domingo, novembro 27, 2016

Viajante ou turista?

Dentro de mim sempre soube a resposta. Talvez nunca a tenha justificado por insegurança, por não parecer demasiado intelectual. Aí tenho outra lição a guardar.
Tive a oportunidade de questionar um grande escritor de viagens, o Gonçalo Cadilhe, onde existe a fronteira entre o viajante e o turista. O autor, a quem seguramente já fizeram esta pergunta mil vezes, não distingue um do outro, assume-se ambos, porque são o mesmo. Admite, no entanto, um pequeno matiz: a curiosidade. Esta característica talvez previligie um viajar mais autêntico.
O mundo,  esse "lonely planet" mapeado e com guias recomendados, não traz certezas absolutas, traz reflexões que nos remetem para a insignificancia do ser e do estar humano.
"Lá por gostares de foigrat não significa que tenhas de conhecer o ganso" relembrou um Gonçalo que teve a humildade de comparar o seu registo literário ao do Quim Barreiros. Simples e assumido para os outros, aqueles que na viagem já vão na mochila, aqueles cuja viagem é o livro da viagem.
Aqui podemos ter "cagança", dar classe às palavras, preterir umas a favor de outras, e classifico o Gonçalo de viajante e de um ganso com quem não me importaria conversar e conhecer melhor as rotas de voo...

sexta-feira, novembro 25, 2016

A não ubiquidade do corpo

A não ubiquidade do corpo não me permite estar na materna Évora a celebrar 30 anos de Património Mundial da Unesco, não me permite estar em Leganés a abraçar o meu “hermano” José Antonio Santiago Sánchez pelo seu “Habitar” e, igualmente, não me permite estar em San Vicente a recordar a lealdade ao homem, e ao poeta Ángel Campos, que tanto admiro a um grupo de amigos e à da Asociación Cultural "Vicente Rollano".
Mas a intenção é omnipresente, sobretudo a boa, essa desejada aos demais, que verdadeiramente sobrevive às limitações do nosso estado físico...

La no ubiquidad del cuerpo no me permite estar en la materna Évora celebrando 30 años de Patrimonio Mundial de la UNESCO, no me permite estar en Leganés abrazando a mi “irmão” José Antonio Santiago por su “Habitar” y no me permite estar en San Vicente recordando la lealtad al hombre, y al poeta Ángel Campos, que tanto admiro a un grupo de amigos y a la Asociación Cultural “Vicente Rollano”.

Pero la intención es omnipresente, sobretodo la buena, esa deseada a los demás, que verdaderamente pervive a las limitaciones de nuestro estado físico... 



quinta-feira, novembro 24, 2016

Limpeza...

O meu pai morreu sem fechar o livro à cabeceira. Quase não via e acumulava volumes de papel reciclado em solidão.
O meu pai morreu sem deixar-me nada mais que livros.
Tenho de os fechar. Muitos talvez queimar, tantos outros doar. O meu pai morreu bolorento mas orgulhoso de só nos amar mais a nós do que as palavras. E morreu sem deixar-me nada mais que palavras.
Cabe-me a tarefa de limpar a sua última morada. Tanta papelada, tanto nada. Ninguém mais é capaz. Eu também não mas ele ensinou-me a não me queixar, a não me isolar em sentimentos que tantos outros também têm e não se justificam com eles.
Há montes de restos do meu pai aqui, acumulados em pilhas ou por ordem nas estantes do escritório, segundo o formato e não tanto o conteúdo. Sento-me a olhar para as nossas árvores, para as nossas vidas, podadas como se pôde. Há pouco do avô, algumas fotografias, memórias do tempo da sua guerra. Um relógio.
Corto o cordel de uma pilha de papel de jornal. Folheio o cheiro a humidade e decido desfazer-me dele na salamandra.
Porque é que teve de ser assim? Porque é que te dedicaste tanto a mim?
Quem é que me vai abraçar e aconchegar na cama?
Quem é que vai conversar com o homem que criaste?
Cai a lágrima em direção ao chão outrora nosso. Cai antes na mão, no punho entreaberto da navalha que, antes de minha, antes de tua, fora do avô.
Germina a semente no coração. Com esta lágrima. Agora sei porque tantas vezes sentias o meu peito, apertavas contra o teu.
Posso despedir-me pai.
Não quero nada. Deste-me tudo em vida. Vou fechar todos os teus livros. Só assim posso abrir o meu.

quarta-feira, novembro 23, 2016

Reconciliado com o passado?

Ó homem imperfeito! Idiota da história! Estúpido desencontro com a natureza! Como te podes reconciliar com as barbaridades do passado, se no presente te posicionas outra vez errado? 
E o pior não é estares enganado, é andares para aí a apregoar que és sábio!

Évora, a terra da alma (30 anos, Património da Humanidade)

Apercebi-me de Évora ser o que é quando tinha 5 anos. Estava um senhor, creio que funcionário camarário, debaixo dos arcos, esfregando a escova áspera palavras já suaves de ordem dum pós-revolução. Aquilo custava-lhe imenso, e à minha curiosidade também, mas via como cuidava com brio o granito histórico da minha cidade. “Vem cá a Rainha de Inglaterra” disse meu pai à minha estupefação em frente do escadote aberto em hora de expediente. Sem grande ruído nem furor, esse foi primeiro contacto que tive com um argumento shakespeariano, com uma figura da realeza sem ser a dos contos dos irmãos Grimm. Há tanta luminosidade nesta minha recordação... na minha cidade…

Aprendi com Claudio Rodríguez que todos levamos uma terra dentro, que nos alenta, que nos acusa e que nos salva. É a terra da alma.

Nasci ali e em mim habita cada rua, cada casa, cada passo, saltos e trambolhões, cada eborense guardião desse templo de capitéis de luz ao qual regresso tantas noites em sonhos. Ali me ajoelho, leal à sua história, apesar de Évora não mo permitir. Em solo com reminiscências feudais, esta cidade, erguida por três culturas, ensina-nos a dignidade de, no latifúndio do espírito, mandarmos apenas nós.


Há 30 anos atrás, atribuiu-se-lhe o estatuto de Património da Humanidade e de ponta-de-lança no que respeita a atribuições deste tipo no Alentejo. Envaidece-me essa espécie de “Liga dos Campeões” da UNESCO. Porém, para quem se sente eborense, é o seu andar, caminhar, passo a passo, pela vida da cidade, o verdadeiro património, para mim, bastante mais imaterial que material.

domingo, novembro 20, 2016

"Habitar" de José Antonio Santiago

Enquanto andamos por este mundo físico, tão sensível à dor como também ao tato e ao abraço, habitamos o nosso corpo e invadimos, de inúmeras maneiras, o habitat de outros.

