domingo, outubro 09, 2016

A Vida na (minha) Terra

Para uma família de católicos dum bairro periférico de Évora nos anos 80, a vida na terra era uma bênção de catálogo Reader's Digest e não de Deus. Esta aproximação à biologia e às teorias de Darwin era um complemento à bíblia e aos seus versículos.
Hoje ao cruzar-me com o que este livro do David Attembourgh fez por mim, apercebi-me que ele estava lá antes da bíblia. É verdade. Apesar do cristianismo herdado pelos sacramentos, o pretenso livro com a palavra d'Ele só se adquiriu já o meu corpo estava na puberdade e os meus pais eram devotos casais de Santa Maria (parece que o Guterres também foi, logo tenho algo em comum com o atual orgulho luso). 
Ficava horas nas páginas dedicadas aos tubarões e aos dinossauros, tanto era o fascínio que "A Vida na Terra"  em mim exercia. De capa dura, papel de altíssima qualidade, este livro impunha-se perante a escassez bibliográfica que a minha mãe paliava com o "Sexus" do Henry Miller, o "Sangue na Areia" do Ibáñez, se não me engano, "Os Deuses e Demónios da Medicina" do Namora e uns escassos mais liderados pelo "Kamasutra" da Vastsyayana. Se as vezes que folheei e li excertos deste livro fosse proporcional às minhas experiências podia anunciar-me no jornal como guru sexual. Mas aqueles desenhos indianos, atrevidos de conteúdo explicito para adulto mas ainda por descobrir para um puto curioso, não eram rivais das bandas desenhadas pornográficas que o meu tio Leopoldo me comprava nos quiosques da Senhora da Rocha e de Porches. Talvez por serem tão uni-dimensionais, e de estética quase egípcia, e isso comparado com o traço voluptuoso de inspiração Manara não sei se me desperta mais a libido ou a nostalgia.
Não tínhamos muitos livros em casa mas tínhamos os suficientes. A "Vida na Terra" era um deles... Hoje precisaria de uma edição aumentada de mim. Feito estúpido pus-me a ler outras vidas, a viver outros nomes, e já não sou o borbulhento de antes agarrado às grandes bestas da natureza... Agarrei-me a outras bestas, às que não têm desculpa por serem umas bestas... 

quarta-feira, outubro 05, 2016

Broken bones... 10 years ago...

Há dez anos atrás, quis a ironia do destino que o 5 de outubro, e a minha condição republicana, me ficasse marcado com uma bela cicatriz no tornozelo direito. 
Ficou feio, mais gordo e com menos flexibilidade do que o esquerdo, mas já não me imagino sem esse tom cor-de-rosa cicatrizado com marcas de pontos da cozedura no artelho. 
Estava com dois amigos a escalar em Puerto Roque e no horizonte avistávamos Marvão. O Javi e o Michel, amigos distantes fisicamente, mas presentes no meu coração. 
Foram meses duros de dor física. Psicologicamente também, inseguro numa nova realidade laboral, numa nova localidade, numa nova sociedade. 
Só voltei a escalar mais duas ou três vezes depois de ter partido o tornozelo neste acidente. Nem foi por medo, foi por falta de tempo, meios, companhia e até vontade. Não há trauma pós-trauma ortopédico. Há muito mais consciência de mim, do meu corpo, das minhas limitações, das minhas expectativas e do tempo que passou desde esse dia. 
10 anos é uma quantidade interessante de números numa cronologia. Uma década em que o meu corpo conheceu esta e outras limitações mas o espírito parece mais leve... 
Não me apeguei a estes 10 anos, aferrei-me a várias pessoas durante estes anos... sin flexibilidad en el tobillo pero muchísimo más flexible de espíritu... 

terça-feira, outubro 04, 2016

Júlio Pereira - Chula de Lisboa



Júlio Pereira - "Chula de Lisboa" do disco Os Sete Instrumentos (LP 1986)

Musica (primeiro disco de originais), arranjo e direcção musical de Júlio Pereira.
Participam entre outros, José Mário Branco, Carlos Zingaro e Ana Bola.




Elemento "Fogo"

Os efeitos do fogo são os mais versados, de isso não há dúvida. Do Camões, antes o Sá de Miranda, o Marlowe, o Goethe, até tantíssimos outros, há queimaduras de vários graus, carvão convertido em minas de lápis, cinzas misturadas com o pó de lares e de estradas de terra batida. 
Ardem para aí volumes de polémica, paranóias de egos, mitos de chama olímpica de anti-"fairplay", tanto combustível pacóvio, ardem muitos fios e pavios e dinamita-se tempo. 
É assim em tudo. Não apenas neste mundo descrito por palavras e carregado de pretensiosa lenha literária que não passa de palha elitista. A palha verdadeira pelo menos alimenta burros e aquece-lhes o camalho. 
Mas, mesmo assim, estas altas temperaturas, atraem-me e fixam-me o olhar quando se incendeiam flamejantes. Só desculpo o pirómano se admitir puxar fogo ao pousio do passado para adubar com cinza um futuro mais original. 
Brinco com o fogo cada vez que passo para o papel muitas das fagulhas que me vão saltando de dentro. Não o posso evitar. Se tudo aqui arder, a cinza que restar nada trará de original. Aceito, sem queixume, que o esterco é bem melhor para fertilizar.

segunda-feira, outubro 03, 2016

Ossos do ofício...

