Imperial War Museum" de Manchester. Ontem, e nos dias e semanas anteriores, falaram-nos de guerras religiosas, mata-se em prol do Islão, e não só, portanto o terror faz parte do discurso dominante. O Papa Francisco não cai nesse argumento simplista e já veio dizer que não há nenhuma guerra de religiões mas sim de interesses, poder e de recursos. Gosto deste gajo. Depois de tanto tempo, já não desconfio da sua figura apesar de continuar a criticar parte da instituição que representa.
Do outro lado do Atlântico, o Trump está à frente da Hillary nas sondagens e o Obama diz que a Rússia tem muito a ganhar com um idiota assim na Casa Branca. Reminiscências da guerra fria?
Neste museu não senti apologias bélicas ou pacifistas. Há uma cobertura única sobre o conflicto, desde a Primeira Guerra Mundial até ao presente, um estudo e entendimento da história da guerra moderna e do que é vivê-la como soldado, vítima, refugiado, dano colateral ou viver o pós-guerra. Trouxe um postal que quero pôr bem visível em casa. Lembrei-me de Sun Tsu. "Em tempo de paz não esqueças a guerra, em tempo de guerra não esqueças a paz". Não tenho boa memória para os "ipsis verbis" porém essa é a ideia.
No centro daquele edifício moderno, com o meu filho mais novo a berrar de teimosia, de birra de saturação de carrinho e de horas de autocarro, algo tão diferente do choro sincronizado com o zumbido e explosão posterior de bombas, tentei acalmá-lo consolando-o no meu colo. Sei que esta paz é ilusória. Temo por eles, por o mundo que se consome a si mesmo e temo que sejamos tão estúpidos para entregarmos os "Red Bottons" a quem nem sequer deveria de ter acesso a uma pistola de água.
Cresci filho duma guerra sem razão onde ia morrer obrigado o povo humilde, manipulado e sem recursos, português. Não conheço a guerra como vítima ou combatente, mas conheço bem o conceito e a história detrás desse conceito.
Sem ilusões mas sem duvidar de existir esperança, pergunto-me:
- "Alguma vez seremos melhor do que isto?"

terça-feira, julho 26, 2016

Notas processadas

Escrevo estas notas feitas diário quase sempre antes de me deitar. Fecho o dia com o inventário do que vivi e como o senti.
Estou em Inglaterra há uns dias, em Stockport, mais precisamente em Brinnington, uma das localidades periféricas mais pobres da grande Manchester. Estamos em casa da nossa "família africana", como já aqui escrevi numa entrada anterior, aquela que ganhei graças à minha mulher. Estou grato por isso.
Todos os dias nos deslocamos nos transportes públicos, de autocarro suburbano, para os passeios que damos por esta região que foi o berço da revolução industrial. Fazemos esse turismo ao lado de quem trabalha, sem pretensões de grandes atrações, mas com a certeza que sabemos e valorizamos o seu dia-a-dia que lhes põe pão na mesa.
Inglaterra é uma realidade social tão diferente da peninsular, apesar de todos os templos do consumo nos remeterem para a igualdade do ser em massas, global e tendencialmente acrítica, que não me atrevo a analizá-la. Escrevo aqui o que vi. Enumero sem nenhum rigor na ordem.
1- Há uma maioria de ingleses amparados pelo estado social. Dão nas vistas tal como alguns emigrantes que entendem e usufruem do sistema.
2- Os emigrantes são o motor da economia com trabalhos precários, ausentes de contratos laborais, mas no activo como população.
3- O poder político está totalmente afastado de aglomerados de prédios, periferias convertidas em burgos para dormidas de quem trabalha na grande cidade ou parasita porque lhes é permitido por esse poder para que se possa perpetuar ao comando do país.
4- Há videovigilância por todo o lado. O Orwell já o vaticinara na história da literatura deste país mas como um "big brother" totalitário. Aqui há totalitarismo misturado com paternalismo estatal. Atira-lhe umas migalhas que o povo abdica de tudo, da sua educação, da sua liberdade, da sua dignidade.
5- Nunca vi em tão pouco tempo e espaço tanta obesidade. Cresci a associar a gordura a quem tudo come e nada deixa para os outros. O menino rico com acesso aos chocolates e guloseimas lá do bairro há 30 anos atrás vai ao ginásio, come produtos naturais e tem nutricionista. O pobre apodrece no excesso fácil da nutrição rápida, processada para massas e aumenta o lastro que lhe solda as articulações e nunca conseguirá subir os degraus sociais.
5- Escrevo em Inglaterra, estou aqui por casualidade e atrevo-me a tirar conclusões que tiraria no bairro mais pobre da cidade onde vivo, mas o impacto visual influencia o que aqui redijo.
Há perversão nestes guetos. Do ser humano. Não há só oprimidos ou opressores. Há miséria de espírito e há muitos anos sei que este tipo de miséria não tem classe social. Uno-me a essa miséria, não a desprezo, rezo apenas para que estas palavras rápidas nutram alguém a ter consciência do que se é, do que se pode ser e do que o colectivo quer que sejamos. Sem moral processada como a comida que trago na mochila.