A amizade, a camaradagem, que a vida me tem vindo a brindar tem muito de “habitar” em mim, sentindo, com gratidão, a reciprocidade no outro em tons de estima e apreço mútuo, ausente de bajulações, interesses ocultos, imperando o respeito e muita sinceridade.

Escrever sobre JAS é escrever sobre um verdadeiro “hermano”, sem plasma nem biologia, mas com o habitar no apartamento em cima do meu, numa época que ficará para sempre num limbo do que somos e ao qual sempre podemos recorrer, se a memória assim o entender.

Esta semana recebi pelo correio, num envelope anacrónico (sem siglas de empresas multinacionais de venda on-line), o seu mais recente livro no qual, quis este mundo físico, este tempo, este companheirismo doméstico, que também eu habite. 

Obrigado José. “Gracias mi buen hermano”. Mesmo longe, estás e fazes-me melhor. Ambos somos tanta coisa…  Queira a vida que sejamos essa lealdade bela, sem complexos nem nexos, até um de nós deixar de “habitar” este solo indistinto de fronteiras ou pátrias.

Ramón Gómez de la Serna acreditava ser a amizade mais do que motivo para enaltecer o génio. Neste caso, nem se justifica, não é necessário, é evidente.

Este livro supera o ensaio sobre arte poética. É o génio de um intelectual, a argumentação de um filósofo vivo contaminada pela alma de poeta, o habitat natural de um ser humano cuja existência obrigou a abandonar a timidez, a inibição das nuvens de um dia chuvoso, e a deitar-se ao brilho do sol mais formoso… e, simplesmente, “Habitar”.

Eis a sinopse (em português) desta obra que, no dia 25 deste mês, será apresentada em Leganés:

“Os dois textos que compõem este volume encontram-se presididos por uma ideia comum. A imprescindível necessidade humana de “territorializar” e “habitualizar” toda a sua existência. Desde a própria linguagem (“Poetizar ou a necessária superstição da linguagem”), até à sua mais própria “quotidianidade” (“Casar a casa”), o humano encontra-se marcado biológica e biograficamente pela sinalização espacial e temporal. Estar marcado significa também – por isso mesmo – que em toda cultura e situação histórica, o ser humano precisa de selar o seu espaço e o seu tempo: vestígios, ciclos, palavras ou datas são os limites adaptativos e de sentido desde o qual todo habitar humano pode, dessa forma, projetar-se ou restituir a sua própria condição”.


Sexualidade galáctica

Do pudor excessivo do passado, passámos a uma sexualidade de normalidade explicita. É usual verem-se conteúdos de teor sexual, material, sem resíduos de afeto, em qualquer lugar e em qualquer hora do dia.

A explicitude desta sexualidade navega pela rede sem pensar em privacidade nem futuro. A libido, de tão imediata, caí flácida em segundos. Eros substituído por euros. É possível desfrutar duma sexualidade sem nos sentirmos oprimidos pelo império da imagem, esse devastador do império dos sentidos?

Nunca conseguiria descrever bem uma relação sexual no papel. Excitar com a pena, lubrificar estranhas ou erguer falos com verbos bem escolhidos e conjugados. Quando leio sobre géneros literários, ou cinematográficos, cujo motor da intriga é o sexo, penso não ter glamour para isso, nem sombra de talento que se aproveite. 

Pode ser porque tenho uma sexualidade de revistas pornográficas dos anos 80, partilhada com os amigos do bairro, uma imaginação galáctica, de VHS, fruto do biquini da Carrie Fisher no "Regresso de Jedi", ou sinta o vazio do "fim da aventura".


Não tenho medo de partilhar o que me faz sentir maduro com os meus sentidos e desejos não ocultos a quem de direito. Tenho medo de ver que nos estão a vender, e nós a comprarmos, ser normal abdicarmos da nossa privacidade e converter a nossa sexualidade, pervertida de performance, como perfil de uma rede social de rasto perene.

E sei que esta entrada neste diário se escreveu a propósito duma visita a uma exposição do universo "Star Wars" e um encontro imediato com o biquini da minha imaginação nessas tardes de Verão em que o video só funcionava com os botões "pause", "play", "rewind" e "foward"... Estarei velho? De certeza. Conservador? Não. Não poderia. Se alguém encontrar essas k7s de video ficaria a saber, na sua fita gasta, o porquê.


Vê-se logo quem é este gajo, não se vê?




(Fonte: b3ta.com)

sábado, novembro 19, 2016

Plantar

ao plantarmos
obcecamo-nos com o crescimento
da árvore.
sem querermos, as raízes aprofundam-se em esquecimento.

al plantar
nos obsesionamos con el crecimento del árbol.
sin querer, las raíces
se profundizan en el olvido.

sexta-feira, novembro 18, 2016

Ao riso do amanhecer...

Triste parque esquecido...

Na cidade, os espaços dedicados às crianças costumam ser os parques infantis. É frequente, em várias zonas de influência, encontrar este mobiliário urbano gasto pela criançada e vandalizado pelos "nem, nem". Escorregas, baloiços e balancés, são o contacto que alguns dos nossos filhos têm com a natureza biomecânica dos seus corpos.
Não gosto de parques infantis. Se vou é porque não há alternativa ou porque é necessário ar da rua. Concordo com o que me diz uma colega de trabalho, uma analogia urbana e perfeitamente entendível para o citadino comum, "los niños tienen que sacarse a la calle a diario como los perros". Poucas vezes estamos de acordo.
Este Verão, a escassos metros do parque infantil da nossa área de residência, inaugurou-se uma infraestrutura invejável dedicada à pequenada, uma infraestrutura centrípeta que suga as brincadeiras para além do bairro e faz com que, miúdos e graúdos, ali se acumulem em uniformidade.
A empurrar o carrinho do mais novo e de mão dada ao mais velho, passei de largo, com a sentença lida de não haver tempo para nos juntarmos à maralha. Foi nesse momento que o meu filho mais velho me disse "papá, o parque sente-se triste".  Desconcertado, não o entendi à primeira. "Este não papá, o outro que já não tem meninos".
Não me atrevi a estragar tão belo sentimento de infância. Apertei-o contra a minha perna e anca com os seus cabelos arrepiados entre os meus dedos. "Não te preocupes, qualquer dia vamos lá fazer-lhe uma visita".