Quase nunca escrevo sobre a minha profissão, aquela da minha formação básica, aquela que acredito ter vocação (sem me ver exclusivo e escravo dela). Mesmo a pensar na minha família - prioridade pela razão - sei que é à minha profissão ao que dedico mais horas da minha vida. É uma realidade consciente e bastante bem equilibrada com excepção de alguns dias como o de hoje. 
Contar-se-ão pelos dedos de uma mão as vezes que entrei no local onde exerço a função de docente sem uma preparação prévia. Não me atrevo a dizer nunca, por o síndrome da terra do Peter Pan e por alguma vez ter improvisado algum relax em contexto de sala de aula. Mas mesmo até o relax deve estar pensado e contextualizado para melhorar o processo de ensino/aprendizagem e melhorar a nossa prática docente. 
Tanta palha para dizer que sou professor. Tenho orgulho nas minhas funções como tinha quando repunha no supermercado, trabalhava no "Sol e Desporto", lavava pratos no restaurante do meu tio ou ajudava o meu pai a fazer cimento e outros trabalhos manuais, quase sempre no Verão. 
Há nobreza em todos os trabalhos feitos com honestidade e remunerados e respeitados com honestidade. O meu vai-me pondo comida na mesa, vestindo e possibilitando uma vida sóbria, sem luxos, com direito a alguma dignidade laboral. Não é perfeito mas é justo o suficiente para estes tempos tão injustos em que somos governados apenas por técnica cega para a humanidade. 
Mas ensinar, com todos os métodos e técnicas pedagógicas de última geração, exige predisposição do outro, respeito pela tua condição e, algo nada divertido no meio de tanto facilitismo, algum esforço. Não me posso queixar demasiado, vou tendo alunos dignos da minha dedicação, eu digno deles ou um pouco de ambas coisas. No entanto, há funções que desempenho extra sala de aula no espaço escolar que me fazem pensar se acharei vocação nos anos vindouros. Estar a fazer rondas no pátio, estilo polícia educativo, e as famosas aulas de substituição, onde aguento os alunos cujo professor está ausente nesse momento. Entras numa sala de aula e aguentas uma hora a impor disciplina sem grande didáctica possível para entreter o vazio...  Um carcereiro poderia fazer o mesmo, com a opção de disciplinar à cacetada ou sancionar com o código penal...  
Só quero poder ensinar a dignidade com dignidade e respeito. Quem quiser aprender tudo farei para estar à altura de tamanha exigência... Mesmo quem não queira, tentarei enquanto achar que vale a pena... Até ao limite do humanamente possível sem deteriorar-me como pessoa, se chegas a esse limite nem és um bom profissional nem um ser humano equilibrado (o que quer que isso signifique!?). 
Hoje, no recreio, houve um prenúncio de zaragata feminina, estúpida, meio delinquente, e, no meio da massa interessada na possível cena de porrada, a escassa autoridade da minha função foi ridícula, indiferente e pouco efectiva. A coisa felizmente não piorou, ficou por um bate boca reflexo da educação daquelas jovens sem afectos e sexualmente activas sabe Deus desde quando... Eu voltei a pensar o que já pensei tantas vezes. "Foda-se, o que é que eu ando aqui a fazer?". 
A resposta está ali. Rumou para ali, para a barafunda "vouyer" hormonal e adolescente. Ser professor numa modernidade que não necessita de ser ensinada, basta ser vivida, intensamente consumida, é uma profissão de risco mental e físico. Quem está preocupado? 
Eu faço sempre o mesmo. Lembro-me que a vocação não é singular, é plural. Há vocação em tantas outras coisas e não tenho de deixar de ser um professor sem vocação. Nego-me a ser assediado por esta circunstância. Penso no meu ego, na minha auto-estima, na verdadeira arte de ensinar, sem politicamente ou socialmente correto, numa "Arte da Guerra" para a educação do século XXI. 
Se não consigo derrotar a multidão para quê enfrentá-la? Mistura-te nela e mina o sistema desde dentro... Há sempre alguém que se apercebe que não vamos longe com peças defeituosas...

Gimnasio (El Roto)

"Portugal es el verdadero descubrimiento de este viaje" - Ramón Gómez de la Serna

“Portugal es el verdadero descubrimiento de este viaje (…) Tenemos que visitarlo urgentemente. (…) Iremos a Portugal. Llamaremos a todos excelencias y nos lo dejaremos llamar, aunque en medio de esa cortesía entrañable más que etiquetera, seamos totalmente democráticos. Iremos a Lisboa porque, entre otras cosas, nos ha encantado eso que nos ha contado Carmen [de Burgos] de que está llena de jardines con grandes árboles, con aquellos grandes árboles, cosa muy importante y que hace que las grandes capitales que extirparon sus jardines hayan abolido algo muy importante, necesario, mejorador, que influye tanto en la ternura y en el espíritu de todos.” – Ramón Gómez de la Serna


domingo, outubro 02, 2016

A Rádio Phillips salva um domingo qualquer...

O domingo sempre foi um dia odioso. O regresso à escola, a segunda obrigada de rotina no calendário semanal carregam de estranheza o dia em que o senhor descansou da criação do mundo.
Já não tenho este dia tão traumático, desculpem o peso que só quer ser literário do adjectivo, como quando era miúdo mas continuo a não gostar dele...
Só tolero as manhãs lentas, de café e torradas com a família, de disco domingueiro eleito para banda sonora e o velho rádio Phillips, herdado do meu pai, sintonizado com o mundo...
Os meus filhos não se apercebem desta antipatia de final de semana, nem lhes demonstro muito. Não quero que herdem as minhas animosidades, os meus ódios de estimação, a minha infantilidade da qual não me orgulho - aquela que vale a pena esteve num conflito familiar galáctico de bonecos do Darth Vader, Luke Skywalker e Kylo Ren antes da hora da cama -, em fim,  não quero que herdem a minha estupidez, já terão a suficiente com a sua.
Gostava que apenas herdassem o velho rádio Phillips e a boa onda que nos transmite. Também era do meu pai, deu-mo quando sai de casa sem saber que iria tocar as manhãs e os fim-de-semana que esteve em casa e não teve de estar fora a trabalhar. Os meus miúdos são dois e não sei como serão a partilharem os escassos bens materiais que por cá deixar ... O rádio Phillips, se ainda existir, que se entendam, mas a onda no ar essa já a estão a partilhar... Sem ódios de estimação, só rotina, da boa, da que cheira a café...