sexta-feira, julho 22, 2016

Poder fazer parte do dia-a-dia de quem emigra para ganhar o pão, nem que seja por uma semana, noutro país que não seja Espanha, é um privilégio do qual me sinto profundamente merecedor.
Em 24 horas pisei três países diferentes e falei três línguas diferentes. É inevitável fazer comparações, mas também é inevitável saber que fazer comparações quase sempre é perder tempo. Prefiro observar.
Espanha, Portugal e Inglaterra. Essa tríade com vértices em afectos como os que temos pela Deu e pelo Márcio, a nossa família africana, aquela que a minha mulher ganhou e nos deu para a vida.
Adormeço em Manchester, mais precisamente nos arredores de Rockport, e sei que estar aqui é algo tão necessário como o facto de gravar em palavras o que sinto.
Neste presente em que o Reino Unido se separa mais que geograficamente da Europa, em que há tantos movimentos extremistas baseados em ódios a movimentos migratórios, a credos, ao que quer que seja diferente, uno-me à coragem desta família para, através do trabalho duro (e que muitos ingleses não querem fazer), sentir que os lugares também se controem desde fora, mesmo que alguns pensem que os alicerces duma nação são uma base de cimento e areia puros... Uma casa não pode existir sendo só alicerces, essa verdade é tão importante como qualquer projeto de estabilidade que nos queiram vender.

terça-feira, julho 19, 2016

Com os termómetros a rondarem os 40º...

Com os termómetros a rondarem os 40º, a malta do bairro refrescava-se de mangueira e de alguidar… Já lá vão uns anitos, a mangueira e o alguidar eram da D. Adelaide Rosmaninho no seu quintal em Mira… Este “tesouro deprimente” (encontrado no baú do mestre Jorge Rosmaninho Neto) refresca-me a memória e ainda a pele cheira ao sabão azul com que me lavava no quintal dos meus avós…


Con los termómetros rondando los 40º, la pandilla del barrio se refrescaba de manguera y barreño… Ya pasaron unos añitos, la manguera y el barreño eran de D. Adelaide Rosmaninho en su jardín en Mira… Este “tesoro deprimente” (encontrado en el baúl del maestro Jorge Rosmaninho Neto) me refresca la memoria y todavía mi piel huele a jabón lagarto con el cual me lavaba en el jardín de mis abuelos…

segunda-feira, julho 18, 2016

“Não há nada…” (Jorge de Sena)




“Não há nada…”

Não há nada que canse estas crianças.
Pulam e gritam, de regresso a casa,
após longo passeio, como se
fosse apenas um caso de memória
o cansaço que traziam nas pernas e na noite.

Gritam, pulam, brigam,
já esquecidos de que estavam cansados.

É horrorosa esta energia indomável,
sem graça e sem encanto, que deleita e baba
os que fazem mentalmente os filhos que não querem ter
ou que não podem ter, ou que perderam.

Porque é gratuita, é inhumana, é
dissipação de um passado selvagem
que a cada hora espreita nos tranquilos gestos.

Eu sei que é a vida – a vida, oh sim, a vida –
manifestando-se nesses uivos, neste gosto
da grosseria, da brutalidade, e de andar sujo,
despenteado e descalço, o gosto
fascinante e medonho da degradação.

Não há nada que canse estes animais
que amamos com tédio, e pelos quais tememos
o futuro e a morte, ou mesmo os olhos deles.