terça-feira, novembro 15, 2016

Netos dos filhos, dos filhos da ira

Há escassos dias celebrou-se o 98 aniversário do armistício da Primeira Guerra Mundial e o meu pai esteve, com a sua Liga dos Combatentes, presente nas cerimónias oficiais. O meu bisavô Umbelino combateu nesta guerra, o meu bisavô Leopoldo também, esteve desaparecido, foi prisioneiro de guerra e voltou "esgaseado" pelo gás mostarda das trincheiras. Os seus filhos, os meus avós maternos, nunca souberam que este fora o primeiro grande conflito à escala mundial, era, para a visão possível do mundo em pleno salazarismo, a guerra de França. Curiosamente, ambos, a minha avó Helena e o meu avô João, viram refugiados e ouviram canhões da Guerra Civil Espanhola, souberam doutra guerra em França, e de uns alemães ávidos de tungsténio português, despediram-se dum filho a embarcar para Angola e outro para um exílio de cruzeiro, pois já nem as suas mãos escaldadas na infância o livravam de ser carne de canhão. As guerras não acabaram por aqui. Nem acabarão. Nunca souberam história, nunca estudaram história, eles foram a minha história e enquanto viver recordá-la-ei como homenagem... 
A guerra está no passado de quem me criou, com quem vivi e ainda faz parte do que vivo enraizado em Portugal. Sou um herdeiro envergonhado de não poder aliviar o sofrimento dos meus bisavós devido aos gases que lhe queimaram pulmões, pele e equipamento de pouco mais que serapilheira. Sou os olhos envergonhados, por não ajudar os espanholitos a atravessarem a fronteira e a chegarem ao Atlântico, cheios de medo da GNR. Sou o camuflado e as mãos suadas a segurarem a G3 que me baleou de rajada uma juventude que não saberei entender nos meus filhos sem trauma e stress. 
Sou o filho mais novo do fim do século XX, a quem as gerações mais velhas não lhes agrada, nem levam a sério, o meu desapego e a descrença num mundo utópico de paz sem recurso à violência. 
Voltei ao século passado, ao passado familiar, graças a um jovem poeta da minha geração com quem partilho a lírica da primeira guerra mundial, o atrevimento de Shackelton, os despojos da modernidade que nos impõem. A ouvir Ben Clarck a recitar, aceitei a condição  de netos dos filhos, dos filhos da ira.

segunda-feira, novembro 14, 2016

"I love gazpacho, I not love freedom" (www.politocracia.com)

Entrad en "Dentro del Secreto", nuestra traducción (Pedro L. Cuadrado y Luis Leal) del viaje a Corea del Norte de José Luís Peixoto,  publicado por Xordica Editorial. ¿Se comerá gazpacho en Corea del Norte?

Horizonte em ti...

Um desenho de infância...

Um desenho de criança é um dos melhores recordatórios de amizade pura e desinteressada. O meu filho mais velho trouxe um hoje para casa. É do seu primeiro melhor amigo. O meu foi o Carlos. Tenho saudades dele, de subirmos os postes das balizas da escola como amigalhaços e imitadores de bombeiros...
Fala-se tanto do primeiro amor, dá-se-lhe tanta importância e, por vezes, um teor ultraromântico. Entre o meu primeiro amor e o meu primeiro grande amigo, fico com o segundo, esse com quem não nos importamos de partilhar o primeiro grande amor...
O Carlos e eu assim o fizemos, a Ana Albano recebeu cartas escritas no amor infantil da primeira pessoa do plural. Obrigado ao Fernando, irmão mais velho do Carlos, por escrever sentimentos idiotas de dois meninos que não imaginavam um dia descobrirem que idiotice é coisa de adultos.

domingo, novembro 13, 2016

Blue board and chalk...

Fim da semana

Estou cansado. Pouca paciência tenho. A semana termina e tenho a certeza de ter sido das mais determinantes que vivi na minha vida.
Primeiro, burocracia medonha e nada esclarecedora do que um gajo anda para aqui a existir.
Segundo, trabalho e local da labuta em clima de conflito entre pares. Tento abster-me do ridículo da situação, da falta de relações de afecto, sexuais mesmo, de alguns que canalizam a sua energia vital para isso. Sinto vergonha alheia por eles mas confesso estar já a afetar-me a sua conduta.
Terceiro, o Trump ganhou as eleições do país mais influente do mundo e tenho a certeza que isso vai afetar-nos negativamente a todos. Uso um eufemismo para não cair em pessimismo reforçado por uma intuição aguda.
Quarto, apresento o meu trabalho a gente disposta a prestar-me atenção. É bom para o ego e para a minha ética de trabalho, trabalhar arduamente como forma de respeito por aqueles a quem me dirijo. Na escola, nem sempre trabalho com este perfil de gente...
Quinto, estou a organizar-me para terminar outra etapa académica. Mais do que um título, é uma questão de determinação e vontade de que algum conhecimento não voe sempre com o vento...
Sexto, morreu o Leonard Cohen. Perdi o poeta da cassete original encontrada no banco da automotora e trazida para casa pelo meu pai. Talvez o único suporte de poesia por ele me oferecido enquanto jovem.
Sétimo, fiz gala de ser tão pouco rebuscado, fino, afinal tímido sem o aparentar. Fiz gala de ser quem sou, um tipo qualquer com muita coisa a fervilhar dentro e muita ambição de voar alto com os pés bem assentes no chão.
Oitavo, fui um pai presente mas irritado, visceral visível que se arrepende de não ser capaz de interpretar o papel do pai ausente que quando está compra o tempo com papel de notas de euro.
Estou cansado. Pouca paciência tenho. Gostava de poder rezar como quando acreditava em superpoderes divinos, milagres documentados em propaganda religiosa. Era tudo mais fácil mas mesmo assim prefiro entender estas semanas estranhas como responsabilidade nossa e não de Deus. Quanto muito, esta semana, pode ter sido vitoriosa para o Deus envangelista dos apoiantes do Sr. Trump, o tirano do penteado à base de laca.
Vou construir um muro ao redor de mim esta semana agora a começar. Prometo derrubá-lo quando tiver o exército preparado para proteger-me de mim mesmo.

quinta-feira, novembro 10, 2016

Plasencia, 9/XI/2016

Passear na "Plaza Mayor" e ver o sol a pôr-se por entre os edifícios frios é um prazer para o meu deambular limitado pelos compromissos de hora marcada. Se vou escrevendo é também graças a sítios como este, generosos e acolhedores.
De tão castelhana que é, fez-me lembrar as ruas da minha cidade, aquela que me ensinou a deambular. A moura Évora.

segunda-feira, novembro 07, 2016

A lenda do Galo de Barcelos (em inglês!)