A felicidade dos estóicos não tem esperança nem medo.

P. 31, "Born to Run", by Bruce Springsteen (Trad. Ignacio Julià)

Bruce Springsteen, in “Born to Run”, p.31 (trad. Luis Leal)

“Com os anos (…) cheguei a sentir a fadiga emocional e corporal do catolicismo. No dia da minha graduação do 8ºano, saí de tudo aquilo, farto, a dizer a mim mesmo «Nunca mais». Era livre, por fim livre… e assim eu acreditei… durante bastante tempo. No entanto, conforme ia ficando mais velho, fui detetando certas coisas na minha forma de pensar, reagir e comportar-me. E acabei por entender, com perplexidade e tristeza, que um católico o é para sempre. E deixei de enganar-me. Não sou um praticante assíduo da minha religião, mas sei que em algum lugar muito dentro… continuo a formar parte da equipa.
Era esse o mundo no qual encontrei as origens da minha canção. No catolicismo existiam a poesia, o perigo e a obscuridade que refletiam a minha imaginação e o meu eu interior. Descobri uma terra de grande e escabrosa beleza, histórias fantásticas, castigos inimagináveis e recompensa infinita. Era um lugar glorioso e patético no qual ou encaixas ou te fazem encaixar. Tem estado junto de mim como um sonho em vigilância durante toda a vida.”

Bruce Springsteen, in “Born to Run”, p.31 (trad. Luis Leal)

quinta-feira, setembro 29, 2016

Évora (Manuel Alegre in “Alentejo e Ninguém”)

Para o Jorge Rosmaninho Neto que tanto percebe de geografia e de afectos.

Évora

Irei a Évora descobrir o branco
a ogiva o arco a rosácea a nave
a praça como pátio
o pátio como praça.
Nada destrói a intimidade
de sua humana geometria.
Irei a Évora para reencontrar
a perdida harmonia.


(Manuel Alegre in “Alentejo e Ninguém”)

quarta-feira, setembro 28, 2016

Caetano e Gisela - "Navegar é preciso, viver não é preciso"









The Amazing Spider (in our wall)

Visita de um grande amigo

Visita de um grande amigo. É, sem dúvida, um momento em que o "estamos" se funde com o "somos". Essa é a nossa concepção de amizade. Estamos gratos por esta benção à qual os nossos filhos assistem e comungam, tão importante como o pão na mesa.
À despedida, atribulada com afazeres do dia-a-dia e uma doença pueril repentina, fica um desejo expresso em profunda sinceridade. Que voltemos a estar juntos em breve...

domingo, setembro 25, 2016

¿Por qué se llaman "redes sociales"? (Mauro Entrialgo)



Por acaso, Luís, ia publicar esta tira de Mauro Entrialgo, mas antes li o excerto da crónica de Pacheco Pereira. Acho que vem mesmo a calhar.




Excerto da crónica "Eu, zelota da privacidade" de Pacheco Pereira

"Demoramos muito tempo em sair da aldeia, da vida controlado por todos, para agora aceitarmos que na “aldeia global” o mesmo se possa fazer. Nos últimos duzentos anos na nossa civilização, e falo deliberadamente em civilização, fomos criando o valor e as condições da privacidade. Os quadros de Vermeer mostram o início dessa domesticidade “burguesa”, acessível a muito poucos, mas que tem vindo a evoluir quando as pessoas podem ter casas com espaço para não viveram quatro ou oito no mesmo quarto, têm cortinas nas janelas, e podem ter direito a um espaço de intimidade e de privacidade. Infelizmente para todos nós caminhamos para uma cultura de exposição e indiferença face ao valor da privacidade, impulsionada pelas redes sociais, pelas empresas de comunicações, pelo jornalismo cor-de-rosa a caminho de tablóide, pela cabeça demasiado ligeira de adolescentes e adultos que deveriam ter mais juízo. A última coisa de que precisamos é que livros abjectos se tornem vulgares, aceitáveis, e impunes. Cá por mim, sou um zelota desse combate."

sábado, setembro 24, 2016

"Notável criação são os olhos!" Padre António Vieira

"Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O ouvido ouve, o gosto gosta, o olfato cheira, o tato apalpa, só os olhos têm dois ofícios: ver e chorar"  
(in "Sermão das lágrimas de São Pedro", §II)

Angola (José Afonso)







quinta-feira, setembro 22, 2016

Elemento "Ar"

Dei um peido num jacuzzi. Discreto e sorrateiro, lá se escapou anónimo no meio de tantas bolhas de ar produzidas artificialmente. 
Aliviado de ventosidades, sem stress intestinal, desfruto da leveza do momento e penso que o meu ser é bastante aéreo, quer por distração, quer por ser um gás vulgar intrometido no meio de tantos gases nobres. Posso garantir que, desta vez, a intromissão foi inodora. É-se e dissipa-se no ar a reação química de viver, numa atmosfera sufocada pela condição final de outro peido. O de mestre.

Flores que cresceram

As flores do campo crescem no meio de quaisquer circunstâncias e tipo de solo. Acompanhadas pela diversidade da vegetação e pelas adversidades alheias ao substrato, erguem-se únicas e irrepetíveis. O mesmo se passa com os irmãos.

Quote from "The Greatest" (Manchester, 2016)

terça-feira, setembro 20, 2016

Conejitos...