Hão-de crescer cansados e viver cansados
da humanidade delicada e terna
que apenas um ou outro, menos bruto,
descobrirá por conta própria apenas.

Belas as crianças? Se o forem.
E porque o hão-de ser por serem minhas?
E porque hei-de fingir que os amo como gente,
se ninguém pensou nelas para serem feitas?
E porque hei-de aceitar que seja amor
este teimoso orgulho de ter crias?

Não há nada que canse estas crianças,
nem mesmo o desespero de que o sejam.

17/10/1965

Jorge de Sena

Visão Perpétua (1982)


"Visão Perpétua: A Poesia Oculta de Jorge de Sena.". Recensão de José Rodrigues de Paiva em Ler Jorge de Sena



terça-feira, julho 12, 2016

A caminho de Madrid

Viajar ou deslocarmo-nos em transportes públicos nunca nos deixa afastarmo-nos da realidade que o carro próprio cria. O ter de partilhar um espaço no destino de cada viajante é algo que tanto tem de castigo como de interessante. Quem sabe quem é que se vai sentar ao teu lado? 
De momento vou sozinho. O verão e o suor não convidam a grandes conversas. O destino sim. Aqueles que viajam por necessidade não acreditarão no mesmo do que os que viajam por obrigação. 
Já os turistas, como eu, não perdem tempo a pensar se é por necessidade ou obrigação. Acreditam que há uma agência de viagens de oportunidade. Aproveitam enquanto podem.

segunda-feira, julho 11, 2016

Portugal, campeão da Europa

Foi uma pena os meus avós não terem presenciado este momento. Só um país como Portugal poderia ter conquistado este troféu assim, a sofrer até ao final, com o capitão do navio fora da embarcação, a dar nas vistas pelas lágrimas com traças à mistura, a bater sem querer no treinador e nos colegas, mas, principalmente, sem o devido respeito pelo país anfitrião e adversário na final. Ganhou Portugal porque teve que ser, pela sorte que protege os trabalhadores, até mesmo os que costumam ter pouca. Ganhou a juventude.  Ganhou o jogador da liga menor e quase desconhecido.
Mas a verdade é que eu já não estou em Portugal, a minha avó morreu e o meu avô já nem sem apercebe se a sua seleção ganha em 1960 ou em 2016. 
Hoje deito-me a sentir-me emigrante, apesar das dezenas de quilómetros que me afastam do berço. Hoje deito-me com os gritos do vizinho Soares, na casa em frente no pátio, imaginados na memória.
Amanhã tudo isto será história. Portugal voltará a pagar as suas dívidas à Europa, mas neste 10 de Julho foi enorme! 

domingo, julho 10, 2016

sábado, julho 09, 2016

Um português sem medo de existir.

O Cristiano Ronaldo fascina-me. Sociologicamente, o estereótipo do português mudou bastante graças a ele.
O pobrezinho, humilde e honrado trabalhador que o salazarismo exportou, por exemplo, para a França desta final, nada tem a ver com este perfil aguerrido, seguro de si mesmo (arrogante, é verdade) e de superação neste mundo mediático e global, no qual Portugal, por vezes, tem medo de existir.
Exceto na ética de trabalho, herdada de séculos de emigração lusa. Essa dedicação e profissionalismo que lhe permitiu sair dum pobre bairro madeirense e ascender no mercantil mundo do futebol.
Ganhe ou não ganhe amanhã, eu guardo a imagem dum homem comum cujo maior talento foi superar-se naquilo que foram as suas circunstâncias. Um português sem medo de existir.

Cristiano Ronaldo me fascina. Sociológicamente, el estereotipo del portugués cambió bastante gracias a él.
El pobre, humilde y honrado trabajador que el salazarismo exportó, por ejemplo, a la Francia de esta final, nada tiene que ver con este perfil aguerrido, seguro de sí mismo (arrogante, é verdad) y de superación en este mundo mediático y global, en el cual Portugal, por veces, tiene miedo de existir.
Excepto en la ética de trabajo, herencia de siglos de emigración lusa. Esa dedicación y profesionalidad que le permitió salir de un pobre barrio de Madeira y ascender en el mercantil mundo del futbol.
Gane o no gane mañana, yo guardo la imagen de un hombre común cuyo mayor talento fue superarse en aquello que fueron sus circunstancias. Un portugués sin miedo de existir.  