É pena, mas parece que não há uma versão em português deste ótimo vídeo sobre a lenda do galo de Barcelos...





quinta-feira, novembro 03, 2016

Qué hermoso viajar, muchachos...

"Qué hermoso viajar, muchachos, qué hermoso andar
en bicicleta con la camiseta puesta
en una hermosa jornada, por un hermoso camino,
con el corazón contento y en los huesos la alegría."

De "Las rimas de Lorenzo Stecchetti" de Olindo Guerrini.
(Qué hermoso es pedalear con vosotros... mis pequeños gordos...)

“Que belo é viajar, rapaziada, que belo é andar
de bicicleta com a camisola vestida
em uma bela jornada, por um belo caminho,
com o coração contente e nos ossos alegria.”

De “As rimas de Lorenzo Stecchetti” de Olindo Guerrini [trad. Luis Leal]

(Que belo é pedalar convosco… meus pequenos gordos…) 

segunda-feira, outubro 31, 2016

"Fé" by Silvia Patricio

Asana ("Equilibrium")

"Habitar" de José Antonio Santiago (Apresentação 25/11/2016 em Leganés)

“Habitar” é dos verbos mais importantes para a condição humana que, infelizmente, se vê pervertido por um materialismo de índole economicista. “Habitar” não é sinónimo de construção nem de propriedade. É tão transitório no seu aparente imobilismo de tijolo e cimento, que nos esquecemos do habitante poder ser também o habitat.

José Antonio Santiago Sánchez sabe-o melhor do que ninguém. Ele, e eu, habita onde sempre é primavera porque o inverno não se acaba e o verão e o outono não se põem de acordo com o calendário oficial…

Lado a lado, vejo o meu filho a juntar letras em sílabas e sílabas em palavras. Antes de sequer imaginar que começaria a ler, um ano antes de que eu começara a ler, fluem-lhe frases com esforço mas repletas de naturalidade.
Tem um rosto meigo e uns olhos sinceros. Lembra-me o físico do lado Leal da família, com a capacidade de desenhar herdada do lado da mãe. Já sabe ler. É a terceira geração letrada...
O meu avô João Leal continua a definhar, o seu bisavô analfabeto continua à espera do fim da escrita naquele lar... Aqui aprende-se a ler e há amor inocente nesta rima triste com morrer...

Queixo semeado de meninice (Leiria)

Tenho o queixo semeado de barba branca. A mandíbula desleixada e com remoinhos de preguiça de pêlos a necessitarem de ser cortados ou (para disfarçar o estar-me a cagar para estas pilosidades) penteados.
É normal que os meus trinta e seis anos sejam mais que evidentes o menino, a viver em mim, esteja escondido debaixo do ar de falso pioneiro, ou peregrino, que a minha pinta vai promovendo fora de mim. 
Mas há sempre quem invista para além da barba cerrada, dos dias por barbear e não deixem de encontrar a alma imberbe vinda ao mundo sem saber para quê. Agradeço à simpática senhora do self-service, da sopa de legumes e do bacalhau à Gomes de Sá, me ter lembrado, ao tratar-me por menino, ainda não ter idade para beber café e beber vinho. Fiquei-me por um sumo de laranja natural mas, para reivindicar um queixo que não quero fino, não abdiquei do cafézinho. Sozinho, cheio, a observar este menino não querer envelhecer. 
Porra para a sementeira de canas brancas...

Honestidade

"Sabendo o que sei hoje, trocava os meus sete romances por um filho" - Valter Hugo Mãe (entrevista ao "Diário de Notícias")

sábado, outubro 29, 2016

The theory of poetry

Cortesia do grande Jorge Rosmaninho Neto, sempre a semear o ar com o seu fértil olhar... Obrigado amigo.

Ruy Belo


Esta é a medida de espanha
ó vida minha vida estranha


Ruy Belo, "Homem de palavra(s)"

quinta-feira, outubro 27, 2016

Mona Lisa

A rececionista chamou:
- D. Mona Lisa Cruz!?
Levantou-se uma pintura africana, inspirada por Da Vinci, e dirigiu-se para o gabinete do fundo onde se prepararia para a ecografia.
Estranheza só se tem quando não se sabe apreciar a composição do quadro. Aquele era real e casualmente belo no quotidiano cinzento desta semana. Não precisei de estar nas filas intermináveis do Louvre para o contemplar. Mona Lisa estava ali, acompanhada do marido a tratá-la como peça de arte única a precisar de cuidados especiais, mostrando-me que, afinal, o nome até não desfigura o ser.

sábado, outubro 22, 2016

O meu “pueblo” Valencia de Alcántara (in "Mais Alentejo"nº135, p.46)


O meu “pueblo” Valencia de Alcántara (in "Mais Alentejo"nº135)

A primeira vez que viajou até ao país vizinho a fronteira estava povoada por alfândegas e guardas-fiscais. Nem sequer imaginava um dia a poder cruzar livremente, no velho Clio, de mala cheia e, no banco de trás, para caber, uma bicicleta desmontada e não ter de abrir o porta-bagagens para declarar os escassos pertences.

Atrás deixava a geografia do Alentejo, no fundo desconhecida, e, na fronteira dos Galegos, vislumbrou pela primeira vez Puerto Roque, onde escalaria um 5 de Outubro e cairia numa cicatriz, essa dolorosa lembrança de um tornozelo partido que prefere sentir com orgulho republicano.

Adentrado em território espanhol, apercebeu-se dum recente incêndio, visível no cinzento rochoso carente do verde flora de antanho. Não sabia o que pensar. Esperava que devido ao facto de, entre 1644 e 1668, esta raia ter sido portuguesa, a mesma não tivesse contraído o mal crónico dos fogos florestais.

No semáforo das Huertas, experimentou o prazer de cumprimentar o banco de homens sentados à porta do bar. Seguiu em frente, pela N521, mais alguns quilómetros até à entrada do “pueblo”.

A noção de “pueblo” em português pode traduzir-se numa localidade mais pequena que a cidade, abarcando a dimensão da vila e da aldeia, e Valencia de Alcántara tinha-lhe passado de raspão no mapa das estradas a caminho de Cáceres, contudo ali estava, a tirar mochila e sacos do carro, para começar uma nova vida laboral na escola secundária da terra.

À semelhança da última capital de distrito portuguesa por onde passara na viagem, não se via muita gente nesse primeiro domingo de Setembro. Estacionado no parque das “Ranas”, subiu com a tralha para o apartamento alugado ao Sr. Maneli (um bom amigo a quem deve uma crónica) e terminou a tarde absorta na varanda virada a pôr-do-sol.