Elemento "Água"

Não tenho medo de meter o meu rosto todo dentro de água, nem de não dominar a técnica de nado com ritmo e respiração adequada . 
Quando me esforço por esta efemeridade de campeão, afasto-me do meu corpo e rio ridículo. Dura pouco, a água é o melhor dos elementos para as inflamações do espírito. Além disso, retribui o toque sensual que amansa o espartano numa descoberta hedonista.

These are the hands that built "The Greatest"... (Muhammad Ali)

segunda-feira, setembro 19, 2016

Os olhos de meu pai

Não herdei os olhos do meu pai. Herdei parte do seu olhar, uma visão limitada auxiliada por próteses de lentes graduadas e, no meu caso, por tantas palavras grafadas em livros de tantas vidas com as quais me cruzo. 
Após ter, há uns meses, o meu pai deslocado a retina, hoje acompanhei-o a um catedrático da oftalmologia com jeito para contos e pequenas estórias. Vinha preocupado, ansioso por saber se a vista turva se devia a uma má recuperação ou se era algo mais. 
Enquanto fazia uma bateria de testes, lhe dilatavam a púpila, lhe mediam a tensão ocular, etc., senti o orgulho da minha companhia misturado com a necessidade de me ter presente. Ali estivemos o tempo que foi necessário e eu, que tanta falta me fazia, senti-me um filho sabedor do que é ser pai. 
Diagnosticaram-lhe uma recuperação da retina, já bem soldada a laser, com umas cataratas moderadas, inevitáveis e progressivas com a idade. 
Na receção, consultámos a agenda do médico para uma revisão dentro de três meses. Ainda não era possível marcar consulta e voltámos à minha casa. 
De caminho, parámos na farmácia para colírio e comprimidos. Enquanto conduzia nesse trajeto, o meu olhar fixou-se neste momento em que vi como a nossa visão é determinante para identificarmos o nosso lugar no mundo. Por sorte estava ali, com ele, deslocado do passado mas bem soldado e focado nos exemplos que vivi.


domingo, setembro 18, 2016

Epitáfio a um Tirano - W.H. Auden (trad. Luis Leal)

Pode-nos parecer algo longínquo e improvável, mas os próximos 50 dias de 2016 serão decisivos para a humanidade e para a sua história. Ao refletir sobre isso, lembrei-me do “Epitáfio a um Tirano” de W. H. Auden, que traduzi para português.

Epitáfio a um Tirano (W. H. Auden, 1907 - 1973)

“A perfeição, de um tipo, era o que ele andava à procura,
E a poesia por ele inventada era fácil de entender;
Ele conhecia a estupidez humana como a palma da sua mão,
E estava profundamente interessado em exércitos e armadas;
Quando ele ria, respeitáveis senadores escangalhavam-se a rir,
E quando ele chorava pequenas crianças morriam nas ruas.”


Epitaph on a Tyrant 

"Perfection, of a kind, was what he was after,
And the poetry he invented was easy to understand;
He knew human folly like the back of his hand,
And was greatly interested in armies and fleets;
When he laughed, respectable senators burst with laughter,
And when he cried the little children died in the streets."

Hugo Pratt e Dizzy Gillespie (1959)


Velhas amizades

Indiretamente, hoje tive notícias dum velho amigo, um desses amigos cuja importância fora tanta que esta pessoa, aqui a registar o seu ser e estar, seguramente não seria a mesma.
Criámo-nos juntos num pátio do bairro do "Moinho do Cu Torto", "aka" Nossa Senhora do Carmo.

Num mundo onde já não há distâncias, ambos distanciámo-nos em vidas adultas desligadas. Cada qual à sua maneira e sem animosidades, apenas com a realidade que as redes sociais do mundo digital ofuscam ao colectivo. Perdemos a cumplicidade e provámos que a amizade também poder ser perfectiva sem necessidade de ruturas. Apesar de eu a querer mais que perfeita e contínua… deixámo-nos de seguir.

Há que fazer por isso? Talvez. Há que aceitar essa perfectividade? Por vezes. Quando no presente te cruzas com esse passado, custa a lembrança? Por vezes. Como é que lidas com isso? Acreditando que em qualquer tempo, estimar um amigo é das maiores riquezas que levaremos desta terra para os sete palmos abaixo de terra que nos esperam.

terça-feira, setembro 13, 2016

Noite surda

A noite surda range nas molas desse colchão esquecido das temporadas suadas de Verão e agasalhadas de Inverno. Põe-se o poema a jeito, sem ruído, tímido, mas extrovertido para a edição da caneta no lençol branco. Na surdez da noite, descobre-se aflito, a gesticular, o menino de voz estridente e um presente indecente para a pureza duma infância. 
A noite surda, o suor de não se ouvir o grito. As mãos apoiadas, acordadas em pânico, o coração órgão acelerado, e os olhos diferentes, cheios de passado indiferente ao sufoco de não saber onde é que está.