(Excerto do poema “Ronaldo, o Estrangeirado” de 2014)


A propósito dum post dum reconhecido escritor português

Acabo de ler, escrito por um reconhecido autor português, que "ninguém, salvo raras excepções, antes dos cinquenta é um escritor sério", ou "a sério", não sei precisar e não me apetece reler o post.
Desconheço as suas excepções, mas imagino que pensará o mesmo para outras manifestações artísticas ou, até mesmo, para actividades profissionais.
Os anos vão passando e sinto que a idade não é um posto. Mesmo para as raras excepções.
Reconheço-lhe razão na necessidade de ter "biografia", até mesmo tempo (o Umberto Eco afirmava que só se dedicou mais à escrita quando os seus filhos já não lhe exigiam tanta atenção), anos de leitura, mas reconheço-lhe no tom, espero enganar-me, uma arrogância com a qual não me quero reconhecer. Ser escritor e ter espírito de crítico literário deve ser uma tarefa árdua,  fodido mesmo. Quando é que se é qual? 
Há beleza na ingenuidade. Há arte ingénua, "naif" não é? Há uma esperança na juventude que ainda não escreveu o suficiente para ter estilo ou, quando se escreve muito, para se copiar a ela própria.
Vou-me deitar a sentir-me mais velho e a deleitar-me com a escrita da juventude. Séria ou pouco séria, o que é que seria do futuro sem maçaricos ridículos a darem os primeiros passos e das mentes geriátricas que não se apercebem que estão a cair no ridículo?

quinta-feira, julho 07, 2016

quarta-feira, julho 06, 2016

Zamora, "Todos llevamos una ciudad dentro"

Zamora. Passeio à chuva de Julho

Chego a Zamora, revejo a papelada para amanhã, e ponho-me a caminhar pelas ruas paralelas e perpendiculares ao local onde estou instalado. Gosto de andar assim, sozinho no meio do dia-a-dia de gente alheia ao meu quotidiano, a olhar para os recantos tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes da cidade onde vivo. O céu não enganava ninguém. Anunciava chuva e trovoada desde o início da tarde. Apanhou-me próximo dum edificio público à espera de ser inaugurado na companhia de duas simpáticas senhoras idosas que partilhavam um chapéu de chuva transparente. Ali nos abrigámos os três enquanto esperávamos que escampasse. É tão fácil meter conversa, ainda mais se o tempo está a jeito disso, e estas duas senhoras, uma aqui de Zamora, a outra saudosa da cidade condal, lembraram-me como "isto está difícil para os da minha geração e para os que aí vêm". Lembraram-me isto, com um estoicismo como que os seus anos vindouros não interessassem, não fossem importantes para este país, ainda por cima uma delas com um filho adulto a cargo e um neto menor.
Deixou de chover tão intensamente e despediram-se de mim com uma cordialidade castelhana diferente da do sul à que estou habituado. Uma delas disse-me: "Tenho de ir para casa porque deixei uma janela aberta!".
E lá foram, juntas, passos em comum, o mais digno deste país que vive dos seus votos mas que as esquece mal estes saem das urnas.
Decidi pôr-me à chuva de Julho para lavar-me do calor extremo do meu sul. Caminhei bastante em direção ao Douro e olhei-o de olhos encandeados a correr para Portugal. Na rádio, e nos ecrãs futebolísticos das esplanadas zamoranas, a seleção das quinas chega à final do europeu de futebol com um percurso repleto de mau futebol mas cheio de sorte pouco habitual, o que me faz pensar que sorte não protege só os audazes.
Um pouco antes da meia-noite, volto ao hotel, de onde vejo um parque infantil pouco apelativo à primeira infância, e deito-me com Claudio Rodríguez e a sua cidade na cabeceira.
Uma das senhoras disse-me que Zamora tem pouco para oferecer aos seus e aos de fora. Não quero acreditar. Espero que não tenha razão. Por ela e por este dia que finaliza aqui, única e simplesmente, porque Zamora existe.