Saiu de casa. O recolhimento da tarde fora substituído pelo alarido dum serão de gente a falar, a rir, a comer, a tomar a sua “cañita” ao balcão de um bar ou numa das muitas esplanadas. As crianças corriam pela praça e brincavam no parque com uma alegria despreocupada à qual não estava acostumado no outro lado da fronteira.

Sentia a mudança. O sotaque anunciava-lhe a condição de estrangeiro cuja pinta confundia a procedência de jovem duma cidade do interior português. Caminhou só pelo Bairro Gótico, subiu ao castelo e parou no Rocamador, onde se celebrara a boda régia de Isabel de Aragão e D. Manuel de Portugal. Aí lembrou-se das vinhetas duma agradável BD, lida há pouco, sobre “Histórias da Raia”.

Regressou tarde, ainda acompanhado pelo movimento da rua. Queria descansar o suficiente para se levantar cedo e apresentar-se com boa cara na escola. “Hola, soy Luis, el nuevo profesor de portugués”.

Não foi preciso lembrar-se da canção do Sérgio, era o primeiro dia do resto da sua vida, dum contrabando de afectos que o levaria à Fontañera, a El Pino, à Aceña, ao Jiniebro, a toda essa “campiña” que, cada dia 15 de Maio, celebra S. Isidro, o Lavrador, vestida a rigor e com carroça a condizer.

Não são muitos os portugueses a adoptarem um “pueblo”. Em Portugal não se ouve tanto dizer ao fim-de-semana, num feriado feito ponte (vá lá, talvez nas férias grandes, mais a norte do país), “vou para a minha aldeia, vila…”. Seria pouco provável uma campanha de marketing, como a que fez aqui ao lado uma famosa bebida isotónica, ao propor-se pôr em contacto “pueblos” a necessitarem de gente e gente a necessitar de “pueblos”. Em Espanha, o amor e regresso ao “pueblo” perpassa gerações e não se resume ao berço, vive-se.

Hoje já não está em Valencia de Alcántara. Sente-se afortunado por aquele “pueblo” o ter deixado ser o seu durante sete anos. Agradece-lhe por, ao ser de cidade, poder sempre dizer “Valencia es mi pueblo”.

Outra vez com herpes literários

É por estas pequenas coisas que ainda aturo o ego do Lobo Antunes: "(...) Para sempre, porque a amizade de dois homens, tal como o herpes, é para toda a vida. 
É que os homens, quando de facto o são, estão condenados a entenderem-se. Meu camarada, meu companheiro, meu mano para sempre." (ao Ernesto Melo Antunes)
Se é o génio cuja escrita mudará para sempre a literatura portuguesa não sei. Para mim é "como o herpes". Há mais de uma década que me rebenta a boca todas as semanas.

sexta-feira, outubro 21, 2016

"Los espistolarios sirven para pegarse un tiro con la pistola que hay en su título" - Ramón Gómez de la Serna (in "Greguerías", 1940-1943)

quinta-feira, outubro 20, 2016

"O sorriso do cão" - Crónica de António Lobo Antunes (in "Visão", 13.10.16)

"(...) O problema do cão é que vai obrigar-me a vasculhar nos caixotes à procura de ossos enquanto ele espera, comovido, um resto de tutano, ferrando os dentes que ainda lhe sobejam no que ele imagina uma sobra de carninha que quase não há e da qual, se houvesse, eu aproveitaria os últimos fiapos. Por aqui se depreende que escrever crónicas é um trabalho não apenas penoso mas terrível de dificuldade e persistência.  Se, por exemplo, eu falasse de política seria canja mas não posso porque a minha mãe ensinou os filhos a não se sujarem, era uma mulher honesta e detestava porcarias."

segunda-feira, outubro 17, 2016

A linha da vida

Se a vida for como uma linha desenhada num papel branco, um risco com princípio e fim, em que parte me encontrarei? 
Pela idade contabilizada no bilhete de identidade, espero encontrar-me uns restos de tinta, ou de antracite se se desenhou a lápis, antes do meio do traçado. 
Irwin Yalom, psiquiatra e célebre autor do "O dia em que Nietzsche chorou", usa esta analogia linear com os seus pacientes, exigindo-lhes uma localização cronológica e uma reflexão no baú dos remorsos. 
Não tenho muitos, mas tenho alguns, quase todos relacionados com perdas de tempo e com condutas pessoais que deveriam ter sido melhores como ser humano. Felizmente, não se tratam de remorsos feitos em insónias. 
Conhecermo-nos mais ou menos ajuda. Não tenho medo de reconhecer a minha vergonha nem as minhas limitações. 
Hoje cruzei-me com uma vergonha que me moldou e que se silenciou com o tempo. Quando era adolescente tive uma paixão como tantos outros clientes da Clearasil. Apaixonei-me e via na outra pessoa tudo aquilo que a falta de maturidade, o impulso sexual, o idílico romântico dos 17 anos te fazem pensar que é aquela e será eterna. 
Atirei-me de cabeça, baixei a guarda, abri os cordões à bolsa de moedas de mealheiro e tentei ser o mais encantador que um neto de analfabetos e filho de trabalhadores podia ser. Até pensava ter um look que ajudasse à conquista, a essa lenda de paixão a ondular nos meus cabelos louros. A verdade é que nunca fui muito confiante no que concernia a assuntos do sexo oposto, mas desta vez ia ser diferente, gostava da chavala a valer e ela correspondeu com charme, sedução e uns quantos serões de Verão de "curtes". 
A coisa não deu. Ela não estava virada para um "Brad Pinto" ridículo, pouco educado (a dizer "a gente vamos") e sem garantias dum futuro imediato interessante a vislumbrar desejos futuro. Conheci a minha primeira insónia. Derrotado na cama calorosa de Agosto, enrolei-me ensopado nos lençóis da vergonha e fechei para sempre a frustração de não ter sido aquela. 
Fui ao tapete muitíssimas mais vezes, inseguro mas atrevido, tentei viver o momento como me foi possível. Encontrei o amor e a reciprocidade e abraço-a todos os dias. 
Dessa época ficou essa vergonha, a de ter sido recusado. Sei que não era o indicado, que não encaixaríamos. Doía-me sentir a diferença, aquela que alguns do seu entorno apontavam a dedo, "ele não é do teu nível, do nosso nível"... Hoje esses que apontavam estão em cargos de poder político em Portugal. Por acaso são sociais-democratas mas podiam ser de outro partido qualquer. 
Como o Nietzsche, cujas lágrimas terão tido sífilis, o que não me matou fez-me mais forte. Mas tive vergonha, muita vergonha. De onde vinha, da humildade dos meus, da sua iliteracia, do nosso carro, de ter de dar serventia de pedreiro ao meu pai, de casa, do bairro, das minhas roupas, de mim. 
Hoje envergonho-me da minha vergonha. Sei o nível que tenho e gosto de não ter o mesmo nível dos que tão bem sabem apontar.