sábado, setembro 10, 2016

Tenho bem presente a imagem do meu tio Manuel a dormir no palheiro com a espingarda ao lado. A necessidade de proteger o que plantara, o que cuidara, o que aprovisionara para dar de comer à sua família, justificava esta imagem que não gostaria de um dia ter de reencarnar.
A vida de pequeno agricultor, de ganadeiro, de pastor, não é nada bucólica como o poeta nos faz crer.
Não está assim tão longe o tempo em que o senhor feudal exigia o tributo e parte da colheita. Em tempos de PAC, de campos subsidiados, os roubos de produtos agrícolas estão ao nível do carjacking de marcas de altas gamas.
O meu tio protegia o seu trabalho de um acampamento ilegal na sua propriedade. De ciganos que andavam a rondar para ver o que podiam mangar (lembro-me bem e não cairei num registo correcto politicamente se não o é com o que vivi). O peso do Ultramar pesava-lhe no passado e ajudava-o a assumir a arma carregada e um possível apontar em legítima defesa. Era assim, a sua geração é assim.
Lembro-me tanto dele, e da quinta da infância das minhas primas, porque hoje parte de nós cá em casa deposita no campo a esperança de um futuro familiar sustentável. No entanto, proliferam os roubos nos olivais, amendoais, montados de sobro, até mesmo vinhas, numa total impunidade.
Quem me diria que o azeite, e a sua modesta azeitona, ascenderia ao estatuto de produto de luxo e emblema ibérico da gastronomia “gourmet”? Torradas de azeite, pão com azeitonas, refugados, etc., eram coisa de pobre e hoje este óleo natural é ouro líquido.
Parece que a influência do mediterrâneo chega até onde encontrarmos oliveiras plantadas. É uma imagem bonita de se pensar, bem mais idílica do que a de um homem guardar o suor do seu trabalho à ponta de escopeta porque a lei não o protege.
Hoje à tarde estava a passar na televisão, num desses canais reacionários, uma sessão de cinema Western. Bud Spencer, Terrence Hill, Djangos, Clints, Waynes e afins defendiam-se assim até chegar a mão da lei, em forma de Rangers, Xerifes e “Deputies”… O campo não tem portas e, apesar de parecer esquecido, votado à desertificação, não se protege minimamente na memória da cidade. Vamos ver como será quando houver uma crise da batata… Vai-se descobrir que não nasce empacotada. 

"Sé tú mismo" - Marc Tauss



sexta-feira, setembro 09, 2016

Praia do Vau 08.09.16

Deixei o rescaldo da fronteira ardida em casa e rumo ao sul de Portugal. 
O vento transporta o cheiro a queimado por quilómetros e, sem saber, chegamos ao nosso destino também a arder. As cinzas no ar povoam esta terra dedicada a turistas e o fumo veste o pôr-do-sol para um momento trágico. A serra de Monchique arde descontroladamente. 
Há alguns anos que não venho ao Algarve, o que me unia a esta região morreu e o pouco que me resta não me faz priorizar visitas nem veraneios como os de antanho. Sem mágoa, olho para trás como olho para este fogo, deixo que se extinga e aceito o horizonte a ocultar-me a beleza dos dias de sol nesta região.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Fronteira a arder

O fogo não conhece limites, não se circunscreve a fronteiras, devora hectares e não é por acaso que Hades arde mitologicamente. 
No norte arde o Gerês e o "Xures", enquanto aqui arde o Caia e nem o rio com o mesmo nome impediu que cruzasse as águas e ateasse fogo à margem espanhola. Passei de carro pela antiga nacional e vi como as chamas passavam de um lado para outro da ponte José Saramago. 
"O que farei quando tudo arde?" do Sá de Miranda pode-se interpretar com tantas retóricas e ao longo destes anos da minha vida tenho visto demasiadas coisas a arder. Não tenho interesses pirómanos e o fogo só me fascina por depois de se extinguir em cinzas adquirir um estatuto fértil, de adubo para crescimentos futuros. 
Amanhã passarei nos locais ardidos, os quais penso já terem os focos extintos, pensarei qualquer coisa diferente do Sá de Miranda. Tenho a certeza. 
Aqui deitado, com a noite menos tropical do que em dias anteriores, ainda cheiro o ar ardido e lembro-me que o melhor é evacuar o meu espírito deste diário. Por hoje já chega.

Vincent Hawkins








terça-feira, setembro 06, 2016

É melhor aprenderes a voar com a galinha do que com a águia. A galinha nunca vai deixar de sonhar com o voo completo, sempre com os pés bem assentes na terra para o impulso. A águia adquiriu o estatuto no ninho e altiva orgulha-se de não necessitar da terra para nada, até descobrir que não há voos intermináveis.

Noite tropical...

Setembro começou agarrado às temperaturas de Agosto. Mais de 40 graus durante o dia e a rondar os 30 durante a noite. 
Não me bastava o suor, e a letargia dos movimentos de pele pegada ao corpo, ainda tinha de me constipar e andar a fungar quando toda a gente anseia nadar no mar ou numa piscina. 
Se já me custava antes dormir, agora ainda mais. Consola-me a estupidez e ironia da situação. Vivo um clima de Verão com sintomas de Inverno... 

segunda-feira, setembro 05, 2016

"Arthur Bispo do Rosario" - Eduardo Galeano


Arthur Bispo do Rosario fue negro, pobre, marinero, boxeador y artista por cuenta de Dios.
Vivió en el manicomio de Río de Janeiro.
Allí, los siete ángeles azules le trasmitieron la orden divina: Dios le mandó hacer un inventario general del mundo.
Monumental era la misión encomendada. Arthur trabajó noche y día, cada día, cada noche, hasta que en el invierno de 1989, cuando estaba en plena tarea, la muerte lo agarró de los pelos y se lo llevó.
El inventario del mundo, inconcluso, estaba hecho de chatarras,
vidrios rotos,
escobas calvas,
zapatillas caminadas,
botellas bebidas,
sábanas dormidas,
ruedas viajadas,
velas navegadas,
banderas vencidas,
cartas leídas,
palabras olvidadas y
aguas llovidas.
Arthur había trabajado con basura. Porque toda basura era vida vivida, y de la basura venía todo lo que en el mundo era o había sido. Nada de lo intacto merecía figurar. Lo intacto había muerto sin nacer. La vida sólo latía en lo que tenía cicatrices.

Eduardo Galeano

quarta-feira, agosto 31, 2016

O meu pai movia-se entre nós - e.e. cummings

O meu pai movia-se entre nós,
cantando cada nova folha saída de cada árvore
(e cada criança tinha a certeza de que a Primavera
dançava quando ouvia o meu pai a cantar).

segunda-feira, agosto 29, 2016

"El Quijote" marchito, igual que un clavel de abril...