terça-feira, julho 05, 2016

Vivendas de luxo

Nunca imaginei ver uma crise económica como a que se arrasta desde 2008 até hoje. É verdade. Apesar de ter conhecido a precariedade, paliada pelo apoio paternal, nunca imaginei que a sociedade que me educou nos valores de casa, carro e electrodomésticos vários num trabalho efectivo fosse tudo menos estável. Via a maioria assim, também eu queria ser maioria numa época em que a minha vida profissional não me permitia sequer alugar casa para viver independente. 
Quando comecei a trabalhar com um vínculo mais estável, esse que negam aos milhões (e a alguns dos melhores)  por este mundo fora, também persegui a casa, um carrito melhor que o Clio a zumbir o alternador, e electrodomésticos vários. O primeiro foi uma máquina fotográfica.
Podia ser aceite pela maioria, essa classe média de centro-direita, quando tem boa memória pisca o olho à esquerda, e pagar ao banco todos os meses esse estatuto. Assim foi e assim é.
Fiz tudo para entrar neste clube. Fiz empréstimos (talvez algum dia precise outro), comprei casa e electrodomésticos. Mas nunca deixei de ser medroso. Sentia uma espécie de casamento, como o que fiz com a minha mulher, mas sem amor. Estava em núpcias e não sentia o afecto do banco que me exige seriedade ao fim do mês, rígido se há um imprevisto, a casa é tudo menos minha, quanto muito sou eu propriedade da minha casa que me escraviza com manutenção, limpezas semanais, mensais, para não escrever diárias, com o reforço de umas cartitas simpáticas com a boa nova dos impostos. É assim e já está, sem nenhum tipo de remorço ou hipocrísia deste escriba.  Ainda bem que posso e aguento o que os economistas denominam taxa de esforço.
O que acontece é que já entrei muito tarde neste clube. Não sou um puro sangue de classe média. Trabalhei demasiado para ver que o médio ilude bem o operário, legitima o político, assegura as finanças do rico e é indiferente à miséria do pobre. O médio consome e é combustível da democracia. Há um equilibrio imperfeito mas, como tantas vezes o ouvi dizer a sábios do bairro, as coisas vão indo.
O problema reside na mochila que trago às costas, na insatisfação material que me contagia, no andar a pé e de bicicleta junto à realidade construída à base de hipoteca, com mais estradas que passeio, onde importa mais o veículo do que o peão.
Não tenho moral para opinar ou criticar a forma consumista como o meu semelhante privilegiado, sem guerras, exílios, ditadura, Daesh, Estado Islâmico ou outro qualquer credo inimigo dos direitos humanos, vive, porque eu vivo assim e reconheço-me tristemente insatisfeito nessa condição.
Hoje ia com os meus filhos pela rua e outro pai tentou-me vender qualquer coisa, tipo lenços de papel ou pensos rápidos, para sobreviver. A minha forma de sobreviver foi desconfiar, apesar de nestas palavras desconfiar de mim mesmo como exemplo de desumanidade.
E do outro lado da avenida, enormes catterpilars alisam o chão para, como diz o enorme outdoor, "Vivendas de luxo, compre já a sua!". Será que alguém nos pode vender uma consciência de que há algo aqui que não encaixa? Agradecia. Distraido, ponho-me a ver se na urbanização há uma gelataria, com o calor agradece-se e aqui não há risco de atentados suicidas.

Espuma (Claudio Rodríguez)

Foto de Fernando Eguia


ESPUMA

Miro la espuma, su delicadeza
que es tan distinta a la de la ceniza.
Como quien mira una sonrisa, aquella
por la que da su vida y le es fatiga
y amparo, miro ahora la modesta
espuma. Es el momento bronco y bello
del uso, el roce, el acto de la entrega
creándola. El dolor encarcelado
del mar, se salva en fibra tan ligera;
bajo la quilla, frente al dique, donde
existe amor surcado, como en tierra
la flor, nace la espuma. Y es en ella
donde rompe la muerte, en su madeja
donde el mar cobra ser, como en la cima
de su pasión el hombre es hombre, fuera
de otros negocios: en su leche viva.
A este pretil, brocal de la materia
que es manantial, no desembocadura,
me asomo ahora, cuando la marea
sube, y allí naufrago, allí me ahogo
muy silenciosamente, con entera
aceptación, ileso, renovado
en las espumas imperecederas.

Claudio Rodríguez