O monge e o gato ("photo by Jasper Flemming")

O monge e o gato

No mosteiro havia apenas um gato. Não tinha dono apenas um monge tratador que, para além de tratar da barriga do felino, cuidava com paciência de encinho o jardim zen.

O gato gostava de apanhar sol num dos grandes seixos trazidos do ribeiro, ali mesmo no meio do jardim, deixando um pequeno rasto de patitas atrevidas na fina areia, lavrada, ordenada e simétrica pelos dentes do encinho do encarregado monacal. Esta presença gatuna não ajudava à concentração do monge tratador, chateava-o frequentemente, talvez por não conseguir acariciar a natureza do animal.

Um dia, ao arar a suavidade do jardim, viu como, pata ante pata, o gato desafiava a sua presença e se sentava a olhá-lo desde o centro do areal. Pensou para consigo mesmo ao ver-se fitado por aquele verdejante olhar: “Ainda por cima desafia a minha presença, eu que sou quem lhe dá de comer!”.

O momento durou o tempo que o gato quis que durasse. Como se estivesse farto dos pensamentos inúteis do tratador, pisou outra vez a areia em direção ao indignado monge.

Parou a meio e defecou no jardim sem geometrias floridas.

O monge não soube se teve naquele instante o seu quê de zen ou se foi posteriormente, quando foi buscar uma pá e apanhou as provas daquele momento. 

domingo, outubro 16, 2016

O meu passo

O meu passo é firme e o firmamento
não se afunda em areia movediça.

A terra não treme e o tremor
não conhece medo nem esperança.

Quando caminho, é um romeiro
quem caminha.

Quando descanso, é uma planície
que descansa.

O meu bastão é um reduto de solidão.
Governo-o só, amparado pela multidão.  

sábado, outubro 15, 2016

A primeira aula de condução ao colo do meu pai

Também o meu pai me sentava no seu colo e me deixava controlar o volante para estacionar o velho 127 debaixo do telheiro de zinco do nosso quintal. Hoje, em comum temos o facto de termos dois carros antigos e um filho no colo. De carácter, sou mais aventureiro que o meu pai e hoje metemo-nos numa estrada de terra no Garro de Cima... Para trás ficou uma nuvem de pó, um sorriso de criança a sentir-se aceite no mundo adulto e um adulto a recordar o colo do seu pai...

A vida (Mário Quintana)




A VIDA

A vida são deveres, que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já é Natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida...

Quando se vê, passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado..
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava
o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca
dourada e inútil das horas...
Seguraria o meu amor, que está a muito à minha frente, e diria
EU TE AMO...
Dessa forma, eu digo: não deixe de fazer algo que gosta devido
à falta de tempo.

Não deixe de ter alguém ao seu lado
por puro medo de ser feliz.

A única falta que terás será desse tempo que infelizmente...
não voltará mais.

Mario Quintana 




quinta-feira, outubro 13, 2016

Bob Dylan, Prémio Nobel da Literatura

As únicas artes cujo número sei que ocupam no “ranking” artístico são a 7ª (cinema) e a 9º (banda desenhada). Os suecos outorgaram hoje um Nobel da Literatura que pôs para aí os “ratings” das artes às avessas… 
O D. Dinis que sabia trovar queixava-se que os provençais só o faziam no tempo da flor, já o trovador Bob Dylan fê-lo uma vida inteira sem ter medo de “bater a umas quantas portas”. As da eternidade escancarou-as em pleno século XX, hoje parece que foram as da instituição literária… O Martín Codax, o Nuno Fernandes Torneol, o Pero Meogo e até o Mendinho estão felizes com o galardão. A partir de agora vai ser mais fácil legitimar o estudo da lírica galaico-portuguesa na história da literatura.
Entretanto, a ver se não morre o Leonard Cohen, está mal de saúde, e com o “ranking” artístico assim vai ser difícil fazer-lhe o obituário. 
Notícias de última hora: Desde o além, o Winston Churchill e o Sartre parece que se estão a marimbar para o assunto. Dizem que “o prémio vai ficar por aí e o estatuto de poeta, ou letrista, ou escritor, ou filósofo, ou o que quer que seja, vai continuar a soprar-se no vento. Chato mesmo é a morte do artista.”.

terça-feira, outubro 11, 2016

Mon petit garçon (Serge Reggiani)




Une vieille chanson pour Elsa: "Mon petit garçon". La voix du grand Serge Reggiani!





domingo, outubro 09, 2016

"Unbreakable"

A casualidade é um grande símbolo e tem a interpretação que lhe queiramos dar. Em inglês diz-se "everything happens for a reason" em tom tão proverbial e global para o mundo de hoje. Não sei se acredito nisso. 
O primeiro filme que vimos juntos chamava-se "Unbreakable" e quinze anos depois apercebemo-nos que o título casualmente define a liga com a qual nos temos forjado... 
Essa é a interpretação que lhe queremos dar, a razão porque tudo tem acontecido... 
Esta é uma liga composta por dois metais pesados à qual se juntaram outros elementos numa temperatura estabilizada para a durabilidade.

[nove poemas] de Ángel Campos (in "Devir#3, antologia organizada por Luis Leal)

Solo conocí la obra de Ángel Campos después de su muerte gracias a mi buen amigo José Antonio Santiago, sin embargo hoy puedo afirmar que es una de las poéticas que mejor conozco y siento por afinidad rayana… Por eso acepté el reto de los directores de la revista “Devir” para organizar la antología de su nº3. Me enorgullece su confianza como la confianza de la familia del poeta que me permitió elegir estos [nueve poemas]… También la amistad de los que me ayudaron en esta difícil (e ingrata) tarea de seleccionar poemas… Gracias


Apenas conheci a obra de Ángel Campos depois da sua morte graças ao meu bom amigo José Antonio Santiago, no entanto hoje posso afirmar ser uma das poéticas que melhor conheço e sinto por afinidade raiana… Por isso aceitei o repto dos directores da revista “Devir” para organizar a antologia do seu nº3. Orgulho-me da sua confiança como da confiança da família do poeta que me permitiu escolher estes [nove poemas]… Também a amizade dos que me ajudaram nesta difícil (e ingrata) tarefa de seleccionar poemas… Obrigado.