Presumível

("make my day")
há um motivo
sorriso
um aviso
uma acção
do passado
talvez o culpado
desta condição.

acusa-se com provas
factos justificados
perante o grande júri.
advogam-se as causas
à luz que deve iluminar
a processo
dentro da lei
dos homens a legislarem a natureza
a evitarem cumplicidades
associações desconsideradas 
até se provar o contrário
criminosas
pelo seu embaraço.

de pé o réu
não admite
em confessa
ser
presumível
autor.

presumivelmente poeta. 
é tudo uma questão passional.
que o julgue o tempo
quando este deixar de ser arguido
da sua própria existência.

A piscina na estrada...


Ensinei o meu filho mais velho a nadar. Posso afirmar, a partir de hoje, ser tudo uma questão de prática. Foi numa piscina aberta ao público, à qual temos ido refrescar estes últimos dias de Agosto. 
Aprender a nadar é aprender a sobreviver num meio para o qual não estamos particularmente concebidos. Espero que nunca tenha de nadar para sobreviver, no entanto, como se faz na Holanda, toda a gente devia pelo menos saber boiar, manter-se à tona dentro (e fora, já agora) de água. 
Em casa, junto com o pequenito, ambos na banheira, lavei-lhes a pele e o cabelo ainda com jeitos de cloro, sequei-lhes a pele atópica e apliquei-lhes o creme do dia-a-dia. Ainda usei o secador nos caracóis do mais novo pois anda um bocado ranhoso. Enquanto fazia estas tarefas, às quais já estou tão mecanicamente habituado, percorri "The Road" do Cormac McCarthy. 
Não dou por garantido cada gota de água com que os lavo, cada noz de champô, cada dose de gel duche, o sabor do dentífrico, a electricidade do secador de cabelo. Não dou por garantido aqui estar sempre para os cuidar no seu crescimento.
Todos os que têm filhos deveriam ser capazes de entender a personagem do pai neste livro de sobrevivência física e moral num mundo com todos os recursos esgotados. Darwin tem quase toda a razão, sobrevivem os mais fortes, mas também sobrevivem os que colaboram. Neste caso, um pai e um filho numa estrada em direcção ao litoral sul.
Estamos no final do Verão mas não sabemos quantos Invernos aguentaremos. Sobreviveremos? Ninguém está preparado. Será que o fogo viverá dentro deles? A semente foi plantada com fé de o clima possibilitar que algo germine nesta era de estupidez.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Não te basta já a dor de cabeça de seres de carne e osso?

Escrevo para me descrever, para não me esquecer, isso pensava. Tenho esse hábito, hoje já rotina, de grafar o que sou à solta. Na escrita, silencio o que tem um referente fonético por convenção e hábito, hoje já rotina, que nos torna sociais. 
Escrevo porque o aprendi. Não esqueço descender de quem lho foi impedido, por isso treino-o como pratico uma forma, um golpe rotineiro. No entanto, quanto mais me escrevo mais tenho a certeza da necessidade de saber ler-me. Isso creio que nunca o aprenderei com rigor, nem de cor. 
Numa gritaria nunca sou capaz de isolar uma voz. No trabalho, sem prazer, unicamente necessidade, uso a técnica da sanção colectiva, infelizmente com os pecadores pagam sempre os justos.
Fora desse âmbito, vozes destas são para as evitar. Não te basta já a dor de cabeça de seres de carne e osso?

terça-feira, agosto 23, 2016

Portagem, 23/VIII/2016

Sempre que vou à Portagem passo por Portalegre. Havia coisas a tratar e parámos nos locais indicados para os afazeres. Só depois fomos em direção a Castelo de Vide para matar saudades da paisagem. Ainda em Portalegre, bem no centro tristemente envelhecido, tomei um café que me ofereceu o terceiro volume do Dom Quixote.

O "bookcrossing" é das iniciativas mais bonitas, depois das bibliotecas públicas e escolares, para o fomento da leitura e, quiçá, de um espírito mais iluminado. Tenho "El Quijote" original, edição humilde mas bem completa, porém nunca terminei a sua leitura apesar de ter lido várias adaptações e versões livres. Acredito que muitos dos intelectuais das praças públicas internacionais tão-pouco o leram mas o seu estatuto seria outro se o reconhecessem. Seriam honestos com a inteligência do próximo, mas fundamentalmente seriam honestos consigo próprios. Mentimos tantas vezes a nós mesmos que tornamos a mentira a verdade do que somos. 

Depois de Castelo de Vide, depois da bela e estreita estrada com árvores de tronco vestido de branco, chegámos à Portagem. Refrescámo-nos na companhia de bons amigos (para variar abusaram no preço do almoço graças ao nosso ar e companhia de estrangeiros) e fomos o que há anos somos. O Luis, o José, a Pepi, iguais aos anos que passam, fiéis ao afecto, com filhos e com a cumplicidade da Elsa, da Camino e do Rafa. Faltavam o José Manuel e a Maite fisicamente. 

À volta, depois de uns mergulhos anti-inflamatórios e de umas conversas à beira do Sever, conduzi feliz em direção a casa. 