A Vida na (minha) Terra

Para uma família de católicos dum bairro periférico de Évora nos anos 80, a vida na terra era uma bênção de catálogo Reader's Digest e não de Deus. Esta aproximação à biologia e às teorias de Darwin era um complemento à bíblia e aos seus versículos.
Hoje ao cruzar-me com o que este livro do David Attembourgh fez por mim, apercebi-me que ele estava lá antes da bíblia. É verdade. Apesar do cristianismo herdado pelos sacramentos, o pretenso livro com a palavra d'Ele só se adquiriu já o meu corpo estava na puberdade e os meus pais eram devotos casais de Santa Maria (parece que o Guterres também foi, logo tenho algo em comum com o atual orgulho luso). 
Ficava horas nas páginas dedicadas aos tubarões e aos dinossauros, tanto era o fascínio que "A Vida na Terra"  em mim exercia. De capa dura, papel de altíssima qualidade, este livro impunha-se perante a escassez bibliográfica que a minha mãe paliava com o "Sexus" do Henry Miller, o "Sangue na Areia" do Ibáñez, se não me engano, "Os Deuses e Demónios da Medicina" do Namora e uns escassos mais liderados pelo "Kamasutra" da Vastsyayana. Se as vezes que folheei e li excertos deste livro fosse proporcional às minhas experiências podia anunciar-me no jornal como guru sexual. Mas aqueles desenhos indianos, atrevidos de conteúdo explicito para adulto mas ainda por descobrir para um puto curioso, não eram rivais das bandas desenhadas pornográficas que o meu tio Leopoldo me comprava nos quiosques da Senhora da Rocha e de Porches. Talvez por serem tão uni-dimensionais, e de estética quase egípcia, e isso comparado com o traço voluptuoso de inspiração Manara não sei se me desperta mais a libido ou a nostalgia.
Não tínhamos muitos livros em casa mas tínhamos os suficientes. A "Vida na Terra" era um deles... Hoje precisaria de uma edição aumentada de mim. Feito estúpido pus-me a ler outras vidas, a viver outros nomes, e já não sou o borbulhento de antes agarrado às grandes bestas da natureza... Agarrei-me a outras bestas, às que não têm desculpa por serem umas bestas... 

quarta-feira, outubro 05, 2016

Broken bones... 10 years ago...

Há dez anos atrás, quis a ironia do destino que o 5 de outubro, e a minha condição republicana, me ficasse marcado com uma bela cicatriz no tornozelo direito. 
Ficou feio, mais gordo e com menos flexibilidade do que o esquerdo, mas já não me imagino sem esse tom cor-de-rosa cicatrizado com marcas de pontos da cozedura no artelho. 
Estava com dois amigos a escalar em Puerto Roque e no horizonte avistávamos Marvão. O Javi e o Michel, amigos distantes fisicamente, mas presentes no meu coração. 
Foram meses duros de dor física. Psicologicamente também, inseguro numa nova realidade laboral, numa nova localidade, numa nova sociedade. 
Só voltei a escalar mais duas ou três vezes depois de ter partido o tornozelo neste acidente. Nem foi por medo, foi por falta de tempo, meios, companhia e até vontade. Não há trauma pós-trauma ortopédico. Há muito mais consciência de mim, do meu corpo, das minhas limitações, das minhas expectativas e do tempo que passou desde esse dia. 
10 anos é uma quantidade interessante de números numa cronologia. Uma década em que o meu corpo conheceu esta e outras limitações mas o espírito parece mais leve... 
Não me apeguei a estes 10 anos, aferrei-me a várias pessoas durante estes anos... sin flexibilidad en el tobillo pero muchísimo más flexible de espíritu... 

terça-feira, outubro 04, 2016

Júlio Pereira - Chula de Lisboa



Júlio Pereira - "Chula de Lisboa" do disco Os Sete Instrumentos (LP 1986)

Musica (primeiro disco de originais), arranjo e direcção musical de Júlio Pereira.
Participam entre outros, José Mário Branco, Carlos Zingaro e Ana Bola.




Elemento "Fogo"

Os efeitos do fogo são os mais versados, de isso não há dúvida. Do Camões, antes o Sá de Miranda, o Marlowe, o Goethe, até tantíssimos outros, há queimaduras de vários graus, carvão convertido em minas de lápis, cinzas misturadas com o pó de lares e de estradas de terra batida. 
Ardem para aí volumes de polémica, paranóias de egos, mitos de chama olímpica de anti-"fairplay", tanto combustível pacóvio, ardem muitos fios e pavios e dinamita-se tempo. 
É assim em tudo. Não apenas neste mundo descrito por palavras e carregado de pretensiosa lenha literária que não passa de palha elitista. A palha verdadeira pelo menos alimenta burros e aquece-lhes o camalho. 
Mas, mesmo assim, estas altas temperaturas, atraem-me e fixam-me o olhar quando se incendeiam flamejantes. Só desculpo o pirómano se admitir puxar fogo ao pousio do passado para adubar com cinza um futuro mais original. 
Brinco com o fogo cada vez que passo para o papel muitas das fagulhas que me vão saltando de dentro. Não o posso evitar. Se tudo aqui arder, a cinza que restar nada trará de original. Aceito, sem queixume, que o esterco é bem melhor para fertilizar.

segunda-feira, outubro 03, 2016

Ossos do ofício...

Quase nunca escrevo sobre a minha profissão, aquela da minha formação básica, aquela que acredito ter vocação (sem me ver exclusivo e escravo dela). Mesmo a pensar na minha família - prioridade pela razão - sei que é à minha profissão ao que dedico mais horas da minha vida. É uma realidade consciente e bastante bem equilibrada com excepção de alguns dias como o de hoje. 
Contar-se-ão pelos dedos de uma mão as vezes que entrei no local onde exerço a função de docente sem uma preparação prévia. Não me atrevo a dizer nunca, por o síndrome da terra do Peter Pan e por alguma vez ter improvisado algum relax em contexto de sala de aula. Mas mesmo até o relax deve estar pensado e contextualizado para melhorar o processo de ensino/aprendizagem e melhorar a nossa prática docente. 
Tanta palha para dizer que sou professor. Tenho orgulho nas minhas funções como tinha quando repunha no supermercado, trabalhava no "Sol e Desporto", lavava pratos no restaurante do meu tio ou ajudava o meu pai a fazer cimento e outros trabalhos manuais, quase sempre no Verão. 
Há nobreza em todos os trabalhos feitos com honestidade e remunerados e respeitados com honestidade. O meu vai-me pondo comida na mesa, vestindo e possibilitando uma vida sóbria, sem luxos, com direito a alguma dignidade laboral. Não é perfeito mas é justo o suficiente para estes tempos tão injustos em que somos governados apenas por técnica cega para a humanidade. 
Mas ensinar, com todos os métodos e técnicas pedagógicas de última geração, exige predisposição do outro, respeito pela tua condição e, algo nada divertido no meio de tanto facilitismo, algum esforço. Não me posso queixar demasiado, vou tendo alunos dignos da minha dedicação, eu digno deles ou um pouco de ambas coisas. No entanto, há funções que desempenho extra sala de aula no espaço escolar que me fazem pensar se acharei vocação nos anos vindouros. Estar a fazer rondas no pátio, estilo polícia educativo, e as famosas aulas de substituição, onde aguento os alunos cujo professor está ausente nesse momento. Entras numa sala de aula e aguentas uma hora a impor disciplina sem grande didáctica possível para entreter o vazio...  Um carcereiro poderia fazer o mesmo, com a opção de disciplinar à cacetada ou sancionar com o código penal...  
Só quero poder ensinar a dignidade com dignidade e respeito. Quem quiser aprender tudo farei para estar à altura de tamanha exigência... Mesmo quem não queira, tentarei enquanto achar que vale a pena... Até ao limite do humanamente possível sem deteriorar-me como pessoa, se chegas a esse limite nem és um bom profissional nem um ser humano equilibrado (o que quer que isso signifique!?). 
Hoje, no recreio, houve um prenúncio de zaragata feminina, estúpida, meio delinquente, e, no meio da massa interessada na possível cena de porrada, a escassa autoridade da minha função foi ridícula, indiferente e pouco efectiva. A coisa felizmente não piorou, ficou por um bate boca reflexo da educação daquelas jovens sem afectos e sexualmente activas sabe Deus desde quando... Eu voltei a pensar o que já pensei tantas vezes. "Foda-se, o que é que eu ando aqui a fazer?". 
A resposta está ali. Rumou para ali, para a barafunda "vouyer" hormonal e adolescente. Ser professor numa modernidade que não necessita de ser ensinada, basta ser vivida, intensamente consumida, é uma profissão de risco mental e físico. Quem está preocupado? 
Eu faço sempre o mesmo. Lembro-me que a vocação não é singular, é plural. Há vocação em tantas outras coisas e não tenho de deixar de ser um professor sem vocação. Nego-me a ser assediado por esta circunstância. Penso no meu ego, na minha auto-estima, na verdadeira arte de ensinar, sem politicamente ou socialmente correto, numa "Arte da Guerra" para a educação do século XXI. 
Se não consigo derrotar a multidão para quê enfrentá-la? Mistura-te nela e mina o sistema desde dentro... Há sempre alguém que se apercebe que não vamos longe com peças defeituosas...

Gimnasio (El Roto)

"Portugal es el verdadero descubrimiento de este viaje" - Ramón Gómez de la Serna

“Portugal es el verdadero descubrimiento de este viaje (…) Tenemos que visitarlo urgentemente. (…) Iremos a Portugal. Llamaremos a todos excelencias y nos lo dejaremos llamar, aunque en medio de esa cortesía entrañable más que etiquetera, seamos totalmente democráticos. Iremos a Lisboa porque, entre otras cosas, nos ha encantado eso que nos ha contado Carmen [de Burgos] de que está llena de jardines con grandes árboles, con aquellos grandes árboles, cosa muy importante y que hace que las grandes capitales que extirparon sus jardines hayan abolido algo muy importante, necesario, mejorador, que influye tanto en la ternura y en el espíritu de todos.” – Ramón Gómez de la Serna


domingo, outubro 02, 2016

A Rádio Phillips salva um domingo qualquer...

O domingo sempre foi um dia odioso. O regresso à escola, a segunda obrigada de rotina no calendário semanal carregam de estranheza o dia em que o senhor descansou da criação do mundo.
Já não tenho este dia tão traumático, desculpem o peso que só quer ser literário do adjectivo, como quando era miúdo mas continuo a não gostar dele...
Só tolero as manhãs lentas, de café e torradas com a família, de disco domingueiro eleito para banda sonora e o velho rádio Phillips, herdado do meu pai, sintonizado com o mundo...
Os meus filhos não se apercebem desta antipatia de final de semana, nem lhes demonstro muito. Não quero que herdem as minhas animosidades, os meus ódios de estimação, a minha infantilidade da qual não me orgulho - aquela que vale a pena esteve num conflito familiar galáctico de bonecos do Darth Vader, Luke Skywalker e Kylo Ren antes da hora da cama -, em fim,  não quero que herdem a minha estupidez, já terão a suficiente com a sua.
Gostava que apenas herdassem o velho rádio Phillips e a boa onda que nos transmite. Também era do meu pai, deu-mo quando sai de casa sem saber que iria tocar as manhãs e os fim-de-semana que esteve em casa e não teve de estar fora a trabalhar. Os meus miúdos são dois e não sei como serão a partilharem os escassos bens materiais que por cá deixar ... O rádio Phillips, se ainda existir, que se entendam, mas a onda no ar essa já a estão a partilhar... Sem ódios de estimação, só rotina, da boa, da que cheira a café...

A felicidade dos estóicos não tem esperança nem medo.

P. 31, "Born to Run", by Bruce Springsteen (Trad. Ignacio Julià)

Bruce Springsteen, in “Born to Run”, p.31 (trad. Luis Leal)

“Com os anos (…) cheguei a sentir a fadiga emocional e corporal do catolicismo. No dia da minha graduação do 8ºano, saí de tudo aquilo, farto, a dizer a mim mesmo «Nunca mais». Era livre, por fim livre… e assim eu acreditei… durante bastante tempo. No entanto, conforme ia ficando mais velho, fui detetando certas coisas na minha forma de pensar, reagir e comportar-me. E acabei por entender, com perplexidade e tristeza, que um católico o é para sempre. E deixei de enganar-me. Não sou um praticante assíduo da minha religião, mas sei que em algum lugar muito dentro… continuo a formar parte da equipa.
Era esse o mundo no qual encontrei as origens da minha canção. No catolicismo existiam a poesia, o perigo e a obscuridade que refletiam a minha imaginação e o meu eu interior. Descobri uma terra de grande e escabrosa beleza, histórias fantásticas, castigos inimagináveis e recompensa infinita. Era um lugar glorioso e patético no qual ou encaixas ou te fazem encaixar. Tem estado junto de mim como um sonho em vigilância durante toda a vida.”

Bruce Springsteen, in “Born to Run”, p.31 (trad. Luis Leal)