Gosto de estar assim, acompanhado, rodeado por gente que não se julga, que apenas é o que é. Consola-me saber isso e ser eu, sem máscara, sem filtro social que não seja o da estima e da amizade. O que é que seria do Dom Quixote sem o seu fiel escudeiro (amigo que era o que era) Sancho Pança? Seria apenas mais um cavaleiro de triste figura. Ao homem incapaz de ser amigo por assim o dever ser, acontece exactamente o mesmo. É um triste homem...

segunda-feira, agosto 22, 2016

Estivemos todo o dia em casa. O agosto remata o final dos seus dias com um calor que só à sombra permite a existência, ou à noite, porque também é amigo da insónia.
Não é fácil entreter duas crianças, uma delas um bebé de um ano, nestas circunstâncias. Há que ter paciência. Têm de aprender a abrigar-se do frio como também do sol que nos marca com raios UV.
Onde vivemos, o frio é passageiro e quase sempre provoca-me saudades. O sul, esse que no mapa também se marca com cores quentes.
O vento é emulado por uma coluna de ar artificial, uma ventoinha que trabalha noite e dia dois a três meses por ano. O seu ruído é mecânico, tão diferente da sínfonia do vento que anunciará em breve o outono.
Não páro de pensar. Não sou capaz de adormecer sem antes fazer ou conjugar algum verbo da segunda conjugação, regular ou irregular, só para rimar. Ler, escrever, por exemplo, para não entrar em mais detalhes.
Hoje li pouco. Uns artigos sobre o Bordalo Pinheiro do Zé Povinho, um documento sobre a guerra civil espanhola e uma entradas num diário alheio. Mas o que levo para a cama é um pensamento preocupante de como os extremismos, neste caso particular o ISIS, recrutam fiéis logo na primeira infância a troco de umas guloseimas, de umas promessas divinas, ofensivas para qualquer deus decente, de serem "as crias" do profeta. É tão fácil doutrinar para que explodam em nome da cobardia humana...
Fecho os olhos em oração a um qualquer deus decente e rogo-lhe que interceda por estas crianças. Tenho fé não sei bem no quê, se em deus ou num resto de decência humana.

As Pontes (Acetre)




Sobre o disco de Acetre a que pertence "As pontes", Arquitecturas rayanas, podemos ler o seguinte na página musicaflok.es :

"As Pontes fue el primer single que el grupo extremeño Acetre lanzó, como adelanto a su álbum Arquitecturas Rayanas. También fue el primer videoclip que realizaron, con impecable resultado, como podéis ver tras el salto. Rodado en Badajoz, el tema habla de los puentes físicos tendidos a ambos lados del Guadiana a su paso por la ciudad."


AS PONTES

Blanca es la paloma
Que aquí se posó
Bella como el alba
Cuando sale el sol

Ó minha pombinha branca
Vem depressa ao meu quintal
Salpicadinha d’amores
Pra ver meu amor chegar

Claveles en mayo
Rosas en abril
Mi amante se peina
Junto al toronjil

Ausente de ti, meu bem
Sempre estou a suspirar;
Esta paixão do meu peito
Já não a posso olvidar

Pequeña es la dama,
Pequeña y hermosa
Y reparte amores
Como hojas de rosa

A rosa depois de seca
Foi-se queixar ao jardim,
O jardinheiro lhe disse
Tudo no mundo tem fim

Abanicos verdes
Lleva la pastora
y guarda el ganado
mientras me enamora

Pastora, boca de cravo
Cintura de capitão
Cadeado do meu peito
Chave do meu coração

Cuando en ti pienso
Renace mi amor,
Donde prendió el fuego
Ceniza quedó

Ó minha pombinha branca
Vem depressa ao meu jardim
salpicadinha de flores
Pra ver meu amor partir

Quando os meus olhos te viram
Meu coração se alegrou
Na cadeia dos teus braços
Minha alma presa ficou.





sexta-feira, agosto 19, 2016

Recordando a Lorca...

Hace dos días, se cumplieron 80 años desde que nos dejó a manos del odio ideológico...

Sísifo de rede ovelheira

O trabalho do campo é duro e qualquer pessoa que tenha noção de várias vidas laborais além das que no seu dia-a-dia exerce deve concordar comigo. 
A minha manhã começou bem cedo, ver o sol nascer é sempre uma maravilha, e esperava-me uns metros de cerca ovelheira, arame farpado dissuasório de focinhos intrometidos e bastantes estacas ressequidas no meio do matagal rasteiro do Agosto alentejano. 
Munido de alicate de corte (estúpido deixei o universal em casa que tanta falta me fez), chave de fenda, martelo de orelhas (as quais não resistiram nem a um dia de labuta) e algumas coisas, tipo cordéis e elásticos, para desenrascar, meti mãos à obra. 
Pouco a pouco, fui entrando na rotina de arrancar grampos, cortar arame, enrolar as velhas cercas e reciclar o arame farpado. A tarefa exigia movimento constante numa solidão que nem minimizei com o rádio ou música do telemóvel, uma vez que até tinha posto os auriculares no bolso da camisa. Dei por mim a pensar em coisas estúpidas, incertezas, medos de que o outro, o que está fora da minha cerca, me invadisse com más intenções. Receios que o que tenho recolhido, criado aqui dentro, sem essa barreira fugisse para longe de mim. 
Estava desconfortável, não com o trabalho duro, com as mãos e antebraços picados e arranhados, sim com a solidão dos meus pensamentos. 
Mas, por mais "new age", "couching" ou sabedoria proverbial de livro de auto-ajuda pareça, os pensamentos são as flores do nosso jardim. A nossa tarefa de jardineiros é escolher o tipo de flora que por lá queremos ver a propagar-se. A fotossíntese com a cara ao sol e os sentidos cientes dos elementos, ajuda-me a minimizar o que hoje por lá plantei. 
A rodar pelo terreno acima, lembrei-me do mito de Sísifo e de quando o conheci e entendi o que talvez significasse. Não quero ser arrogante e dizer que o entendo, quando o que sinto é compaixão. Hoje rebolei rede ovelheira, outros dias carrego sacos de compras, móveis, livros, utilidades e inutilidades, etecetera, longe da condição de titã, lá me vou aguentado, duvidando, sendo cada vez mais pragmático num corpo onde sinto marcas de tempo e se veste com roupas totalmente cobertas de pó.
Num ritmo cada vez mais parecido ao do meu avô e do meu pai, trabalhei com as ferramentas quase adequadas, olhei-me no horizonte passado e reconheci mais lentidão, mas com mais segurança e eficácia nos passos. Dorido, ao fim do dia, repenso que todos os trabalhos exigem inteligência, brio e destreza. No meu caso, um cinto de ferramentas ter-me-ia poupado as costas e feito ganhar minutos na execução das tarefas. Tenho sorte. O Sísifo tem sorte. Por mais pensamentos infestantes que tenhamos, amanhã podemos recomeçar.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Victor "Young" Perez

O sol da tua infância tunisina
nunca deixou o teu coração ser francês.
Os teus punhos foram nacionalizados
mas tu nunca foste um protectorado de Vichy.
Obrigaram-te a levar a estrela
a ti a verdadeira estrela
o mais jovem campeão
do mundo
e de David.
O quadrilátero era de arame farpado
e o árbitro mais que comprado.
Com fome e sem sentires o jogo das tuas pernas
voaste pelo fumo das chaminés do crematório
a escorreres sangue de campeão,
verdadeiro, sem raça,
sem pureza que só existe
em farsas
e ideologias
que para a história
não foram mais que sofrimento
derramado em hemorragia.
A tua guarda debilitada
pela guarda de um campo de concentração
não te desconcentrou
nem pôde a humilhação
desleal doutra categoria de peso
fazer frente ao peso da alma.
Há quem afirme que o peso da alma são 21 gramas,
se assim é foram as tuas gramas
que se imposeram à tonelagem de crueldade
e fizeram do teu voo
um combate para a eternidade.
O sol em Janeiro na Polónia não se vê. Foi difícil marchar de pés sangrentos
para voltar à beira-mar do mediterrâneo.
Oportunista, como bom pugilista, encontraste um aberta na guarda da morte
e esquivaste o esquecimento.
Bastava-te um momento
mas uma bala fez-te ir ao tapete
antes de tempo.

Rua da Cal Branca

Como qualquer superfície de mármore, era preciso ter cuidado para não se escorregar. Mas sempre os sentidos se alegravam por ali passarem.
Optava por lavar todas as escadas de joelhos. Do rés-do-chão ao segundo andar, a senhora da limpeza, de quem nunca soube o nome, era tal qual a sua mãe que anos antes lavara a mesma escadaria na mesma incomodidade de genuflexão mas deixando como herança o brio e o hábito do esfregão e do sabão azul.
Hoje escorreguei na brancura do mármore desta lembrança da Rua da Cal Branca. Escorregámos. Nunca subi essa escada sozinho porque lá em cima alguém me esperava sem necessidade de avisar.
A senhora já me conhecia, o plátano lá fora também. Fazia questão de me receber com o acto cerimonioso de interromper o seu labor para que passasse e não escorregasse na humildade da sua existência. Creio que assim o pensava.
Eu não. A gratidão que tenho pelo seu gesto é presente como tento pisar com cuidado e reconhecimento o trabalho prévio dos outros. O sorriso é o do jovem apaixonado já então lhe reconhecia o mesmo azul dos olhos e longo cabelo da sua princesa.
Hoje as escadas da Rua da Cal Branca voltaram a ser subidas a vários anos e quilómetros de distância. Lá estava a senhora de joelhos a lavar com sabão azul o mármore dos nossos passos.
Cumprimentámo-la e fomos cumprimentados como se ontem por lá tivéssemos passado. Ela olhou-nos e soube que a sua dignidade ia ali connosco. A da sua mãe também. No nosso caminhar há a brancura do seu esforço, agora o nosso esforço.

Escrever tem-se convertido na necessidade de libertar o que penso ao mesmo tempo que tenho assumido que isso de pouco vale.

"Dormir es la mejor manera de meditar" - Dalai Lama

terça-feira, agosto 16, 2016

Pode uma palavra inspirada salvar a humanidade? Pode. Salvar um ser humano é amparar o colectivo, mesmo que não não nos apercebamos ou reconheçamos isso.

Aos que cá estão e aos que não

Em criança, se queria chorar, bastava-me pensar na morte dos meus avós. Não era que o pensamento do fim dos meus progenitores não me afetasse, sempre me deram a ilusória segurança que ali estariam, essa ideia de perenidade desactivava o melodrama. Também era criança e era bem enganado, algo que a cronologia da idade dos meus avós não me permitia estar tão seguro da igual condição mais jovem dos meus pais.
Mas o peso da ideia de fim não abandonou essa criança. No quarto ao lado dormem outras duas às quais sou incapaz de prometer céus e outros mundos. Não lhe mostro que também eu tenho as mesmas dúvidas e medos multiplicados pelo anos que vou vivendo e pelas filosofias que vou descartando.
Ganhar só existe porque se contrapõe ao perder, sabemo-lo demasiado bem. Ganhei mais um dia, mais uma entrada neste diário sem leitores, a memória dos meus avós não me faz chorar, todo o contrário, lembra-me de cuidar, estar lá, para os que de mim dependem. Ser ainda esse menino, assumir o seu medo, é a maior prova de amor que lhes posso dar. Aos que cá estão e aos que não.

quinta-feira, agosto 11, 2016

"Não insulte jamais um crocodilo antes de ter atravessado o rio" - Provérbio Africano

Árvore da infância

A casa da nossa infância constrói-se com restos de memória, ergue-se com o concreto disponível à nossa imaginação e, desde o alto, melhor do que vislumbrar futuros é descer à terra e brincar com o que se tem à mão.

La casa de nuestra infancia se construye con restos de memoria, se levanta con el concreto disponible a nuestra imaginación y, desde lo alto, mejor que vislumbrar futuros es bajar a la tierra y jugar con lo que se tiene a mano.